“Estou aqui para ouvir.” Com essas palavras, o papa Leão XIV abriu, nesta quarta-feira (7), o primeiro consistório extraordinário de seu pontificado, reunindo cardeais de todo o mundo no Vaticano para um tempo intenso de reflexão, diálogo e discernimento sobre as prioridades da Igreja no futuro próximo.
O encontro, com duração de um dia e meio, teve início na Sala Nova do Sínodo, com uma meditação conduzida pelo cardeal dominicano Timothy Radcliffe. Inspirando-se no Evangelho em que Jesus vai ao encontro dos discípulos em meio à tempestade, Radcliffe traçou um paralelo com o tempo atual, marcado por violências, guerras, desigualdades sociais crescentes e incertezas diante das novas tecnologias, como a inteligência artificial.
“A diferença entre ricos e pobres está cada vez maior. A ordem global nascida após a última guerra mundial está se desintegrando”, afirmou o cardeal, recordando também as “tempestades internas” vividas pela Igreja, como os abusos e as divisões ideológicas. Para ele, o Consistório é um chamado a enfrentar essas realidades com verdade e coragem, sem permanecer à margem.
A luz de Cristo que atrai
Ao tomar a palavra, Leão XIV retomou o primeiro parágrafo da constituição dogmática Lumen gentium, recordando que Cristo é a luz dos povos, que ilumina a Igreja para que ela, por sua vez, irradie essa luz ao mundo. O Papa observou que os pontificados de São Paulo VI e São João Paulo II podem ser compreendidos como expressão dessa irradiação missionária, enquanto Bento XVI e Francisco sintetizaram essa visão na ideia de atração: não é a Igreja que atrai, mas o amor de Deus revelado em Jesus Cristo.
“Na medida em que nos amamos uns aos outros como Cristo nos amou, somos seus, somos a sua comunidade e Ele, através de nós, pode continuar a atrair. Só o amor é credível, só o amor é digno de fé”, afirmou.
O Pontífice alertou ainda que a unidade é condição essencial para a missão: “A unidade atrai, a divisão dispersa”. Por isso, destacou que a vivência concreta do mandamento do amor é o primeiro testemunho missionário da Igreja.
Comunhão e colegialidade
Leão XIV reconheceu a diversidade do Colégio Cardinalício — marcada por diferentes culturas, tradições e experiências pastorais — como uma riqueza que exige diálogo e conhecimento mútuo. Segundo ele, crescer em comunhão é condição para oferecer ao mundo um verdadeiro modelo de colegialidade e corresponsabilidade no serviço à Igreja.
Prioridades para o futuro próximo
O Consistório retoma e aprofunda o diálogo iniciado pelo Papa com os cardeais logo após sua eleição. Quatro grandes temas orientam os trabalhos:
-
Evangelii Gaudium: a missão da Igreja no mundo de hoje;
-
Praedicate Evangelium: o serviço da Santa Sé e da Cúria às Igrejas particulares;
-
Sinodalidade: como estilo e método de colaboração eclesial;
-
Liturgia: fonte e ápice da vida cristã.
Por razões de tempo e profundidade, apenas dois desses temas — escolhidos pelos próprios cardeais — serão analisados de modo mais detalhado. A reflexão parte de uma pergunta central: quais atenções e prioridades devem orientar a ação do Papa e da Cúria nos próximos um ou dois anos?
Uma Igreja que escuta
Ao concluir, Leão XIV sublinhou que a dinâmica do Consistório se inspira na experiência sinodal vivida pela Igreja nos últimos anos. “A dinâmica sinodal implica, por excelência, a escuta”, afirmou, incentivando intervenções breves e essenciais, para que todos possam se expressar.
“Escutar a mente, o coração e o espírito de cada um; escutar-nos mutuamente: esta é uma oportunidade para aprofundar o nosso apreço comum pela sinodalidade.”
Após o discurso do Pontífice, os cardeais seguiram para a Sala Paulo VI, onde os trabalhos prosseguiram em grupos, sob a invocação da Virgem Maria, Mãe da Igreja.