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CF 2027: escuta das crianças marca terceiro dia do Seminário Nacional e aponta caminhos para uma cultura do cuidado
Em Brasília, participantes aprofundaram os fundamentos bíblico-teológicos e éticos da Campanha da Fraternidade e discutiram compromissos para sua aplicação nas comunidades. Encontro com crianças da catequese, conduzido por dom Ricardo Hoepers, levou à prática a proposta de escuta e participação das infâncias
Por Ronnaldh Oliveira
Publicado em 28/09/2026 14:52
Igreja

Depois de dedicar um dia inteiro à análise das diferentes realidades das infâncias no Brasil, o Seminário Nacional da Campanha da Fraternidade 2027 avançou, neste sábado (26), para uma pergunta: como converter o conhecimento dessas realidades em atitudes concretas de cuidado e proteção? A resposta começou a ganhar forma por meio de reflexões bíblico-teológicas, do aprofundamento da ética do cuidado e da apresentação de compromissos pastorais. Mas foi um encontro com crianças da catequese da Arquidiocese de Brasília que deu uma expressão particularmente significativa à proposta da Campanha.

Convidadas pelo secretário-geral da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) e bispo auxiliar de Brasília, dom Ricardo Hoepers, as crianças participaram de um momento de diálogo com os presentes. Sentado no chão, em uma roda de conversa, o bispo abriu espaço para que elas falassem sobre suas experiências, percepções e desejos.

A iniciativa aconteceu durante o aprofundamento do “Agir”, terceira etapa do método Ver, Iluminar e Agir, que orienta a elaboração e a aplicação pastoral da CF 2027. Com o tema “Fraternidade e o cuidado das crianças” e o lema “Quem recebe uma criança em meu nome, a mim recebe” (Mt 18,5), a Campanha propõe que as crianças deixem de ser consideradas apenas destinatárias de iniciativas de proteção e sejam reconhecidas também como sujeitos de escuta, participação e direitos.

Na plenária que se seguiu à apresentação dos compromissos, a experiência foi retomada por diferentes participantes. Uma das intervenções destacou a força simbólica da cena: “A imagem da Igreja que senta com as crianças no chão, numa roda, e escuta”. Segundo a avaliação compartilhada, o gesto expressou de maneira concreta aquilo que a Campanha pretende construir nas comunidades.

O cuidado como resposta à pressa e à indiferença

A programação do terceiro dia começou com o Ofício da Manhã, conduzido pelo padre Jair Costa e pela Região Centro-Oeste. Em seguida, os participantes deram continuidade ao percurso formativo iniciado na sexta-feira, quando 20 mesas temáticas aprofundaram o diagnóstico da realidade das crianças no país.

A etapa do “Julgar”, também compreendida como momento de iluminação da realidade à luz da fé, contou com uma reflexão bíblico-teológica conduzida pelo padre Márcio Fernandes e uma conferência sobre a ética do cuidado, apresentada pela professora Maria Inês Millen. Em sua exposição, Maria Inês partiu dos desafios da sociedade contemporânea para questionar as condições em que o cuidado é exercido.

Segundo ela, a organização social frequentemente privilegia a competição, a produtividade e aqueles considerados mais fortes ou capacitados, enquanto a perspectiva cristã coloca atenção especial sobre as pessoas frágeis e vulneráveis. A professora também chamou a atenção para a aceleração da vida cotidiana e para a presença constante das tecnologias, que, embora ofereçam inúmeras possibilidades, podem reduzir o tempo dedicado às relações humanas. “A pressa excessiva com que a gente conduz a vida, ou como a vida nos conduz, carrega consigo descuidos e desatenções insuportáveis”, afirmou.

Para Maria Inês, cuidar exige uma disposição que contraria a lógica de aproveitar cada instante em função de resultados. É necessário dedicar tempo às pessoas, inclusive quando não existe a expectativa de receber algo em troca. A reflexão foi ilustrada por uma narrativa de Rubem Alves sobre um homem que, apaixonado pelas estrelas, inventou uma luneta para observá-las. Com o tempo, estudiosos passaram a dedicar tanta atenção ao instrumento que se esqueceram de olhar para aquilo que havia motivado sua criação.

A imagem serviu para questionar situações em que técnicas, instrumentos e procedimentos acabam ocupando o lugar das pessoas. A professora utilizou como exemplo a área da saúde, na qual a atenção aos equipamentos e às informações pode, em determinadas circunstâncias, fazer com que o paciente se torne secundário. A provocação também se aplica às práticas educativas e pastorais: de que maneira as instituições podem organizar seus processos sem perder de vista as pessoas que deveriam estar no centro de suas ações?

“O cuidado é o que confere ao ser humano a sua humanidade”

Ao aprofundar o conceito de cuidado, Maria Inês apresentou-o como uma dimensão constitutiva da existência humana, que, embora essencial, precisa ser desenvolvida ao longo da vida. “O cuidado é o que confere ao ser humano a sua humanidade”, afirmou.

A professora explicou que cuidar não significa manter alguém permanentemente dependente de outra pessoa, mas oferecer condições para que cada indivíduo possa construir a própria vida com dignidade. Nessa perspectiva, relacionou o cuidado aos princípios da subsidiariedade, da solidariedade e do bem comum, presentes na Doutrina Social da Igreja.  Assumir essa compreensão, segundo ela, exige uma reorganização do pensamento e uma mudança na maneira de agir. Não basta reconhecer teoricamente a importância do cuidado; é necessário desenvolver atitudes capazes de responder às necessidades concretas das pessoas.

Um dos desafios apresentados foi a capacidade de cultivar aquilo que chamou de “olhar demorado”, expressão que relacionou ao ensinamento do Papa Francisco e à parábola do bom samaritano. “O samaritano da parábola é aquele que passa e fica”, recordou. Para Maria Inês, esse olhar permite perceber o que existe para além das aparências, incluindo fragilidades, necessidades e feridas que nem sempre são imediatamente visíveis. Sem essa disposição, a pessoa que necessita de cuidado pode sequer encontrar oportunidade para expressar aquilo de que precisa.

Uma vocação que encontra em Jesus seu fundamento

A dimensão bíblica também ocupou um lugar central na conferência. A professora percorreu passagens do livro do Gênesis para apresentar o cuidado como vocação confiada ao ser humano desde a criação: cuidar da terra, dos animais e das outras pessoas. Ao recordar a narrativa de Caim e Abel, Maria Inês relacionou a violência à recusa dessa responsabilidade. Diante da pergunta de Deus sobre o paradeiro de seu irmão, Caim procura afastar de si o dever de protegê-lo.

A partir dessa imagem, a conferencista apresentou Jesus como aquele que revela plenamente a vocação humana para o cuidado, assumindo a fragilidade e colocando o amor a Deus e ao próximo no centro da vida cristã. “Porque só quem ama é capaz de cuidar de verdade”, afirmou.

Outro ponto da reflexão foi a diferença entre cura e cuidado. A professora alertou para o risco de associar o êxito de uma ação exclusivamente à solução imediata de um problema, esquecendo-se da importância de acompanhar a pessoa mesmo quando não é possível eliminar seu sofrimento. “Podemos curar às vezes, mas cuidar sempre”, sintetizou.

Dom Ricardo apresenta compromissos para o “Agir”

No período da tarde, a programação avançou para o “Agir”, conduzido por dom Ricardo Hoepers. O secretário-geral da CNBB apresentou a etapa dedicada aos sete compromissos da Campanha da Fraternidade 2027, orientada à tradução das reflexões anteriores em iniciativas concretas. O momento deu continuidade ao percurso desenvolvido desde a quinta-feira (24), quando o bispo abriu o Seminário exortando para que a Igreja passasse de ações pontuais a uma verdadeira cultura do cuidado.

Na abertura, dom Ricardo havia afirmado que essa conversão deveria alcançar o olhar sobre as crianças, as relações estabelecidas com elas, os vínculos familiares e comunitários e os processos institucionais, para que os ambientes eclesiais sejam espaços de acolhida, escuta e proteção.

Durante a apresentação do “Agir”, essa perspectiva ganhou uma dimensão vivencial com a presença das crianças da catequese da Arquidiocese de Brasília. Em vez de apenas apresentar propostas formuladas pelos adultos, dom Ricardo convidou as crianças a participarem da reflexão. O bispo sentou-se com elas no chão, em uma roda, e abriu espaço para ouvi-las diante dos participantes do Seminário.

A experiência provocou reflexões sobre o próprio significado de escutar. Na plenária, foi observado que, inicialmente, algumas respostas pareciam corresponder àquilo que as crianças imaginavam que os adultos esperavam ouvir. Com o desenvolvimento da conversa, porém, elas passaram a se expressar com maior espontaneidade. “Depois, a coisa foi fluindo, e a gente começa a perceber, genuinamente, a criança”, destacou uma das intervenções. A dinâmica tornou visível um dos desafios da CF 2027: construir espaços nos quais a participação infantil não seja apenas simbólica, mas tenha condições reais de acontecer.

Escutar também significa rever práticas

As falas das crianças suscitaram questionamentos sobre o cotidiano escolar, especialmente em relação ao tempo dedicado às aulas, às atividades e às oportunidades de convivência e brincadeira. Durante a plenária, participantes relacionaram essas manifestações às discussões do dia anterior, quando uma das mesas temáticas havia abordado o direito de brincar e participar.

Uma das intervenções chamou a atenção para o excesso de conteúdos curriculares e para a redução dos períodos de recreação em algumas escolas. Segundo a reflexão apresentada, é necessário considerar que a escola não é apenas um espaço de aprendizagem formal, mas também de convivência, construção de vínculos e desenvolvimento das relações entre as crianças. A discussão alcançou igualmente as instituições confessionais, provocadas a refletir sobre a relação entre suas propostas educativas, a valorização do desempenho acadêmico e o tempo necessário ao desenvolvimento integral.

O encontro com as crianças também despertou atenção para situações que muitas vezes permanecem pouco visíveis nas comunidades. Uma participante relatou a experiência de um projeto de acolhimento a crianças neurodivergentes e suas famílias, destacando dificuldades enfrentadas por mães para garantir a participação dos filhos na catequese e nas celebrações.

Segundo o testemunho, após a criação da iniciativa em sua paróquia, 59 mães procuraram o projeto, revelando uma realidade que não era plenamente conhecida pela comunidade. A participante questionou a preparação dos espaços eclesiais para acolher crianças com diferentes necessidades e defendeu uma atenção que ultrapasse os limites das atividades religiosas, alcançando também o acesso à saúde, às terapias e à educação.

A discussão ampliou o significado da proteção para o ambiente digital. Participantes alertaram que a divulgação de imagens de crianças em atividades pastorais não pode ser tratada como um procedimento automático, especialmente quando envolve situações de vulnerabilidade ou exposição desnecessária. Também foi levantada a necessidade de preparar os agentes de pastoral para situações em que crianças possam revelar espontaneamente experiências de violência. Nesse contexto, foi recordada a importância da formação específica para que os adultos saibam acolher esses relatos e encaminhá-los de maneira adequada, sem produzir novas situações de exposição.

Cultura do cuidado exige protocolos, formação e estruturas

A plenária também abriu espaço para o compartilhamento de experiências institucionais de prevenção e proteção. Um representante do Marista Brasil apresentou elementos considerados fundamentais para a implementação de uma cultura do cuidado em uma rede de 97 escolas. A experiência foi organizada em cinco dimensões: normativas claras, formação, estruturas adequadas, indicadores e comunicação. Segundo a partilha, as instituições precisam definir responsabilidades e procedimentos, formar educadores e famílias, disponibilizar recursos humanos e materiais, acompanhar os resultados de suas ações e comunicar com transparência os protocolos adotados.

“As pessoas precisam saber o que a gente faz. Às vezes, só fazer não é o suficiente”, destacou o participante, ao explicar a importância de comunicar às famílias como a instituição atua na prevenção e no enfrentamento das violências.

A experiência contribuiu para ampliar a discussão sobre o papel das estruturas eclesiais. Durante a plenária, foram mencionadas situações concretas que exigem atenção nas atividades de catequese e nos grupos de crianças e adolescentes, além da importância de procedimentos institucionais capazes de prevenir riscos. Também foi levantada a necessidade de fortalecer os serviços eclesiais de proteção e tornar seus canais de atendimento mais acessíveis. Um participante relatou dificuldades que havia encontrado, anteriormente, para localizar contatos de comissões diocesanas de proteção, questionando como pessoas que necessitam apresentar denúncias poderiam acessar esses serviços com facilidade.

Outro questionamento apresentado na plenária foi sobre o alcance das iniciativas eclesiais. Os participantes foram provocados a pensar nas crianças que já frequentam a catequese, as escolas e as atividades pastorais, mas também naquelas que permanecem fora desses espaços. A experiência da Pastoral da Criança foi mencionada como referência de uma atuação que ultrapassa os limites físicos das comunidades e vai ao encontro das famílias em seus territórios.

Oração e convivência encerram o terceiro dia

A programação do sábado incluiu ainda o Ofício de Vigília, conduzido pelo padre Jair Costa e sua equipe, seguido de um momento de confraternização entre os participantes. O Seminário Nacional, iniciado na quinta-feira (24), prosseguiu até domingo (27), reunindo representantes de diferentes regiões do Brasil para preparar a multiplicação da Campanha da Fraternidade nas Igrejas locais.

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