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Abuso de poder na vida religiosa: “quando a obediência pisa a pessoa, já estamos diante de uma violência”, afirma irmã Annamaria Amarante
Missionária da Comunidade Missionária Villaregia, pesquisadora e autora do livro Entre Vós Não Seja Assim: Abuso de Poder na Vida Consagrada, a irmã Annamaria Amarante esteve no Centro Magis Anchietanum, em São Paulo, conduzindo uma formação sobre abuso de poder na Igreja. Em entrevista à Rádio Amar e Servir, ela falou sobre as raízes sistêmicas dos abusos, os silêncios que ainda atravessam a vida eclesial e os caminhos possíveis de reparação, discernimento e reconstrução das comunidades religiosas.
Por Murilo Galhardo
Publicado em 09/05/2026 15:28 • Atualizado 09/05/2026 20:09
Igreja
Ir. Anamaria Amarante | Centro Magis Anchietanum

O abuso de poder dentro da Igreja nem sempre se apresenta de forma evidente. Muitas vezes, ele se esconde em estruturas, discursos e práticas consideradas “normais” dentro da vida comunitária. Foi justamente essa constatação que levou a irmã Annamaria Amarante a aprofundar seus estudos sobre a dinâmica dos abusos no contexto eclesial, especialmente na vida religiosa consagrada.

Missionária da Comunidade Missionária Villaregia, com experiência na promoção dos direitos humanos, na educação e no empoderamento das mulheres, Annamaria participou da formação promovida pelo Núcleo Lux Mundi em parceria com a CRB Nacional, realizada no Centro Magis Anchietanum, em São Paulo. O curso teve como base seu livro Entre Vós Não Seja Assim: Abuso de Poder na Vida Consagrada, publicado pela Paulus Editora, obra que se tornou uma importante referência para compreender os mecanismos espirituais, institucionais e relacionais que sustentam culturas abusivas dentro da Igreja.

O título do livro nasce diretamente do Evangelho de Marcos 10,42-45, quando Jesus adverte os discípulos sobre a lógica do poder: “Entre vós não seja assim”. A frase se transforma, na leitura da autora, não apenas em uma exortação espiritual, mas em um critério profundo de discernimento e revisão das estruturas e relações eclesiais.

Ao falar sobre a dificuldade de identificar o abuso de poder na vida consagrada, a irmã recorda que esse debate ainda é recente na Igreja e exige maturação teológica, pastoral e institucional. Segundo ela, é importante distinguir atos isolados de um comportamento sistemático e permanente de opressão.

“L’abuso di potere si misura nel tempo, quando diventa un atteggiamento costante, violento, tossico, abusante.”

“O abuso de poder se revela ao longo do tempo, quando se torna uma atitude constante, violenta, tóxica e opressora.”

Para Annamaria, o grande desafio está justamente no fato de que essa realidade toca profundamente toda a comunidade eclesial. O abuso não é apenas uma experiência individual, mas uma lógica relacional que atravessa estruturas, mentalidades e culturas.

“Credo che non ci sia una persona dentro alla Chiesa che non abbia in qualche maniera abusato del suo potere o subito le conseguenze di un abuso di potere.”

“Penso que não há ninguém na Igreja que, de alguma forma, nunca tenha abusado do seu poder ou sofrido as consequências de um abuso de poder.”

Durante a entrevista, a missionária refletiu também sobre temas tradicionalmente presentes na vida religiosa, como obediência, autoridade e vida comunitária. Segundo ela, esses valores deixam de ser evangélicos quando deixam de promover vida plena e passam a diminuir a dignidade da pessoa.

A religiosa propõe um critério profundamente evangélico para discernir relações saudáveis dentro da Igreja: a vida em abundância anunciada por Jesus.

“Quando l’obbedienza mi porta a una vita in pienezza, a un fiorire e un dare frutto che è pienezza di vita, allora siamo in un esercizio dell’obbedienza sano.”

“Quando a obediência me conduz a uma vida plena, ao florescimento e ao fruto que é plenitude de vida, então estamos diante de um exercício saudável da obediência.”

Mas ela alerta que a violência espiritual começa exatamente quando a pessoa deixa de florescer.

“Quando invece l’obbedienza o altri aspetti della vita religiosa calpestano la persona, in qualche maniera la riducono come uomo, come donna, come persona consacrata a Dio, allora siamo già dentro all’ambito di un abuso di potere o di coscienza o spirituale.”

“Quando a obediência ou outros aspectos da vida religiosa pisoteiam a pessoa, de alguma forma a diminuem como homem, como mulher, como pessoa consagrada a Deus, então já estamos diante de uma situação de abuso de poder, de consciência ou espiritual.”

Ao abordar os caminhos concretos para prevenção dos abusos, Annamaria destaca que a transformação precisa acontecer em vários níveis simultaneamente. O primeiro deles, segundo ela, é teológico. A pesquisadora acredita que diferentes áreas da teologia, da bíblica à moral, passando pela espiritualidade e pela pastoral, precisam ser revisitadas à luz das experiências concretas de sofrimento vividas por tantas pessoas dentro da Igreja.

Ela também aponta a necessidade urgente de amadurecimento relacional dentro das comunidades religiosas, especialmente na forma como se vive a autoridade, a fraternidade e os vínculos comunitários. Além disso, destaca que a vida religiosa precisa dialogar mais profundamente com as ciências humanas para compreender aspectos organizacionais, institucionais e sistêmicos ligados aos abusos.

“Come organizzare la vita nelle nostre comunità perché sia davvero una vita pienamente umana, oltre che pienamente evangelica e spirituale.”

“Como organizar a vida nas nossas comunidades para que ela seja verdadeiramente uma vida plenamente humana, além de plenamente evangélica e espiritual.”

Para Anamaria, não basta apenas denunciar casos isolados. É necessário compreender os ambientes que favorecem silêncios, assimetrias e dependências doentias.

A origem de sua pesquisa nasce justamente de uma experiência concreta de dor vivida dentro da própria Comunidade Missionária Villaregia. Durante a entrevista, a religiosa revelou que o aprofundamento sobre o tema não surgiu inicialmente de uma curiosidade acadêmica, mas de uma necessidade vital de compreender e enfrentar os abusos sofridos pela própria congregação.

“È a partire da questa esperienza dolorosa e sofferta che nella comunità è nato il desiderio che qualcuno potesse maggiormente approfondire questa realtà per meglio capire quello che abbiamo vissuto e anche per individuare sempre di più cammini certi di riparazione, di rinascita come comunità.”

“Foi a partir dessa experiência dolorosa e sofrida que surgiu na comunidade o desejo de aprofundar essa realidade, para melhor compreender o que vivemos e também identificar caminhos cada vez mais seguros de reparação e renascimento como comunidade.”

A partir dessa travessia, o estudo se tornou também um caminho de reconstrução espiritual e institucional. Sua obra, construída a partir de extensa pesquisa, testemunhos e análises em diferentes línguas, propõe justamente uma reflexão ampla sobre a prevenção de uma “cultura eclesial de abusos”, entendendo o abuso como uso imoderado do poder em relações profundamente assimétricas.

Ao encerrar a entrevista concedida à Rádio Amar e Servir, irmã Annamaria Amarante reforçou que a urgência desse debate não se limita apenas à vida religiosa, mas atravessa toda a Igreja e toda a dinâmica vocacional.

Em um tempo em que o Brasil vive o 5º Congresso Vocacional, refletindo sobre comunidades vocacionais e colaboração na missão, a religiosa afirma que o enfrentamento dos abusos é condição essencial para que a Igreja se torne verdadeiramente um espaço seguro, humano e evangélico.

“La vita consacrata è una vita di pienezza.”

“A vida consagrada deve ser um lugar de plenitude, onde a pessoa possa florescer plenamente.

Mais do que uma pauta institucional, o combate ao abuso de poder revela uma pergunta profundamente espiritual: que tipo de comunidade cristã queremos construir?

“Tra voi però non è così.”

“Entre vós não seja assim.”

Entrevista: Vinicius Alencar | Texto: Murilo Galhardo | Rádio Amar e Servir

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