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Leão XIV pede que Igreja e mundo “levantem o olhar” e enxerguem a humanidade com compaixão
Na catequese desta quarta-feira, 17 de junho, o Papa retomou sua Viagem Apostólica à Espanha e falou sobre comunhão, diálogo, migração, esperança, dignidade humana e paz. Ao final, celebrou o acordo entre Irã e Estados Unidos e voltou a pedir o fim da guerra na Ucrânia
Por Murilo Galhardo
Publicado em 17/06/2026 10:07
Igreja
Papa Leão | Vatican News

Na Audiência Geral desta quarta-feira, realizada às 10h na Praça de São Pedro, o Papa Leão XIV encontrou peregrinos e fiéis vindos da Itália e de várias partes do mundo. Em sua catequese, inspirada no Evangelho de João, o Pontífice fez uma leitura espiritual e pastoral de sua recente Viagem Apostólica à Espanha, onde visitou Madri, Barcelona, a Abadia de Montserrat e as Ilhas Canárias.

Ao recordar a visita, o Papa destacou a acolhida calorosa do povo espanhol e afirmou ter encontrado, em diferentes lugares do país, uma fé viva, marcada por entusiasmo, afeto e abertura à escuta. Leão XIV disse ter dado graças a Deus, ao povo espanhol, ao Rei, às autoridades civis, aos bispos e às comunidades eclesiais pela recepção recebida. Para ele, a presença expressiva das multidões não foi apenas uma manifestação de carinho, mas também sinal de uma necessidade profunda do mundo atual: reencontrar um fundamento verdadeiro, capaz de unir as pessoas para além de interesses ideológicos ou egoístas.

Segundo o Pontífice, esse fundamento só pode ser encontrado plenamente em Cristo. O Papa afirmou que o Evangelho continua sendo capaz de falar à vida dos povos porque responde a duas buscas essenciais da humanidade: a busca da verdade e a sede de justiça. Nesse sentido, Leão XIV encorajou os fiéis a superarem divisões e oposições, cultivando sempre a comunhão, o diálogo e a unidade na diversidade.

A viagem, segundo o Papa, também revelou o encontro entre a tradição católica e a cultura contemporânea. Em Madri e Barcelona, Leão XIV recordou as celebrações nas catedrais e nos estádios; em Montserrat, a oração do Santo Rosário; e, na Sagrada Família, a força de um símbolo que ele descreveu como uma “sinfonia de pedra e luz”, capaz de falar ao mundo sobre o mistério cristão. Para o Pontífice, essa convivência entre o antigo e o moderno expressa a riqueza da Europa, um patrimônio que precisa ser preservado e colocado a serviço dos grandes desafios do tempo presente.

Entre esses desafios, Leão XIV citou a paz, a ecologia integral, o desenvolvimento equitativo e sustentável, o respeito à dignidade humana e a defesa da pessoa diante das transformações provocadas pela inteligência artificial, tema também presente em sua recente encíclica Magnifica Humanitas. O Papa afirmou que a humanidade de hoje está duramente provada pelas consequências de um modelo de desenvolvimento enganoso e precisa escutar novamente o Evangelho da esperança.

Durante a catequese, o Pontífice deu atenção especial aos rostos concretos encontrados ao longo da viagem: crianças, pobres, vítimas de abusos, presos, jovens marcados por inquietações e projetos, além dos migrantes acolhidos nos centros das Ilhas Canárias. Para Leão XIV, essas realidades mostram que a missão da Igreja não pode se limitar a discursos abstratos, mas deve tocar a vida ferida das pessoas.

Nas Ilhas Canárias, última etapa da viagem, o Papa afirmou ter recebido uma compreensão mais ampla do fenômeno migratório. Ele reconheceu que a migração é uma realidade complexa, que exige ações coordenadas e integradas, mas também disse que ela abre uma perspectiva evangélica: a possibilidade de reinterpretar o Evangelho no mundo de hoje por meio do encontro entre culturas, povos e histórias. Para o Papa, o diálogo fraterno permite descobrir e valorizar os dons que cada pessoa e cada povo trazem consigo.

“Essa jornada não é fácil; exige boa vontade e a ajuda de Deus, mas é o caminho que leva à civilização do amor.”

O lema da Viagem Apostólica à Espanha, “Alzad la mirada”, em português “Levantai o olhar”, foi o centro espiritual da reflexão. A expressão, inspirada em João 4,35, foi apresentada por Leão XIV como um convite de Jesus aos discípulos para enxergarem, nas pessoas e nas multidões, o anseio por vida, verdade e plenitude. O Papa afirmou que esse chamado vale também para a Igreja de hoje.

“Levantemos o nosso olhar! Aprendamos com Jesus a olhar para o nosso próximo, para as pessoas e para o mundo com os olhos de Deus, isto é, com amor, respeito e compaixão.”

Nas saudações aos diversos grupos linguísticos, o Papa retomou o mesmo apelo. Aos fiéis de língua portuguesa, entre eles sacerdotes de Portugal e a família marista do Brasil, Leão XIV disse que o Senhor pede aos cristãos que levantem os olhos e observem a humanidade com seu olhar compassivo, transformando cada lugar com esperança e caridade. Aos jovens, enfermos e recém-casados, o Pontífice também deixou uma palavra especial neste início do verão europeu, convidando os jovens a viverem experiências sociais e religiosas enriquecedoras, os doentes a encontrarem conforto na proximidade da família, e os recém-casados a aprofundarem o valor da missão na Igreja e na sociedade.

Ao final da Audiência Geral, Leão XIV fez dois apelos internacionais. O primeiro foi de satisfação pelo acordo alcançado entre a República Islâmica do Irã e os Estados Unidos da América, que deverá ser assinado na sexta-feira. O Papa chamou o entendimento de resultado encorajador de um diálogo paciente e agradeceu aos países que facilitaram o encontro entre as partes. Ele expressou o desejo de que o acordo fortaleça a confiança mútua, a segurança e a estabilidade no Oriente Médio.

Em seguida, o Papa voltou seu pensamento para a guerra na Ucrânia. Leão XIV lamentou as notícias dolorosas do conflito, recordando as vítimas inocentes, os socorristas mortos e a destruição de igrejas e patrimônios culturais. O Pontífice afirmou estar próximo dos que choram seus mortos, dos feridos e de todos que, mesmo em meio à violência, continuam a servir à vida com coragem.

“Convido a todos a orar pelo fim desta guerra. Peçamos ao Senhor que abra caminhos para o diálogo, que extinga o ódio e que torne possível uma paz justa e duradoura.”

A Audiência Geral foi concluída com a oração do Pai-Nosso e a Bênção Apostólica. A catequese desta quarta-feira deixou como síntese um convite espiritual e profundamente atual: levantar o olhar, não para fugir da realidade, mas para enxergá-la com mais verdade, mais misericórdia e mais responsabilidade. Para Leão XIV, só quem aprende a olhar com os olhos de Deus é capaz de reconhecer, no rosto do outro, um chamado à fraternidade, à justiça e à esperança.

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