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No Caaró, o coração de São Roque González volta à fonte e faz a fé pulsar novamente
Relíquia percorre as Missões no contexto dos 400 anos da presença jesuítica e, ao chegar ao Santuário do Caaró, provoca um reencontro profundo com a espiritualidade encarnada e o chamado à missão no cotidiano
Por Murilo Galhardo
Publicado em 04/05/2026 18:26 • Atualizado 04/05/2026 18:32
Jesuítas
Coração Roque Gonzales - 400 anos das Missões Jesuíticas Guaranis

A chegada do coração de São Roque González ao Santuário do Caaró, vivida ao longo do fim de semana deste início de maio, insere-se em um contexto histórico e espiritual mais amplo, marcado pela peregrinação da relíquia pelas antigas reduções jesuítico-guarani em memória aos 400 anos da presença missionária na região. O momento mobilizou fiéis, religiosos e comunidades em uma experiência que ultrapassa o caráter devocional e se afirma como um verdadeiro reencontro com as origens da fé vivida naquele território, especialmente por conectar passado e presente em uma mesma dinâmica espiritual.

Em entrevista concedida à reportagem, o Ir. Ubiratan de Oliveira Costa, jesuíta, que acompanhou de perto as atividades no santuário durante o fim de semana, destacou que a força desse momento está na concretude da fé que ali foi testemunhada. Para ele, não se trata apenas de recordar uma história, mas de experimentar novamente aquilo que foi vivido com radicalidade no passado, agora como presença que interpela e provoca quem se aproxima.


“É como se a gente estivesse voltando à fonte. Pisar esse chão, esse lugar, é vir a fé encarnada. Não só falada, ela foi vivida até o fim.”

O retorno da relíquia ao local do martírio reforça o caráter simbólico da peregrinação e reabre uma reflexão sobre o sentido da missão nos dias de hoje, sobretudo na relação com os povos originários, que marcaram profundamente a trajetória de São Roque González. Nesse sentido, a presença do coração não apenas recorda um testemunho, mas atualiza seu significado no presente.

“O coração dele, que simboliza toda a sua entrega, volta exatamente para o lugar onde ele disse sim, com a vida inteira doada aos povos indígenas, principalmente a esses povos aqui guaranis. E isso mexe com a gente.”

A experiência vivida no Caaró também evidencia um dos fundamentos da espiritualidade inaciana, que propõe o encontro com Deus a partir da realidade concreta e da experiência pessoal. O que se vive no santuário não permanece no nível da memória histórica, mas se manifesta como graça atual, capaz de gerar transformação interior e reacender a fé de forma sensível e concreta.

“Não é só uma memória, é a graça acontecendo de novo. A gente poderia dizer assim, a graça acontecendo de novo.”

Ao ser confrontado com a realidade contemporânea, o testemunho do mártir missioneiro ganha ainda mais força. Em um cenário marcado pela dispersão e pela dificuldade de compromissos duradouros, sua vida aparece como um contraponto direto, evidenciando a possibilidade de uma entrega total e coerente com aquilo em que se acredita.

“Fala de alguém que não viveu pela metade, foi integralmente todo o seu ser. Isso bate forte hoje, porque a gente se divide muito, se dispersa, às vezes até acredita, mas sem se comprometer tanto.”

Essa provocação, no entanto, não conduz à busca por gestos extraordinários, mas a uma revisão profunda do modo como a fé é vivida no cotidiano. A radicalidade do Evangelho se manifesta na profundidade das pequenas escolhas e na disponibilidade interior para servir.

“Ele não pede que a gente faça coisas extraordinárias, nosso Senhor não pede isso, mas que vivamos com mais profundidade, com mais liberdade interior, mais disponível.”

Ao refletir sobre a vida dos santos, o Ir. Bira também destaca que esse caminho de entrega não é exclusivo de figuras extraordinárias, mas acessível a todos, mesmo dentro das limitações humanas. A santidade se constrói no processo, no dia a dia, nas pequenas decisões que vão moldando a vida.

“Eu acredito que não é coisa somente dos santos, dos grandes místicos. Nós, na nossa pequenez, na nossa fragilidade, podemos sim, a cada dia, ao nosso modo, ir nos entregando e nos colocando a serviço do Reino de Deus.”

O ambiente do Santuário do Caaró contribui para essa experiência de maneira significativa. Inserido em meio à natureza e marcado pela simplicidade, o espaço favorece o silêncio, a oração e o encontro interior. Durante o fim de semana, a presença de pessoas de diferentes origens evidenciou a dimensão comunitária da fé e a diversidade de formas pelas quais ela se expressa.

“Esse momento é como se a gente estivesse sendo sacudido, mexido, movido, porque traz a fé de volta para o coração, não só para a cabeça.”

Na lógica inaciana, é justamente dessa experiência que nasce a missão, entendida não como obrigação, mas como resposta livre a um chamado interior. A vivência no Caaró revela que o encontro com testemunhos fortes como o de São Roque González tem a capacidade de reacender o desejo de servir e de viver com mais autenticidade.

“Na lógica inaciana, tudo começa pela experiência. Sentir, perceber, se deixar tocar. Quando alguém se encontra com um testemunho tão forte assim, algo reacende por dentro. E missão nasce daí, não de obrigação, mas de um coração que se sente chamado.”

Esse chamado se concretiza no cotidiano, sem necessidade de grandes projetos ou mudanças radicais imediatas. A missão se constrói na realidade concreta, na escuta e na disponibilidade para amar mais e servir melhor onde cada pessoa está inserida.

“Não precisa inventar nada grandioso. É voltar a perguntar no dia a dia: Senhor, onde posso amar mais? Onde posso servir melhor? E a missão vai se desenhando aí, onde eu estou.”

Por fim, o Ir. Bira ressalta que viver esse momento no Caaró também representa um reencontro com as raízes da fé vivida nas comunidades e na cultura popular, onde o Evangelho ganha forma concreta na vida das pessoas.

“Pra mim, enquanto religioso, enquanto jesuíta irmão, isso é reacender mesmo aquilo que eu aprendi na cultura popular, nas comunidades de base. Então, é uma experiência muito bonita.”

A passagem do coração de São Roque González pelo Caaró deixa mais do que o registro de um evento religioso. Deixa um chamado à coerência, à profundidade e à entrega. Em um tempo marcado por dispersões e superficialidades, o testemunho do mártir missioneiro volta a apontar para o essencial, recordando que uma vida simples, vivida com verdade e inteireza, continua sendo capaz de transformar realidades.

 

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