A Fraternidade Sacerdotal São Pio X, grupo tradicionalista ligado ao legado de dom Marcel Lefebvre, ordenou nesta quarta-feira, 1º de julho, quatro novos bispos em Ecône, na Suíça, sem mandato pontifício. A celebração aconteceu na sede histórica da Fraternidade e foi presidida pelos bispos Alfonso de Galarreta e Bernard Fellay, ambos ligados às consagrações episcopais de 1988, que marcaram uma das maiores rupturas recentes entre Roma e os chamados lefebvrianos.
Segundo o Vatican News, os novos bispos ordenados são Pascal Schreiber, suíço, Michael Goldade, norte-americano, e os franceses Michel Poinsinet de Sivry e Marc Happier. A celebração reuniu milhares de fiéis, religiosos e sacerdotes, e foi apresentada pelo superior da Fraternidade, padre Davide Pagliarani, como um “dia histórico”. Para a Igreja, no entanto, o gesto representa a renovação de uma ferida: a da divisão.
Mas quem são os lefebvrianos? A expressão se refere aos seguidores de dom Marcel Lefebvre, arcebispo francês que fundou a Fraternidade Sacerdotal São Pio X em 1970. Embora muitas vezes seja chamada popularmente de “ordem”, a Fraternidade se apresenta como uma comunidade sacerdotal dedicada à formação de padres, à celebração da liturgia segundo formas anteriores à reforma litúrgica do Concílio Vaticano II e à defesa daquilo que seus membros chamam de Tradição católica.
O ponto central da tensão com Roma não é simplesmente o amor pela liturgia antiga. A própria Igreja reconhece a riqueza das diversas tradições espirituais e litúrgicas. O problema está na ruptura da comunhão e na rejeição prática da autoridade do Papa e do Magistério da Igreja, especialmente em relação ao Concílio Vaticano II e aos ensinamentos posteriores dos pontífices. Bento XVI afirmou, em 2009, que a Fraternidade São Pio X não possuía status canônico na Igreja e que seus ministros não exerciam legitimamente nenhum ministério enquanto as questões doutrinais não fossem resolvidas.
A crise atual remete diretamente a 30 de junho de 1988, quando dom Marcel Lefebvre consagrou quatro bispos sem autorização do Papa João Paulo II. No motu proprio Ecclesia Dei, publicado dois dias depois, João Paulo II classificou o ato como uma desobediência grave ao Romano Pontífice e como um ato cismático, por atingir diretamente a unidade da Igreja e a comunhão do colégio episcopal com o Sucessor de Pedro.
No direito da Igreja, a ordenação de um bispo sem mandato pontifício é matéria gravíssima. O Código de Direito Canônico prevê que tanto o bispo que consagra alguém sem mandato do Papa quanto aquele que recebe essa consagração incorrem em excomunhão latae sententiae, isto é, uma excomunhão automática, reservada à Sé Apostólica.
Ao longo das últimas décadas, porém, a Santa Sé buscou caminhos de aproximação. Em 2009, Bento XVI remiu a excomunhão dos quatro bispos ordenados por Lefebvre, deixando claro que a medida não significava plena regularização da Fraternidade, mas um gesto de abertura ao diálogo. O próprio Papa explicou que as questões doutrinais permaneciam e que a Fraternidade continuava sem status canônico regular na Igreja.
Também o Papa Francisco tomou medidas pastorais para acompanhar os fiéis ligados à Fraternidade. Em 2017, a Pontifícia Comissão Ecclesia Dei autorizou que bispos locais pudessem conceder faculdades para a celebração de matrimônios de fiéis atendidos pastoralmente pela Fraternidade São Pio X, buscando aliviar dúvidas de consciência e favorecer um caminho de regularização.
Antes das ordenações desta quarta-feira, o Papa Leão XIV fez um último apelo ao superior da Fraternidade, padre Davide Pagliarani. Em carta datada de 29 de junho, solenidade de São Pedro e São Paulo, o Pontífice pediu que os lefebvrianos reconsiderassem a decisão e não “rasgassem a túnica de Cristo”. O Papa recordou que a Igreja permanecia aberta ao diálogo, mas advertiu que uma ação cismática prejudicaria sobretudo o bem espiritual dos fiéis.
O episódio, portanto, vai além de uma disputa litúrgica. Ele toca uma pergunta essencial para a vida da Igreja: como conservar a Tradição sem romper a comunhão? Para a fé católica, a Tradição não é uma peça de museu, congelada no passado, mas uma realidade viva, guardada e interpretada no caminho da Igreja, em comunhão com o Papa e os bispos.
Em tempos marcados por polarizações também dentro da comunidade cristã, o caso de Ecône recorda que a fidelidade à fé não pode caminhar separada da caridade, da obediência e da unidade. A Igreja não é construída pela força de grupos isolados, mas pela comunhão daqueles que, mesmo com sensibilidades diferentes, permanecem unidos em Cristo.
A ferida aberta em Ecône não é apenas jurídica ou institucional. É espiritual. E, por isso, a resposta da Igreja passa também pela oração, pelo diálogo e pelo desejo sincero de que ninguém se afaste da comunhão visível com o Sucessor de Pedro.