O legado teológico e pastoral do Papa Francisco ganha uma nova chave de leitura com o lançamento do livro A tradição dinâmica: o transbordamento como estratégia do papa Francisco para ultrapassar a polarização entre o depósito da fé e o da vida, de Gabriel Marquim. Publicada pela editora Carpintaria, a obra apresenta os resultados da tese de doutorado do autor em Ciências da Religião, defendida na Universidade Católica de Pernambuco (Unicap).
O livro propõe que a noção de “tradição dinâmica” seja compreendida como eixo central do magistério de Francisco, permitindo uma leitura da tradição cristã não como repetição estática, mas como processo vivo, capaz de responder às tensões culturais, sociais e eclesiais do nosso tempo sem romper com o núcleo da fé.
Um legado que segue como referência
Nos primeiros meses de seu pontificado, o Papa Leão XIV tem reiterado que o magistério de Francisco permanece como referência fundamental para a Igreja. Temas como a missão, a sinodalidade e a centralidade da Evangelii gaudium — amplamente retomados no recente Consistório Extraordinário — dialogam diretamente com a herança deixada por Jorge Mario Bergoglio.
É nesse contexto que a pesquisa de Marquim se insere, oferecendo instrumentos para compreender o alcance teológico e pastoral desse legado, especialmente diante das polarizações que marcam tanto a Igreja quanto a sociedade contemporânea.
Prefácio destaca valor teológico e pastoral
No prefácio da obra, publicado em primeira mão pela Vatican News, o teólogo italiano Piero Coda, secretário-geral da Comissão Teológica Internacional, reconhece no livro “uma contribuição preciosa” para a assimilação do magistério de Francisco. Segundo Coda, o autor identifica com precisão o paradigma da tradição dinâmica como princípio teológico e estratégia pastoral que orientaram o ministério petrino do Papa argentino em continuidade com o Concílio Vaticano II.
O prefácio ressalta ainda o rigor interdisciplinar da pesquisa, que articula teologia, sociologia e antropologia, dialogando com autores como Pierre Bourdieu e reconstruindo a formação espiritual e intelectual de Bergoglio. Esse percurso, afirma Coda, ajuda a compreender o habitus que sustentou escolhas centrais do pontificado, como o impulso à sinodalidade e ao discernimento comunitário.
Sinodalidade e discernimento comunitário
Entre os principais aportes do livro, o prefácio destaca a leitura da sinodalidade como desenvolvimento coerente do Vaticano II. Para Coda, o processo sinodal promovido por Francisco não é apenas uma estratégia pastoral, mas expressão concreta da tradição dinâmica aplicada à vida da Igreja, envolvendo o sensus fidei de todo o Povo de Deus, em comunhão com o ministério do bispo de Roma.
Outro ponto enfatizado é o papel do discernimento comunitário como método e estilo eclesial, capaz de formar uma Igreja mais participativa, corresponsável e fiel ao Evangelho. Trata-se, segundo o teólogo, de um elemento decisivo para a missão da Igreja no contexto global atual e para o diálogo ecumênico.
Uma herança em chave de esperança
Ao final do prefácio, Piero Coda associa o legado de Francisco a uma necessária “revolução cultural”, inspirada no Evangelho e aberta ao diálogo com o mundo contemporâneo. Uma herança que convida a Igreja a “repensar o pensamento”, superando lógicas binárias e exclusivistas, e a viver a fé como relação, escuta e comunhão, à luz da ágape de Deus.
Gabriel Marquim é jornalista e professor universitário, fundador da Comunidade dos Viventes e do Projeto Vincular, com sede no Recife. O livro A tradição dinâmica está disponível em pré-venda pela Amazon.