No último sábado, 31 de janeiro, o Noviciado Jesuíta de Feira de Santana, na Bahia, foi palco de uma celebração marcada pela emoção, fé e esperança. Dez noviços da Companhia de Jesus professaram publicamente os votos de pobreza, castidade e obediência, dando um passo decisivo em seu caminho formativo e vocacional.
A Celebração Eucarística foi presidida pelo provincial dos jesuítas no Brasil, padre Mieczysław Smyda, SJ, e contou com a presença de numerosos jesuítas, religiosos e religiosas, além de familiares, amigos e leigos e leigas vindos de diversas regiões do país.
Mais do que um rito, a celebração foi vivida como um verdadeiro gesto eclesial, no qual a Igreja reconhece e acolhe o chamado de jovens que desejam seguir Jesus Cristo no carisma inaciano, colocando a própria vida a serviço da missão.
O noviciado: tempo de escuta, silêncio e discernimento
Em entrevista à Rádio Amar e Servir, o mestre de noviços, padre Jonas Caprini, SJ, destacou o sentido profundo do momento vivido pela Companhia de Jesus no Brasil.
Segundo ele, a profissão dos votos é fruto de um caminho intenso de discernimento, oração e experiência espiritual.
“Depois de viverem dois anos de noviciado, eles professam publicamente os votos para continuar a sua caminhada formativa, para serem homens de Deus entregues à missão, consagrando a sua vida para o serviço”, afirmou.
Padre Jonas explicou que o noviciado é a primeira etapa formativa oficial da Companhia de Jesus, precedida por um longo processo de acompanhamento vocacional. É um tempo marcado pelo silêncio interior, vida de oração, trabalhos cotidianos e experimentos próprios da etapa, que ajudam o noviço a interiorizar o mistério de Cristo e a compreender o modo de proceder de um jesuíta.
“Depois de dois anos de acompanhamento, confronto e experiências profundas, o noviço pede para ser admitido à Companhia. A profissão dos votos é esse sinal profético de quem quer continuar o caminho, entregando a própria vida para servir e viver todo de Deus”, explicou.
Professar votos hoje: ousadia e profecia
Ainda segundo o mestre de noviços, professar os votos religiosos no contexto atual é um ato de ousadia e de profecia.
“Com tantas possibilidades e opções que hoje um jovem tem à sua frente, dizer que quer ser todo de Deus é um ato profético. É dizer não a tudo aquilo que não gera vida em plenitude”, afirmou.
Para padre Jonas, os dez jovens que professaram os primeiros votos testemunham que é possível viver uma vida livre, integrada e cheia de sentido, mesmo em um mundo marcado por superficialidades, distrações e falsas promessas de felicidade.
“Ser religioso hoje é dizer que Deus chama, envia, e que confiamos na graça para sermos homens da missão, apesar de nossos limites, anunciando a boa nova do Evangelho e indo às fronteiras geográficas e existenciais do mundo”, completou.
A voz das famílias: fé, desapego e gratidão
A celebração também foi profundamente marcada pela presença e pelo testemunho das famílias, que acompanharam de perto o caminho vocacional dos novos professos.
Fernando Romão, pai do noviço Jardel Traviniski, destacou a alegria e a confiança da família nesse processo.
“Estamos muito felizes. Essa celebração é uma confirmação do esforço pessoal dele e do trabalho que ele realizou ao longo do caminho. Nós, como pais, sempre estivemos na retaguarda, rezando e intercedendo para que ele prospere nessa nova caminhada.”
A mãe, Eliana Romão Traviniski, emocionou ao falar sobre o significado do momento.
“Hoje eu me vi assim: o Senhor me deu ele para eu gerar, e hoje Jesus tomou ele para a missão dele. É um grande desapego, mas também uma honra. Onde eu não posso estar como mãe, eu confio que Maria esteja.”
Ela recordou a trajetória vocacional do filho desde a infância e expressou a certeza de que o mundo precisa de missionários que levem esperança vivida com amor.
“Aceitar com o coração aberto”: o testemunho das mães
Outro testemunho marcante foi o de Luzia Aparecida dos Santos Costa, mãe do noviço Bruno Costa. Para ela, acompanhar o processo vocacional do filho foi um tempo de graça, sustentado pela oração cotidiana.
“Foi um momento maravilhoso, de muita graça. A família fica feliz e em oração. Nunca deixamos de rezar por ele.”
Reconhecendo também os desafios da ausência e da saudade, dona Luzia afirmou que a fé sustenta o caminho.
“É um momento inexplicável, muito lindo. Precisamos incentivar as vocações e confiar.”
Ao dirigir uma mensagem às mães que têm dificuldade de compreender o chamado vocacional dos filhos, ela foi direta:
“Aceitar com o coração aberto e com muita felicidade, porque é uma graça. É só bênção.”
A voz de quem professa: ser luz e dar sentido à vida
Entre os novos professos, o noviço Leonardo Bentes Rodrigues partilhou o significado pessoal da profissão religiosa.
“É uma experiência de ser amado, de sentir o amor de Deus que se revela no outro. Para mim, professar os votos é aderir a esse amor que dá sentido à vida.”
Leonardo destacou que ser jesuíta hoje é responder a uma busca profunda de sentido, especialmente em um mundo marcado por guerras, deslocamentos e perda de esperança.
“Ser jesuíta na contemporaneidade é lançar luzes, dar esperança às pessoas que perderam a fé e ajudar a redescobrir que a vida tem um lugar, um sentido e uma vocação.”
“Permanecei no amor”: o envio missionário na homilia do provincial
Na homilia, o padre Mieczysław Smyda, SJ, recordou que a celebração não era apenas um motivo de alegria, mas sobretudo um momento de oração e responsabilidade para toda a Igreja.
Dirigindo-se nominalmente aos novos professos, o provincial destacou que a grandeza deles não está em si mesmos, mas em terem reconhecido a grandeza do chamado de Deus para a Companhia de Jesus, para a Igreja e para o mundo.
Inspirado nas leituras bíblicas escolhidas, especialmente o capítulo 15 do Evangelho de João, padre Smyda insistiu no convite central: “Permanecei no amor.”
Segundo ele, permanecer em Cristo é a fonte de toda fecundidade missionária. Assim como a videira só dá frutos quando permanece unida ao tronco, o jesuíta só frutifica quando permanece unido a Cristo na oração e na contemplação.
O provincial destacou ainda que os votos de pobreza, castidade e obediência são caminhos de liberdade e disponibilidade para ir onde a Igreja mais precisa, especialmente nas fronteiras culturais, sociais, intelectuais e existenciais.
“Somos chamados a levar esperança a um mundo que não vê esperança, a estar com os migrantes, refugiados, vítimas da violência e das injustiças, e a dialogar com os grandes desafios do nosso tempo.”
Encerrando, padre Smyda lembrou que, embora chamados de “primeiros votos”, eles são definitivos para a vida dos professos e sinalizam um caminho que continua na formação e no serviço.