APARECIDA (SP) — Três dias de oração, formação, escuta, partilha e encontro. O 5º Congresso Vocacional do Brasil chegou ao fim neste domingo, 6 de setembro, em Aparecida (SP), deixando para a Igreja no país um desafio que ultrapassa os dias de programação: fazer de cada comunidade um espaço onde pessoas possam encontrar Cristo, reconhecer o próprio chamado e descobrir maneiras concretas de colocá-lo a serviço.
Promovido pela Comissão Episcopal para os Ministérios Ordenados e a Vida Consagrada da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), o Congresso reuniu cerca de 950 participantes, entre cristãos leigos e leigas, religiosos e religiosas, seminaristas, ministros ordenados, bispos e agentes do Serviço de Animação Vocacional.
Mais que discutir o surgimento de novas vocações sacerdotais ou religiosas, o encontro propôs um olhar mais amplo sobre a própria identidade da Igreja: uma comunidade formada por pessoas chamadas. Essa compreensão atravessou o tema escolhido para esta quinta edição, “Comunidades Vocacionais: encontro, testemunho e missão”, iluminado pelo lema bíblico: “Perseverantes e bem unidos, partiam o pão pelas casas” (cf. At 2,46).
A passagem dos Atos dos Apóstolos ofereceu ao Congresso uma imagem concreta de comunidade. Uma Igreja que permanece unida, que partilha, que reza, que cria relações e que, justamente por viver dessa maneira, torna-se terreno onde o chamado de Deus pode ser percebido e acompanhado.
Uma Igreja inteira responsável pelas vocações
Entre as vozes ouvidas pela Rádio Amar e Servir durante o Congresso está a do padre Alexandre Mathé, coordenador nacional do Serviço de Animação Vocacional do Brasil. Sua presença coloca em perspectiva um dos pontos centrais desses três dias: a animação vocacional não pode ser tarefa restrita a algumas equipes ou aos responsáveis por seminários e casas de formação.
SONORA | Pe. Alexandre Mathé
Coordenador Nacional SAV Brasil
A proposta apresentada pelo 5º Congresso parte justamente da compreensão de que a cultura vocacional precisa atravessar toda a vida pastoral. Paróquias, famílias, comunidades, movimentos, grupos, escolas e espaços formativos tornam-se, cada um à sua maneira, ambientes de encontro e discernimento.
O texto-base do Congresso organiza esse itinerário a partir de quatro dimensões: a experiência bíblica, o encontro, o testemunho e a missão. A comunidade é compreendida como lugar de acolhida e escuta, mas também como espaço em que a pessoa aprende que responder a uma vocação significa sair de si e colocar os próprios dons a serviço.
O chamado ganha rosto nas Igrejas locais
Esse horizonte nacional encontra expressão concreta nas dioceses. Participando do Congresso, o padre Rafael Corrêa, da Diocese de Viana, no Maranhão, trouxe para o encontro a experiência de uma Igreja local e a responsabilidade de fazer com que aquilo que foi refletido em Aparecida encontre continuidade quando os participantes retornarem às próprias comunidades.
SONORA | Pe. Rafael Corrêa
Diocese de Viana – MA
É justamente no retorno para casa que começa uma das etapas mais importantes do Congresso. Se a experiência permanecer restrita aos participantes que estiveram em Aparecida, pouco terá mudado. O desafio proposto é transformar reflexões em processos de acompanhamento, escuta e proximidade, especialmente junto às novas gerações.
Nesse sentido, um dos caminhos trabalhados ao longo da preparação para o Congresso foi a necessidade de comunidades capazes de estabelecer relações verdadeiras, acolher as perguntas das juventudes e dialogar com as transformações da sociedade e também com as novas formas de comunicação.
A voz de quem está discernindo e respondendo
Entre quase mil participantes, também estavam aqueles que vivem de maneira muito concreta o processo de discernimento. É o caso de Jairo Veras, seminarista da Arquidiocese de São Luís, no Maranhão.
Sua presença ajuda a aproximar o debate vocacional das histórias reais de pessoas que, em algum momento, encontraram uma comunidade, foram acompanhadas, fizeram perguntas e começaram a reconhecer um caminho.
SONORA | Jairo Veras
Seminarista da Arquidiocese de São Luís
A experiência de um seminarista no Congresso evidencia uma questão essencial: antes de existir uma resposta, existe uma escuta. E para que essa escuta aconteça, são necessárias comunidades dispostas a caminhar ao lado de quem discerne, sem transformar a vocação apenas em recrutamento ou números.
É uma mudança importante de perspectiva. O objetivo não é simplesmente perguntar quantos sacerdotes ou religiosos existirão nos próximos anos, mas que comunidades a Igreja está construindo hoje e se essas comunidades ajudam cada pessoa a descobrir para que Deus a chama.
Testemunhar antes de convidar
O tema do testemunho ganhou também um significado particular durante o encontro. Uma comunidade se torna verdadeiramente vocacional quando aquilo que anuncia pode ser percebido na maneira como seus membros vivem.
O Frei David Naime Fioravante, OFMCap, sacerdote capuchinho, representa no vídeo a presença da Vida Religiosa Consagrada e de seus diferentes carismas no caminho vocacional da Igreja.
SONORA | Frei David Fioravante
Sacerdote Capuchinho
A trajetória de Frei David também está ligada à animação vocacional. Materiais da própria Província Capuchinha registram sua atuação no acompanhamento de jovens e no Serviço de Animação Vocacional, além de sua reflexão recorrente sobre a necessidade de cultivar uma cultura vocacional.
Sua presença, ao lado de sacerdotes diocesanos, seminaristas, religiosos, religiosas e leigos, ajuda a traduzir visualmente uma convicção que atravessou o Congresso: não existe apenas uma forma de responder ao chamado de Deus. Existem diferentes carismas, serviços, estados e projetos de vida, unidos pela mesma vocação fundamental ao seguimento de Cristo.
Encontro, testemunho e missão: o que fica depois de Aparecida
Quando o 5º Congresso Vocacional deixa Aparecida e volta para centenas de comunidades espalhadas pelo Brasil, suas três palavras principais ganham um novo sentido.
Encontro, porque dificilmente uma vocação amadurece no isolamento. É preciso encontrar Deus, encontrar o outro, ser acolhido e poder contar a própria história.
Testemunho, porque nenhuma campanha vocacional substitui a força de uma comunidade que vive com coerência, fraternidade, alegria e disponibilidade aquilo que anuncia.
E missão, porque o chamado não termina na descoberta da própria vocação. Toda resposta autêntica conduz ao serviço.
Foi esse movimento que o lema retirado dos Atos dos Apóstolos procurou recuperar: homens e mulheres perseverantes, unidos, reunidos ao redor do pão e capazes de transformar a própria vida comunitária em anúncio.
O Congresso termina, portanto, sem oferecer uma fórmula pronta para a realidade vocacional brasileira. Oferece algo talvez mais exigente: um compromisso.
O compromisso de construir comunidades capazes de acolher antes de cobrar respostas; escutar antes de indicar caminhos; acompanhar antes de contar números; e testemunhar, pela própria vida, que responder a Deus continua sendo uma possibilidade de liberdade, entrega e realização.
Depois de três dias em Aparecida, cada participante retorna à sua realidade. E é justamente aí que o 5º Congresso Vocacional começa a produzir seus frutos.
Porque o Congresso termina. O chamado continua.