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São José exemplifica o ideal do jesuíta de contemplar a Deus em tudo aquilo que faz, diz padre
Na Solenidade de 19 de março, a Rádio Amar e Servir entrevista o padre Nilson Maróstica, SJ, que destaca São José como modelo de silêncio, discernimento e de uma vida que encontra Deus em todas as coisas no cotidiano
Por Jéssica Maia
Publicado em 19/03/2026 15:30 • Atualizado 19/03/2026 17:50
Jesuítas
Foto: Robert Cheaib de Pixabay

Celebrado neste 19 de março, São José, esposo da Virgem Maria e pai adotivo de Jesus, ocupa um lugar singular na vida da Igreja. Em plena Quaresma, o roxo penitencial dá lugar ao branco festivo, sinalizando que a liturgia interrompe o caminho austero para louvar aquele que, em silêncio, conduziu a Sagrada Família e continua a conduzir os fiéis  ao mistério da Páscoa.

Declarado patrono universal da Igreja, São José é também reconhecido como patrono da Companhia de Jesus. Por isso, a Rádio Amar e Servir ouviu o padre Nilson Maróstica, SJ, que refletiu sobre a atualidade desse homem justo, cuja vida discreta revela profundos ensinamentos à luz da espiritualidade inaciana.

Escuta atenta e discernimento: o silêncio que fala

A experiência de São José é, antes de tudo, uma experiência de escuta. Segundo Pe. Nilson,SJ trata-se de uma escuta que vai além das palavras, enraizada nos movimentos interiores, aquilo que Santo Inácio de Loyola chama de moções.

“São José foi um homem que soube escutar a Palavra de Deus, discernir e ter uma indiferença santa, ou seja, liberdade interior. Ele é modelo de escuta e discernimento, escuta a voz de Deus nos sonhos.”

O silêncio de José, longe de ser vazio, é um espaço fecundo onde Deus se manifesta. É nesse silêncio que ele reconhece a vontade divina, mesmo quando ela contraria seus planos iniciais.

“São José é o homem do silêncio, mas não um silêncio vazio, é um silêncio repleto de sabedoria, de discernimento.”

Essa atitude revela uma dimensão profundamente inaciana: a capacidade de perceber os movimentos da alma, acolher a vontade de Deus e agir com prontidão.

“Ao acordar, ele faz conforme o anjo ordenou. Isso reflete o aproveitar o tempo inaciano, agindo com prontidão quando a vontade de Deus se torna clara.”

Assim, José se torna o protetor corajoso, que confia radicalmente em Deus, mesmo diante de situações inesperadas, como a gravidez de Maria ou a fuga para o Egito.

Espiritualidade do cotidiano: santidade que se constrói no ordinário

A vida de São José é marcada pela fidelidade no oculto. Ele não ocupa o centro das narrativas, não profere palavras nas Escrituras, mas sua existência é profundamente eloquente.

“São José tem uma vida caracterizada pelo silêncio, fidelidade e obediência. Ele oferece um modelo profundo para todos os jesuítas e para os leigos, especialmente na vivência da espiritualidade no cotidiano.”

Para Pe. Nilson, SJ José ensina que a verdadeira missão se realiza na simplicidade das tarefas diárias: no cuidado, no trabalho, na responsabilidade assumida com amor.

“A vida de José se mostra como uma vida de santidade construída no dia a dia, no passo a passo, no cuidar de Maria e de Jesus, no cumprimento fiel dos deveres de estado.”

Essa perspectiva valoriza a vocação dos leigos e também a missão muitas vezes silenciosa dos jesuítas, chamados a serem, como José, guardiões dos bens de Deus.

Um testemunho para tempos de ansiedade

Em um mundo marcado pela pressa, pela insegurança e pela superficialidade das relações, a figura de São José surge como um contraponto profético.

“A figura de São José é de uma atualidade impressionante. Em um mundo marcado pela correria, ele se destaca como um modelo de estabilidade, de fé e de compromisso profundo.”

Seu silêncio contrasta com o ruído contemporâneo. Sua interioridade desafia a cultura da pressa.

“José ensina a pausar, a refletir, a escutar a voz de Deus antes de agir.”

Diante das incertezas, ele escolhe a fidelidade. Diante das provações, confia.

“Ele ensina a viver a fé superando as ansiedades do cotidiano, através da confiança de que Deus está no controle, mesmo nas maiores provações.”

José é, assim, o homem que repousa em Deus, aquele que sonha porque confia, porque descansa.

A devoção do Papa Francisco e a contemplação na ação

A espiritualidade de São José também encontrou eco no pontificado do Papa Francisco, o primeiro papa jesuíta, que sempre manifestou profunda devoção ao santo.

Em 2020, no contexto da pandemia de Covid-19, o pontífice convocou a Igreja a redescobrir a figura de José por meio da carta apostólica Patris Corde, celebrando os 150 anos de sua proclamação como padroeiro da Igreja.

Segundo Pe. Nilson,SJ essa devoção está intimamente ligada à espiritualidade inaciana.

“Para o Papa Francisco, São José não é apenas um santo do passado, mas um homem presente, homem forte e homem do silêncio, que protege a Igreja de forma ativa, mesmo em repouso.”

José encarna o ideal inaciano de ser “contemplativo na ação”: alguém que encontra Deus em todas as coisas, inclusive no ordinário da vida.

“São José exemplifica o ideal do jesuíta de contemplar a Deus em tudo aquilo que faz.”

Sua missão é clara: colocar Cristo no centro.

“José é o guarda de Cristo. Sua missão foi proteger o menino e sua mãe.”

Um pai que conduz à Páscoa

No coração da Quaresma, São José surge como guia seguro no caminho de conversão. Sua vida ensina que a santidade não está nos grandes feitos visíveis, mas na fidelidade silenciosa, na escuta atenta e na coragem de confiar.

Mais do que um personagem do passado, José permanece atual: um pai que conduz à Páscoa, um homem que ensina a viver com profundidade, fé e discernimento  no silêncio onde Deus continua a falar.

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