A coletiva de imprensa desta sexta-feira, 17 de abril, durante a 62ª Assembleia Geral da CNBB, realizada em Aparecida (SP), apresentou uma leitura profunda do cenário atual vivido pela sociedade e pela Igreja, trazendo elementos centrais que orientam a construção das novas diretrizes da ação evangelizadora no Brasil.
A análise de conjuntura social foi conduzida por Dom Francisco, coordenador do grupo responsável por esse estudo, que destacou a gravidade do momento histórico. Em um mundo marcado por conflitos, polarizações e insegurança, a reflexão partiu da urgência da paz como caminho indispensável para a humanidade.
“A guerra não pode ser a solução. Não podemos permitir que a humanidade volte a um estado de guerra de todos contra todos.”
A fala evidencia não apenas uma crítica ao cenário global, mas um chamado direto à responsabilidade cristã diante das tensões do mundo contemporâneo. Dom Francisco reforçou que a missão da Igreja não está ligada ao poder, mas ao testemunho evangélico.
“Cabe à Igreja contribuir com a paz, com a reconciliação e com o perdão.”
A análise também apontou que o contexto atual é atravessado por interesses econômicos, disputas políticas e uma cultura do medo que atinge diferentes nações, gerando impactos que chegam às realidades locais e à vida cotidiana das pessoas.
Na sequência, Dom Joel Portela Amado, presidente da Comissão Episcopal para a Doutrina da Fé (Justiça e Fé), apresentou a análise de conjuntura eclesial, buscando responder por que a Igreja está fazendo determinadas escolhas nas novas diretrizes.
Ao abordar o cenário religioso brasileiro, destacou uma mudança significativa na forma de viver a fé.
“O Brasil não se tornou menos religioso. Ele se tornou pluralmente religioso.”
Segundo ele, essa pluralidade se expressa tanto na diversidade de crenças quanto no modo como as pessoas constroem sua espiritualidade.
“As pessoas circulam entre religiões e vão compondo suas próprias experiências.”
Esse contexto desafia a Igreja a manter sua identidade, sem deixar de dialogar com a realidade atual. Um dos pontos mais relevantes da coletiva foi o crescimento da presença católica nas redes sociais, visto como uma oportunidade, mas também como um risco.
“Não há como negar o espaço digital, mas a fé não pode existir apenas ali. O verbo se fez carne, se fez presença.”
A fala reforça que a experiência cristã não pode se limitar ao ambiente virtual, exigindo uma vivência concreta na comunidade.
“É na iniciação à vida cristã, no contato com a Palavra de Deus e no convívio com os irmãos que a fé se torna sólida.”
Outro ponto de destaque foi a chamada “crise de vínculos”, considerada uma das marcas mais profundas da sociedade atual. Em um mundo cada vez mais individualizado, cresce o enfraquecimento das relações humanas e comunitárias.
“Vivemos uma policrise, uma crise de vínculos, de afetos e de fraternidade.”
Diante disso, a Igreja é chamada a ser espaço de reconstrução dessas relações, oferecendo sentido, acolhimento e pertencimento.
A coletiva também abordou a diversidade de expressões dentro do próprio catolicismo, especialmente entre os jovens. Ao comentar o crescimento de práticas mais tradicionais, Dom Joel destacou que a pluralidade faz parte da identidade da Igreja, mas fez um alerta importante.
“O problema não é a diversidade, mas quando alguém acredita que apenas o seu modo de viver a fé é o correto.”
No campo da evangelização, a iniciação à vida cristã apareceu como prioridade nas novas diretrizes. A Igreja reconhece que o modelo tradicional já não responde plenamente às necessidades atuais, especialmente diante de famílias que muitas vezes não transmitem mais a fé.
“Não podemos mais trabalhar apenas com cursos para sacramentos. É preciso levar ao encontro com Jesus Cristo e à vida em comunidade.”
Essa mudança aponta para uma conversão pastoral, que deixa de lado a lógica de prestação de serviços e assume uma proposta de formação integral do cristão.
A família também foi destacada como elemento essencial nesse processo. Em meio às transformações culturais, os bispos reafirmaram sua importância e a necessidade de fortalecê-la à luz do Evangelho.
“Não há projeto social ou político que substitua a família.”
Ao mesmo tempo, foi ressaltado que a Igreja pode contribuir promovendo experiências comunitárias entre famílias, fortalecendo vínculos e testemunhos.
Por fim, a coletiva reafirmou a necessidade de uma Igreja em saída, especialmente no diálogo com os jovens e com aqueles que ainda não vivem uma experiência comunitária de fé.
“Não basta esperar que venham. É preciso ir onde os jovens estão.”
A coletiva evidenciou que a Igreja no Brasil enfrenta um tempo exigente, marcado por mudanças profundas, mas também por oportunidades de renovação. Entre a busca pela paz, o desafio do mundo digital, a pluralidade religiosa e a necessidade de reconstruir vínculos, a Assembleia segue apontando caminhos para uma evangelização mais encarnada, missionária e fiel ao Evangelho.