Cinquenta anos após o martírio, documentário revela a vida e o legado de João Bosco Burnier, SJ
Produção da Companhia de Jesus estreiou em 11 de outubro e reúne jesuítas, testemunhas de primeira hora e jovens em uma narrativa que articula história, oração e defesa da vida
Na noite de 11 de outubro de 1976, o padre João Bosco Burnier, SJ, foi agredido e baleado ao interceder, ao lado de Dom Pedro Casaldáliga, por mulheres submetidas à tortura em uma delegacia de Ribeirão Bonito, atual Ribeirão Cascalheira, em Mato Grosso. Cinquenta anos depois, a Companhia de Jesus retoma essa história a partir das vozes de quem conheceu o missionário, testemunhou os acontecimentos e hoje encontra em sua trajetória motivavação para servir.
O documentário “BURNIER: uma vida que move vidas” estreou neste domingo, 11 de outubro, às 21h, no canal Jesuítas Brasil, no YouTube. Com aproximadamente 60 minutos, a produção marca a memória dos 50 anos do martírio do jesuíta, que morreu em 12 de outubro de 1976, e celebra os dez anos do Centro MAGIS Burnier, em Brasília.
Gravado entre junho e julho de 2026, em Indaiatuba (SP), Ribeirão Cascalheira e Santa Terezinha (MT), além de Brasília (DF), o filme aproxima diferentes gerações. Jesuítas que conviveram com Burnier compartilham lembranças pessoais; testemunhas recuperam os acontecimentos relacionados ao martírio; o bispo da Prelazia de São Félix do Araguaia e outros entrevistados ajudam a compreender o contexto e o significado de sua atuação. Religiosas, padres e jovens apresentam como esse legado encontra expressão no presente.
O homem por trás da memória
A narrativa parte da Romaria dos Mártires da Caminhada e de palavras de Pedro Casaldáliga para apresentar uma memória que permanece viva nas comunidades. As imagens da caminhada acompanham o encontro entre pessoas que guardam lembranças dos mártires e jovens que recebem suas histórias.
A partir desse cenário, o documentário procura conhecer Burnier para além do episódio de sua morte. Os testemunhos e os escritos revelam seus vínculos familiares, sua experiência de oração, as responsabilidades assumidas na Companhia de Jesus e o discernimento que o levou à missão em Mato Grosso. Esse percurso permite compreender como sua disponibilidade foi amadurecendo ao longo dos anos. A decisão de partir, o esforço para aprender a língua Bakairi e a aproximação com as comunidades indígenas integram o retrato de um missionário que também se deixou transformar pelas pessoas com quem viveu.
A condução entrelaça informações históricas e momentos contemplativos. A oração aparece como parte de sua trajetória e de suas escolhas, ajudando a compreender a relação entre experiência de fé, presença missionária e defesa da dignidade humana.
Veste usada por padre João Bosco Burnier, SJ no dia 11 de outubro de 1976, data de seu martírio/Foto: Jaime Cruz.
Testemunhas recuperam a história do crime
As circunstâncias do atentado ocupam um lugar central no filme. Os depoimentos reconstituem a intervenção de Burnier e Casaldáliga em favor das mulheres, a violência contra o jesuíta e os acontecimentos que se seguiram. Gravemente ferido, o religioso foi levado a Goiânia, onde morreu no dia seguinte, aos 59 anos.
O documentário situa o crime no contexto da ditadura militar e dos conflitos que atingiam povos indígenas e trabalhadores rurais em Mato Grosso. A participação da religiosa e advogada Sueli Bellato contribui para aprofundar a dimensão política do assassinato e o percurso de reconhecimento de suas circunstâncias. Ao reunir lembranças, testemunhos e informações sobre o caso, a produção relaciona a memória religiosa de Burnier à responsabilidade de preservar a verdade histórica. A defesa das mulheres submetidas à tortura permanece como o motivo concreto da intervenção que levou à sua morte.
Um legado recebido pelas juventudes
O filme chega ao presente pelas experiências de quem continua recebendo essa história. A participação do provincial dos Jesuítas do Brasil, do diretor do Centro MAGIS Burnier e dos jovens aproxima a trajetória do missionário das responsabilidades atuais da Companhia de Jesus e das perguntas de novas gerações. Nesse movimento, o título ganha sentido nas experiências narradas: uma realidade conhecida de perto, uma escolha vocacional em discernimento, uma atividade de serviço ou um compromisso com pessoas que precisam de cuidado. O legado de Burnier é apresentado a partir de suas consequências na vida de quem o recebe.
A celebração dos dez anos do Centro MAGIS Burnier, em Brasília, integra essa perspectiva. O espaço de acompanhamento e formação das juventudes participa da narrativa como lugar em que a memória do jesuíta se encontra com projetos de vida, experiências de fé e disponibilidade para a missão. A carta de Casaldáliga oferece uma das referências centrais dessa condução: “Assumiremos suas vidas e suas mortes assumindo suas causas”. A passagem aproxima a recordação dos mártires das escolhas de quem continua caminhando.
Estreia no canal Jesuítas Brasil
Produzido pela Companhia de Jesus, o documentário tem direção institucional do padre Lucas Maurício dos Santos, SJ, e direção, roteirização e edição do jornalista Ronnaldh Oliveira. Após a estreia, “BURNIER: uma vida que move vidas” permanecerá disponível no canal Jesuítas Brasil, no YouTube.
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