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Terremoto deixa marcas profundas na Venezuela e revela as feridas de uma Igreja que também tenta se reerguer
Com milhares de mortos, quase 12 mil feridos e comunidades inteiras destruídas, a Igreja venezuelana acompanha as vítimas, avalia os danos em paróquias e seminários e mobiliza a Cáritas para oferecer alimento, água, apoio psicológico e presença espiritual
Por Murilo Galhardo
Publicado em 07/07/2026 19:23
Sociedade e mundo

A Venezuela ainda conta seus mortos. E, enquanto os números crescem, cresce também a dimensão de uma dor que não cabe nas estatísticas. Depois dos terremotos que atingiram o país no dia 24 de junho, especialmente o Estado de La Guaira, epicentro dos tremores, a tragédia deixou um rastro de destruição, luto e incerteza.

O último balanço oficial citado pelo Vatican News aponta 2.595 mortos e quase 12 mil feridos. Mas, para quem está no território, os números são apenas uma parte da ferida. Há casas destruídas, famílias separadas, hospitais sobrecarregados, comunidades inteiras deslocadas e uma população que tenta sobreviver entre escombros, medo e ausência de respostas.

As marcas da destruição também atingiram profundamente a Igreja local. Na Arquidiocese de Caracas, estima-se que pelo menos 25 igrejas tenham sido danificadas. Muitas delas, segundo as primeiras avaliações, talvez precisem ser demolidas por não apresentarem mais condições de recuperação. Em La Guaira, onde a terra tremeu com mais violência, ainda não há dados consolidados, mas os danos são considerados enormes.

A dor não está apenas nos prédios atingidos. A destruição das igrejas revela uma ferida ainda maior: a ruptura de comunidades inteiras. Quando uma paróquia perde seu templo, ela não perde apenas paredes, bancos, imagens e altares. Perde também o espaço onde o povo rezava, celebrava, chorava seus mortos, batizava seus filhos e encontrava consolo em tempos difíceis.

Dom José Luis Azuaje Ayala, arcebispo de Maracaibo, primeiro vice-presidente da Conferência Episcopal Venezuelana e presidente da Cáritas nacional, descreve um cenário de devastação que toca o corpo e a alma do país. Segundo ele, em La Guaira, não se perderam apenas igrejas, mas também comunidades paroquiais, já que muitas moradias foram destruídas e o número de fiéis foi drasticamente reduzido em várias regiões.


Também o seminário da cidade, com cerca de 50 anos de história, foi danificado e pode precisar ser demolido. A informação tem um peso simbólico profundo. Um seminário é lugar de formação, de vocação, de futuro. Quando uma casa assim é atingida, a tragédia alcança também os sonhos da Igreja que se prepara para servir.

O quadro humanitário é grave. O sistema de saúde está à beira do colapso, com hospitais de campanha insuficientes para atender a tantas vítimas. Dom Azuaje relata que faltam até câmaras mortuárias. Os corpos, segundo ele, estão sendo acumulados de forma improvisada no pátio do porto, enquanto familiares tentam reconhecer seus entes queridos e levá-los para sepultamento.

A imagem é dura, quase insuportável. Mas precisa ser dita. Porque há tragédias que só mobilizam o mundo quando a dor deixa de ser distante e passa a ter rosto. Na Venezuela, esse rosto é o de uma mãe que procura um filho. De uma criança que não entende por que não pode voltar para casa. De uma comunidade que perdeu sua igreja. De um povo que enterra seus mortos sem tempo sequer para compreender o tamanho da perda.

Além dos mortos e feridos, cresce o número de deslocados. Organizações internacionais estimam milhares de pessoas sem casa e outras vivendo em edifícios considerados inabitáveis. A Cáritas agora trabalha para realizar um levantamento mais preciso dessa população, especialmente daqueles que estão em campos de acolhimento ou locais improvisados de refúgio.

A preocupação da Igreja é que essas famílias não permaneçam por muito tempo em abrigos temporários, onde a vulnerabilidade se multiplica. A emergência exige comida, água, abrigo e atendimento médico. Mas também exige escuta, proteção e acompanhamento. Depois de um desastre dessa proporção, não basta sobreviver fisicamente. É preciso encontrar forças para reconstruir a esperança.

É nesse ponto que a presença da Igreja se torna ainda mais necessária. Em meio à destruição, a Igreja venezuelana tenta responder com aquilo que tem de mais essencial: proximidade. A Cáritas atua na distribuição de alimentos e água, mas também no apoio psicológico e espiritual às vítimas. O cuidado chega especialmente às crianças, às famílias desabrigadas, às mães solteiras e às pessoas que se sentem completamente abandonadas.

Dom Azuaje recorda que muitas mães solteiras vivem agora sem teto, sem horizonte claro e com a sensação de terem sido deixadas sozinhas. A missão da Igreja, nesse contexto, é acompanhá-las para que saibam que não estão abandonadas. Mesmo quando os templos racham, a fé permanece de pé no gesto de quem acolhe, alimenta, escuta e consola.

A tragédia na Venezuela mostra que a Igreja não é feita apenas de edifícios. As igrejas destruídas doem, porque carregam memória, identidade e espiritualidade. Mas a Igreja viva continua onde há uma mão estendida, uma comunidade que se organiza, uma Cáritas que chega aos feridos, um pastor que permanece junto ao povo e uma esperança que insiste em nascer mesmo entre ruínas.

Neste momento, a Venezuela precisa de solidariedade concreta. Precisa de oração, sim, mas também de ajuda, mobilização e compromisso internacional. A dor do povo venezuelano não pode se transformar em notícia passageira. Cada número representa uma vida interrompida. Cada ferido carrega uma história. Cada deslocado leva consigo não apenas o que conseguiu salvar, mas também o peso de tudo o que perdeu.

Diante dessa realidade, a Igreja pede que o mundo não desvie o olhar. Porque uma tragédia dessa dimensão não atinge apenas um país. Ela interpela toda a comunidade humana. E recorda que, quando um povo sofre, a resposta cristã não pode ser a indiferença.

A Venezuela está ferida. A Igreja também. Mas, entre os escombros, há sinais de presença, serviço e fé. Há comunidades tentando se levantar. Há famílias sendo acompanhadas. Há voluntários que transformam compaixão em ação. Há uma Igreja que, mesmo machucada, continua dizendo ao seu povo: nós estamos com vocês.

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