Ser escutado, reconhecido e acompanhado. Para o padre Edson Tomé, SJ, esses são os primeiros apelos das juventudes à Companhia de Jesus. Na avaliação do jesuíta, os jovens desejam encontrar espaços onde possam construir relações, participar das decisões e contribuir com a missão. A presença nas atividades precisa vir acompanhada de pertencimento e protagonismo.
“Os jovens não querem apenas participar das atividades que organizamos para eles. Eles querem encontrar espaços de pertencimento”, afirma em entrevista à Rádio Amar e Servir.
A reflexão acompanha o encontro realizado de 15 a 17 de setembro, na Casa da Juventude, em Bogotá, na Colômbia. A etapa reuniu delegados para juventudes de diferentes províncias da Companhia de Jesus na América Latina e no Caribe, além de representantes de redes apostólicas, para compartilhar experiências e refletir sobre o acompanhamento dos jovens.
Na entrevista, Tomé relaciona a escuta das realidades juvenis ao discernimento dos projetos de vida e à necessidade de ampliar a colaboração entre as obras da Companhia de Jesus. Sua reflexão parte de um convite que atribui às próprias juventudes: “Não caminhem apenas para nós, caminhem conosco”.
Escuta que também transforma quem acompanha
Ao olhar para a América Latina e o Caribe, o padre ressalta a diversidade das experiências juvenis. Desigualdade, violência, migração, crise socioambiental e desafios da cultura digital atravessam essas realidades. Nesse mesmo cenário, ele reconhece jovens que sonham, se comprometem com suas comunidades e desejam construir um futuro diferente.
A resposta a esses apelos, segundo Tomé, exige proximidade e disposição para trabalhar em conjunto. Ele defende que a missão seja assumida de maneira compartilhada entre obras e províncias, com abertura para aprender com os próprios jovens.
“Acompanhar não significa ter todas as respostas, significa estar presente, ajudar os jovens a reconhecer seus próprios caminhos e também permitir que suas experiências nos questionem e transformem a nossa maneira de realizar a missão.”
Essa compreensão está ligada ao compromisso da Companhia de Jesus de acompanhar as juventudes na criação de um futuro cheio de esperança. Na perspectiva do entrevistado, os jovens participam da construção desse futuro e ajudam a discernir os caminhos da missão.
Um encontro para ouvir e compartilhar experiências
Segundo o relato enviado por Tomé, a programação reuniu momentos de conversa espiritual, partilha e discernimento. Um painel sobre a cultura do acompanhamento abriu espaço para ouvir jovens e seus acompanhantes. Também houve uma celebração eucarística com jovens da Casa da Juventude de Bogotá.
Participaram representantes da Associação de Universidades Confiadas à Companhia de Jesus na América Latina (AUSJAL), da Federação Latino-Americana de Colégios da Companhia de Jesus (FLACSI), da Federação Internacional de Fé e Alegria e do Observatório de Juventude.
O padre destaca a contribuição de leigos e leigas na aproximação entre essas redes. A troca, segundo ele, ampliou a compreensão das realidades juvenis e vocacionais e favoreceu a reflexão sobre um trabalho mais articulado.
Nas redes, presença que se torna vínculo
O ambiente digital ocupa um lugar importante nessa reflexão. Tomé observa que as redes fazem parte da vida dos jovens: são espaços de encontro, de relações, de expressão das inquietudes e de procura por respostas às perguntas mais profundas.
“Por isso precisamos estar presentes nesses espaços, não apenas para divulgar nossas atividades ou transmitir conteúdos, mas para estabelecer vínculos e criar oportunidades de encontro com eles.”
Para o jesuíta, a missão digital e o acompanhamento presencial se complementam. Uma conversa nas redes sociais pode despertar uma pergunta vocacional e abrir caminho para um processo de acompanhamento. A continuidade desse contato exige confiança, respeito ao tempo de cada pessoa e experiências concretas de comunidade, oração, serviço e convivência.
Tempo e liberdade para discernir
A velocidade das informações e a pressão por resultados imediatos também afetam a maneira como os jovens pensam o futuro. Segundo Tomé, muitos sentem que precisam decidir rapidamente quem serão, o que farão e qual caminho seguirão.
Nesse contexto, acompanhar envolve ajudar a desacelerar e criar condições de silêncio, escuta e liberdade. O discernimento, explica, alcança o reconhecimento da própria identidade, dos dons recebidos e das possibilidades de colocar a vida a serviço dos outros.
O padre faz uma ressalva sobre a finalidade desse trabalho: “E não podemos reduzir todo o trabalho a uma campanha de recrutamento”.
“Nossa missão é ajudar os jovens a descobrir a sua própria vocação, seja na vida religiosa, no sacerdócio, no matrimônio ou em outras formas de viver o chamado de Deus”, acrescenta.
Esse compromisso, afirma, pede uma mudança na maneira de acompanhar: escutar antes de oferecer respostas, respeitar os processos e reconhecer o protagonismo juvenil. A presença de alguém que acredita no jovem e o ajuda a perceber a ação de Deus em sua história deve favorecer uma resposta livre ao próprio chamado.
Da partilha aos compromissos no Brasil
Ao tratar das contribuições do encontro para o Brasil, Tomé destaca o reconhecimento de que as províncias enfrentam desafios semelhantes e desenvolvem experiências capazes de inspirar umas às outras.
Entre os compromissos que apresenta estão fortalecer o trabalho em rede, ampliar a colaboração entre as obras e criar caminhos mais integrados de acompanhamento. Compartilhar metodologias, valorizar experiências que já dão frutos e construir iniciativas conjuntas, inclusive digitais, são possibilidades mencionadas pelo jesuíta.
“Mais do que trazer novas atividades, é momento de fortalecer processos de acompanhamento, nos quais os jovens sejam escutados, tenham espaço para serem protagonistas e encontrem condições para discernir o seu projeto de vida.”
A tarefa, segundo ele, é transformar a partilha em compromissos concretos, assumidos pelo conjunto das pessoas e instituições que participam da missão. É nessa continuidade que a escuta pode se traduzir em presença e participação.
“No fundo, os jovens nos convidam a renovar nossa capacidade de escutar, de caminhar juntos, de acreditar que a esperança não é apenas algo que anunciamos a eles, mas algo que construímos com eles.”