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A geração que procura sentido: por que a Companhia de Jesus aposta nos jovens para reinventar a esperança
Mais do que falar às juventudes, a missão inaciana propõe caminhar com elas em um tempo marcado por excesso de informação, solidão, crise de futuro, desigualdade e sede de sentido
Por Murilo Galhardo
Publicado em 26/06/2026 15:42 • Atualizado 26/06/2026 15:52
Jesuítas

Há uma juventude que não cabe mais nos discursos prontos. Ela está nas universidades, nas periferias, nos grupos de fé, nas redes sociais, nos trabalhos informais, nas comunidades, nos movimentos sociais, nas escolas, nas igrejas e também fora delas. Uma juventude que se conecta o dia inteiro, mas muitas vezes se sente sozinha. Que recebe milhares de estímulos, mas nem sempre encontra direção. Que escuta promessas de futuro, mas vive pressionada por ansiedade, incerteza profissional, crise climática, violência, desigualdade e falta de pertencimento.

É nesse cenário que a Companhia de Jesus escolhe uma palavra exigente: acompanhar.

Não se trata apenas de reunir jovens, organizar eventos ou ocupar espaços digitais. Acompanhar, no sentido inaciano, é mais profundo. É estar ao lado. É escutar a vida real. É ajudar cada jovem a reconhecer seus desejos mais fundos, suas feridas, seus talentos, suas perguntas e sua vocação. É oferecer presença em um mundo que, muitas vezes, entrega velocidade, mas não oferece direção.

A própria Companhia de Jesus reconhece que a juventude é tempo de decisões fundamentais e sonhos em construção, mas também uma etapa atravessada por grandes desafios: relações incertas na era digital, menores oportunidades de trabalho, violência política, discriminação e degradação ambiental. Tudo isso dificulta a construção de vínculos pessoais, familiares, espirituais e financeiros sólidos.

Por isso, a preferência apostólica de caminhar com os jovens não pode ser lida como um simples “tema de juventude”. Ela toca uma das perguntas mais urgentes do nosso tempo: como ajudar uma geração inteira a não perder a esperança?

Os números ajudam a entender a dimensão desse desafio. A Organização Internacional do Trabalho estima que, em 2025, cerca de 262 milhões de jovens entre 15 e 24 anos no mundo não estavam empregados nem estudando. É praticamente um em cada quatro jovens nessa faixa etária. No Brasil, segundo divulgação do IBGE em junho de 2026, havia 46,6 milhões de pessoas de 15 a 29 anos em 2025; entre elas, 16,6% não trabalhavam, não estudavam e nem se qualificavam.

Mas a crise não é apenas econômica. É também emocional, espiritual e comunitária. A Organização Mundial da Saúde estima que um em cada sete adolescentes de 10 a 19 anos viva com alguma condição de saúde mental, muitas vezes sem reconhecimento ou tratamento adequado. A OMS também aponta que ansiedade e depressão podem afetar a frequência escolar, o desempenho nos estudos e ampliar o isolamento.

Diante disso, a missão junto aos jovens não pode ser superficial. A Companhia de Jesus não propõe apenas “ocupar a juventude”, mas ajudá-la a discernir. E discernir é uma das palavras mais inacianas que existem. Significa aprender a ler a própria vida diante de Deus. Significa perceber quais vozes libertam e quais aprisionam. Significa escolher não apenas o que dá certo, mas o que dá sentido.

Em uma reflexão recente sobre o trabalho com jovens adultos, o Padre Geral Arturo Sosa, SJ, apontou três marcas de um autêntico ministério inaciano com as juventudes: vocação e discernimento pessoal; sensibilidade aos pobres e compromisso com justiça e paz; e oferta de comunidade. Ele afirma que, diante de tantas opções e vozes, a tradição inaciana do discernimento pode ajudar os jovens a se colocarem em contato com seus desejos mais profundos.

Essa é a grande diferença: para a espiritualidade inaciana, o jovem não é apenas alguém que precisa ser ensinado. Ele é alguém que precisa ser escutado. Não é um público-alvo, mas um sujeito de missão. Não é um “futuro distante” da Igreja, mas uma presença que já provoca conversão no presente.

A Companhia reconhece que acompanhar jovens também exige conversão das próprias obras, comunidades e linguagens. Na página oficial da preferência apostólica dedicada às juventudes, os jesuítas afirmam que desejam que suas casas e obras sejam espaços abertos à criatividade juvenil, ao encontro com Deus, ao aprofundamento da fé cristã e ao desenvolvimento pleno de crianças e jovens.

Essa abertura é decisiva porque a juventude atual não se contenta com discursos bonitos que não se transformam em prática. Ela percebe incoerências. Questiona instituições. Cobra posicionamento. Quer espiritualidade, mas também quer justiça. Quer oração, mas também quer escuta. Quer comunidade, mas não aceita ambientes fechados, frios ou moralistas. Quer fé, mas uma fé que dialogue com corpo, afeto, trabalho, ansiedade, política, meio ambiente, tecnologia e futuro.


É por isso que a Companhia de Jesus fala em caminhar com os jovens, e não apenas falar para eles. O acompanhamento inaciano não oferece respostas automáticas. Ele cria processos. E processo é uma palavra essencial quando se fala de juventudes. A vida de um jovem não se resolve em uma palestra, em um retiro, em um post ou em um evento. Ela precisa de caminho, vínculo, escuta, tempo e comunidade.

No Brasil, essa missão ganha forma em experiências como o MAGIS Brasil, a Rede Inaciana de Juventude. Em 2026, o Fórum MAGIS de Liderança Jovem reuniu jovens de diferentes regiões ligados às frentes apostólicas da Província dos Jesuítas do Brasil e a organizações parceiras. O percurso formativo aprofundou temas como realidades contemporâneas, espiritualidade inaciana, vida eclesial, pedagogias das juventudes, formação de grupos juvenis e projeto de vida.

Outras iniciativas mostram que o acompanhamento das juventudes também passa pelo contato com as feridas sociais. O EncarNAÇÃO 2026, realizado no Centro MAGIS Burnier, em Brasília, reuniu jovens do Brasil e de outros países da América Latina para refletir sobre juventudes e moradia, unindo espiritualidade, rodas de conversa, partilhas e inserção social. Já o curso sobre direitos das pessoas em situação de rua, promovido em rede pelo MAGIS Brasil e instituições parceiras, articula fé, direitos humanos e compromisso social, formando juventudes conscientes, críticas e comprometidas com a transformação da realidade.

Esse é um ponto central: a juventude acompanhada pela espiritualidade inaciana não é conduzida para dentro de uma bolha religiosa. Ela é enviada para o mundo. O discernimento verdadeiro não termina em si mesmo. Ele leva ao serviço. Leva à compaixão. Leva ao encontro com os pobres, os descartados, os feridos e os invisibilizados.

Também por isso, falar de juventude hoje é falar de Casa Comum. O Relatório Socioambiental 2024 do MAGIS Brasil reuniu dados, testemunhos e experiências sobre o compromisso socioambiental da Rede, apresentando histórias de jovens, projetos e iniciativas ligadas à missão de acompanhar a juventude na construção de um futuro de esperança.

A juventude que a Companhia acompanha não é abstrata. Tem rosto. Tem território. Tem sotaque. Tem dores concretas. É jovem que sofre com a falta de moradia, com o desemprego, com o racismo, com a crise ambiental, com a solidão, com a pressão estética, com a instabilidade emocional, com a falta de perspectiva. Mas também é jovem que canta, cria, comunica, lidera, reza, protesta, pergunta e sonha.

Talvez esteja aí a força dessa preferência apostólica: ela não romantiza os jovens, mas também não os reduz aos seus problemas. Ela reconhece que existe neles uma potência de renovação. Uma capacidade de imaginar caminhos que gerações anteriores talvez já não consigam enxergar. Uma coragem de perguntar o que ainda pode nascer.

Em mensagem sobre o trabalho da Companhia com jovens adultos, Padre Sosa afirmou que os jovens são protagonistas da cultura digital em rápida transformação e que possuem chaves intelectuais e culturais capazes de abrir novas possibilidades. Ao mesmo tempo, ele alertou para a necessidade de acompanhar os jovens nesse ambiente, para que a cultura digital seja lugar de encontro e não de afogamento.

Esse talvez seja um dos maiores desafios da missão hoje. A Igreja e as obras apostólicas não podem apenas “entrar nas redes” tentando parecer jovens. Precisam aprender a escutar o que as redes revelam: solidão, desejo de pertencimento, busca por identidade, carência de referências, necessidade de diálogo, fome de beleza e sentido.

Acompanhar jovens, portanto, não é uma estratégia de comunicação. É uma decisão espiritual. É aceitar que Deus também fala nas perguntas inquietas desta geração. Fala nas lágrimas escondidas atrás de uma tela. Fala nos sonhos interrompidos pela falta de oportunidade. Fala nas escolhas vocacionais. Fala na indignação diante da injustiça. Fala no desejo de amar, pertencer e servir.

A Companhia de Jesus aposta nos jovens porque acredita que a esperança não nasce de discursos vazios, mas de encontros verdadeiros. E talvez seja isso que o mundo mais precise agora: lugares onde os jovens possam ser escutados sem pressa, formados sem controle, acompanhados sem julgamento e enviados com confiança.

Porque uma juventude acompanhada pode descobrir sua vocação.
Uma juventude escutada pode reencontrar a esperança.
Uma juventude formada no discernimento pode transformar a realidade.
E uma juventude que encontra sentido pode lembrar ao mundo que o futuro ainda não está perdido.

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