Missão digital exige presença e encarnação, diz secretário do Dicastério da Comunicação a jesuítas e colaboradores
Reflexões de Mons. Lucio Ruiz durante webinar ecoam encontro internacional do MAGIS Think In e reforçam o chamado a uma evangelização que habite a cultura digital com proximidade e escuta.
Por Redação Rádio Amar e Servir
Publicado em 13/01/2026 19:13
Jesuítas
Mons. Lúcio Ruiz é Secretário do Departamento Vaticano para Comunicação e atual delegado do Papa para a presença e missão da Igreja na cultura digital

A missão da Igreja no ambiente digital foi o eixo central de reflexões que marcaram o MAGIS Think In, realizado nos primeiros dias de janeiro na Cúria Geral da Companhia de Jesus, em Roma. O encontro encontrou forte ressonância nas palavras de Lucio Ruiz, secretário do Dicastério para a Comunicação, que, em 3 de dezembro, festa de São Francisco Xavier, lançou um desafio direto aos jesuítas e colaboradores leigos: evangelizar hoje significa aprender a habitar a cultura digital, e não apenas utilizá-la como ferramenta.

Durante um webinar dirigido a comunicadores e agentes pastorais, Mons. Ruiz traçou um paralelo com a missão de São Francisco Xavier, que atravessou oceanos para encontrar as pessoas onde elas estavam. “Hoje, o território missionário é também o espaço digital, onde milhões de jovens vivem, pesquisam e dão sentido às suas vidas”, afirmou. Para ele, a evangelização não se reduz ao domínio técnico das plataformas: “É permitir que a Palavra habite a cultura do nosso tempo”.

Da aparência à presença

As provocações do secretário do Dicastério encontraram eco concreto entre participantes do MAGIS Think In e do seminário on-line. Para Guilherme Freitas, coordenador de Comunicação da Rede Inaciana de Juventude – MAGIS Brasil, o encontro representou uma mudança de horizonte. “A missão digital não se sustenta na lógica das métricas e dos algoritmos, mas na lógica do encontro. Encarnação é presença, proximidade, escuta e acompanhamento de pessoas reais em suas perguntas reais”, afirmou.

Segundo ele, a reflexão tem transformado o modo de comunicar: menos “aparência” e mais hospitalidade, ajudando os jovens a passar do simples post ao convite evangélico do “vem e vê”.

Na mesma linha, Juan Carlos Manso, diretor da SJDigital na Espanha, destacou que a referência à Encarnação foi decisiva: “Jesus não esteve com as pessoas de fora, tornou-se um de nós. Talvez o grande passo no mundo digital seja deixar de usar a internet apenas para dizer o que fazemos e começar a reconhecê-la como um lugar onde realmente estamos”.

Para Eric Clayton, do Laboratório de Mídia Jesuíta no Canadá e Estados Unidos, as palavras de Mons. Ruiz reafirmam uma convicção essencial: “Cristo habita entre o Povo de Deus, mesmo quando esse povo está fragmentado no espaço digital. Somos chamados a buscar Cristo onde dois ou três se reúnem, seja numa capela ou numa sala de bate-papo”.

Desafios e periferias digitais

A missão digital, no entanto, enfrenta obstáculos concretos, especialmente em contextos de maior vulnerabilidade. O Pe. Peter Banda, delegado da juventude da Província Jesuíta da África Austral, lembrou que muitos jovens não têm acesso estável à internet. “Os dados são caros e a conectividade é frágil. Ainda assim, precisamos estar atentos ao conteúdo que circula, muitas vezes degradante, e que afeta a saúde mental dos jovens”, afirmou.

Para ele, o desafio é garantir que os jovens tenham acesso a conteúdos que promovam valores morais e a dignidade humana, especialmente em um contexto marcado pela inteligência artificial e pela produção acelerada de informações.

Construir pontes, não apenas conteúdos

Durante o encontro em Roma, a cultura digital foi reconhecida como o contexto inevitável da missão com jovens adultos hoje. Integrantes do projeto Magis Digital Home, do sul da Ásia, sublinharam o caráter relacional desse ambiente. “Não criamos conteúdo para um público abstrato, mas construímos pontes para pessoas reais que estão em busca”, afirmou Neoma Jencyroy, ao lado de Shelton Raj.

A reflexão comum aponta para um consenso: a cultura digital não é um complemento opcional da pastoral juvenil, mas o espaço vital onde as novas gerações respiram, constroem sentido e formulam suas perguntas mais profundas. Habitar esse espaço com autenticidade inaciana — marcada pela escuta, pelo acompanhamento e pelo discernimento — é um dos grandes desafios assumidos pelos participantes do MAGIS Think In ao retornarem às suas regiões.

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