Quem são as crianças que a Campanha da Fraternidade 2027 quer acolher, escutar e cuidar? A pergunta atravessou o segundo dia do Seminário Nacional da CF 2027, realizado nesta sexta-feira (25), em Brasília. Depois da abertura e da apresentação dos primeiros elementos da Campanha, na quinta-feira (24), os participantes dedicaram o dia a olhar para as diferentes realidades das infâncias no Brasil.
O Seminário, que segue até domingo (27), reúne representantes de Igrejas Particulares, Regionais, pastorais, movimentos e organismos eclesiais. Com o tema “Fraternidade e o cuidado das crianças” e o lema “Quem recebe uma criança em meu nome, a mim recebe” (Mt 18,5), a CF 2027 propõe à Igreja e à sociedade o fortalecimento de uma cultura do cuidado, da proteção e da participação das crianças.
Na sexta-feira, a programação concentrou-se no “Ver”, primeira etapa do caminho metodológico do Ver, Iluminar e Agir que estrutura o Texto-Base da Campanha. Em vez de uma sequência de conferências para todo o plenário, o aprofundamento ocorreu por meio de 20 mesas temáticas, permitindo que os participantes circulassem entre os diferentes assuntos, escutassem os assessores e compartilhassem suas próprias experiências. A metodologia aproximou-se da dinâmica de escuta e diálogo vivida no processo sinodal da Igreja. Na plenária que encerrou o “Ver”, um dos participantes destacou que o formato possibilitou “que quase todo mundo falasse” e permitiu aprender “não só com os assessores, mas também entre pares”.
Vinte mesas para olhar as infâncias por diferentes perspectivas
A programação foi organizada para que pequenos grupos circulassem entre as mesas ao longo da manhã e da tarde. Cada espaço foi conduzido por integrantes envolvidos na elaboração do Texto-Base, permitindo aprofundar temas específicos e, ao mesmo tempo, abrir espaço para perguntas e contribuições dos participantes.
Pela manhã, as discussões passaram pela singularidade da criança; realidades dolorosas; questão demográfica; pluralidade e desigualdade das infâncias; mortalidade infantil; necessidade de redes de apoio; saúde; educação; direito de brincar e participar; e direito a um meio ambiente saudável.
À tarde, o olhar voltou-se para situações e desafios como drogas; violência sexual contra crianças e adolescentes e as atitudes da Igreja; adultização e erotização das crianças; crianças migrantes, refugiadas e apátridas; saúde mental; impactos das tecnologias; importância da família; acolhimento institucional; entrega voluntária para adoção e adoções necessárias. Uma das mesas também foi dedicada ao hino da Campanha da Fraternidade 2027, que posteriormente marcou o encerramento do percurso do “Ver”.
Um Brasil que envelhece, mas ainda tem milhões de crianças vulneráveis
Os dados apresentados ao longo das mesas ajudaram a dimensionar a complexidade do cenário que a CF 2027 pretende abordar. O Brasil possui cerca de 40 milhões de crianças, segundo os dados compartilhados durante o Seminário, e aproximadamente 40% delas vivem em situações de vulnerabilidade e indignidade. Nas discussões, esse contingente também foi apresentado como próximo de 18 milhões de crianças em situação de vulnerabilidade, número que provocou forte reação entre os participantes durante a plenária final.
A questão demográfica foi outro ponto de atenção. As mesas mostraram um país que envelhece de maneira acelerada, mas não de forma homogênea. Enquanto Norte e Nordeste apresentam um processo de envelhecimento mais lento, estados como o Rio Grande do Sul deverão envelhecer mais rapidamente. Ao mesmo tempo, o Nordeste concentra uma parcela significativa das crianças em situação de vulnerabilidade.
Também foram apresentadas desigualdades que atingem grupos específicos. Entre os dados compartilhados esteve a informação de que a mortalidade infantil entre crianças indígenas é 55% superior à média nacional, evidenciando que falar de infância no Brasil exige considerar território, condições socioeconômicas, pertencimento étnico e acesso desigual a direitos.
A rapidez da transição demográfica brasileira também apareceu nas discussões: segundo dado apresentado nas mesas, mudanças que ocorreram ao longo de aproximadamente 100 anos na França aconteceram no Brasil em cerca de 25 anos.

Escuta revela questões que precisam ganhar mais espaço
A grande roda de conversa realizada ao fim da tarde mostrou que a metodologia não serviu apenas para transmitir o conteúdo do Texto-Base. A escuta também permitiu identificar lacunas e questões que os participantes consideraram necessárias para a caminhada da Campanha. Uma delas foi a situação dos adolescentes em conflito com a lei e a discussão sobre a redução da maioridade penal. Durante a plenária, foi reconhecido que o encarceramento de adolescentes não aparece suficientemente desenvolvido no Texto-Base. “É uma lacuna, o texto-base não consegue dar conta de tudo”, reconheceu um dos integrantes da equipe de elaboração. A orientação foi para que a questão seja incorporada pelos articuladores durante as formações e apresentações da Campanha nos diferentes territórios.
Também foram apontadas como questões que merecem atenção o trabalho infantil, especialmente o trabalho infantil doméstico e seus impactos sobre as meninas, e a necessidade de maior visibilidade para crianças indígenas, quilombolas e pertencentes a povos e comunidades tradicionais. A própria dinâmica, portanto, oportunizou que os participantes também fossem interlocutores do processo formativo. As contribuições feitas no Seminário deverão acompanhar os articuladores quando o conteúdo chegar às dioceses e comunidades, mesmo nos casos em que determinada questão não esteja desenvolvida de forma específica no documento.
Exposição, erotização e monetização das crianças
As transformações provocadas pelo ambiente digital também apareceram entre as preocupações do segundo dia. Ao comentar a mesa sobre adultização e erotização, um participante chamou a atenção para a relação entre exposição de crianças nas redes e monetização de sua imagem, destacando que há situações em que a própria exposição produz retorno financeiro. A plenária associou essas práticas a um “ciclo de violência” que precisa ser compreendido de forma integrada.
Os debates também relacionaram as novas tecnologias a outros desafios enfrentados pelas crianças e adolescentes, entre eles saúde mental e novas formas de dependência. A discussão sobre apostas eletrônicas apareceu na plenária vinculada ao debate mais amplo sobre drogas e comportamentos que podem produzir dependência.

“Aldeia de cuidadores”
Outro conceito que repercutiu na plenária surgiu na mesa sobre a importância da família. Um dos participantes recuperou a expressão “aldeia de cuidadores” para indicar que a proteção das crianças não pode ser responsabilidade isolada de uma pessoa ou instituição. A evangelização das famílias foi apresentada, nesse contexto, como oportunidade de “reafirmar, reencontrar, refazer vínculos, amadurecer responsabilidades, curar feridas” e colocar o bem da criança como prioridade. A conversa também colocou em pauta a diversidade das configurações familiares encontradas nas comunidades e periferias brasileiras. Participantes destacaram famílias chefiadas somente pela mãe ou pelo pai, crianças cuidadas pelos avós ou irmãos mais velhos e outras configurações presentes concretamente nos territórios.
A provocação dirigida aos agentes pastorais foi sobre a capacidade de reconhecer essas realidades e acolher as pessoas que delas fazem parte. “É preciso a gente também se abrir mais para poder, de fato, acolher esse que a gente quer atingir através da Campanha da Fraternidade”, afirmou uma participante.
Crianças, adolescentes e pessoas vulneráveis
A plenária também trouxe a questão para a compreensão da CF 2027: quem está contemplado quando a Campanha utiliza o termo “criança”?
A discussão surgiu a partir da diferença entre as referências utilizadas no Brasil e a terminologia adotada pelo Vaticano. A equipe explicou que, para os fins do Texto-Base, a Campanha optou pela referência utilizada pela Santa Sé, abrangendo pessoas de zero a 18 anos incompletos, sem deixar de tratar, em diferentes momentos, de adolescentes e adultos em situação de vulnerabilidade. A escolha procura evitar que o tema restrinja o horizonte do cuidado. “O nosso interesse é ampliar. Criar a cultura do cuidado e proteção para todos, todos, todos que precisam de cuidado e proteção. Claro, com um foco na criança”, explicou um integrante da equipe.

Violências exigem sensibilidade e resposta concreta
Os relatos compartilhados nas mesas também mostraram que abordar determinadas situações exigirá dos multiplicadores da CF 2027 preparo e sensibilidade.
Uma participante com experiência na prevenção da violência sexual relatou que crianças pequenas já apresentam, nos espaços educativos, situações que adultos muitas vezes consideram difíceis demais para serem discutidas na catequese ou em outros ambientes eclesiais. Para ela, isso exige rever concepções sobre o que pode ou não ser conversado com crianças e adolescentes. Na plenária, outro participante alertou para o risco de profissionais e agentes que lidam cotidianamente com violações perderem a sensibilidade diante de situações como abuso de drogas, dependência química e exploração sexual. “É um problema estrutural da sociedade que precisa ser combatido de forma objetiva, e que a Igreja precisa estar no meio desse debate social”, afirmou.
Do “Ver” ao “Iluminar e Agir”
A grande roda de conversa encerrou o percurso temático do dia. Segundo a condução da atividade, o objetivo não era fazer naquele momento uma avaliação formal, mas permitir que impressões, questões e elementos que poderiam ter passado despercebidos fossem recuperados coletivamente.
O encerramento foi marcado pelo hino da CF 2027, retomando em forma de oração o compromisso com o cuidado das crianças discutido ao longo das mesas. Ao concluir a atividade, a organização anunciou também a passagem metodológica que marcará a continuidade do Seminário: “Assim nós encerramos o nosso Ver. Amanhã nós partimos para o Iluminar e para o Agir”.
Programação da noite amplia formação e comunicação
As atividades desta sexta-feira, porém, não terminaram com a conclusão do “Ver”. Depois do Ofício da Tarde, conduzido pelo padre Jair Costa com a participação da Região Nordeste, e do jantar, a programação prosseguiu com outras iniciativas ligadas à formação e à comunicação. A noite contou com a apresentação do relatório do Projeto Capacita em Rede, e com dois lançamentos: a Revista Casa Comum e o Pensamento Lúdico.