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A tecnologia aprendeu a responder. E nós, ainda sabemos perguntar?
A partir da leitura do psicanalista, filósofo e pastoralista Vinicius Alencar, a encíclica Magnifica Humanitas, de Leão XIV, provoca um discernimento urgente sobre inteligência artificial, dignidade humana e o risco de uma vida guiada mais por dados do que por vínculos.
Por Murilo Galhardo
Publicado em 26/05/2026 14:10 • Atualizado 26/05/2026 15:17
Igreja
Vinicius Alencar - Entrevista para Rádio Amar e Servir

A inteligência artificial já escreve textos, cria imagens, organiza rotinas, sugere caminhos, antecipa desejos e responde perguntas em segundos. Mas a primeira encíclica de Leão XIV, Magnifica Humanitas, parece nos colocar diante de uma pergunta mais profunda: quando a tecnologia aprende a responder por nós, ainda somos capazes de perguntar quem queremos ser?

Publicada em 25 de maio de 2026, a encíclica tem como tema “a salvaguarda da pessoa humana na era da inteligência artificial”. O documento foi assinado pelo Papa em 15 de maio, no 135º aniversário da Rerum Novarum, de Leão XIII, encíclica que marcou a Doutrina Social da Igreja ao olhar para os dramas sociais provocados pela Revolução Industrial.

A escolha da data não é detalhe. É chave de leitura.

No século XIX, Leão XIII olhou para um mundo em transformação, marcado por fábricas, exploração operária, concentração de riqueza e trabalhadores tratados como peças de uma engrenagem produtiva. Agora, Leão XIV olha para outro tipo de revolução: a revolução digital, algorítmica e tecnológica, em que o ser humano corre o risco de deixar de ser visto como pessoa para ser tratado como dado, perfil, tendência, consumo e previsibilidade.


É exatamente esse ponto que aparece na reflexão de Vinicius Alencar, psicanalista, graduado e pós-graduado em Filosofia, com especialização em Filosofia da Religião pela Ludwig-Maximilians Universität München, na Alemanha, e pastoralista do Anchietanum São Paulo. Para ele, a Magnifica Humanitas nasce em um momento histórico profundamente simbólico, retomando a mesma inquietação social da Igreja diante de uma nova transformação da humanidade: antes, o risco era transformar o trabalhador em força produtiva descartável; hoje, o risco é transformar a pessoa em dado, estatística e consumo.

“A inteligência artificial deve ser desarmada.”
Papa Leão XIV, na apresentação da Magnifica Humanitas.

A força dessa frase está justamente no verbo escolhido: desarmar. Leão XIV não propõe medo da tecnologia, nem rejeição do futuro. Ele propõe vigilância. A encíclica reconhece que a técnica não é inimiga da pessoa humana, mas alerta que ela também não pode ser tratada como neutra. Em sua formulação mais direta, o Papa recorda que a tecnologia carrega o rosto de quem a cria, financia, regula e utiliza.

Ou seja, a pergunta cristã não é apenas: “o que a inteligência artificial consegue fazer?” A pergunta mais urgente é: a serviço de quem ela está sendo colocada?

Essa é uma questão ética, mas também espiritual. Porque a tecnologia pode curar, educar, aproximar, democratizar o conhecimento e ampliar possibilidades. Mas também pode vigiar, excluir, manipular, acelerar desigualdades, capturar a atenção e enfraquecer vínculos humanos. O problema não está na existência da máquina. Está no momento em que a máquina deixa de ser instrumento e passa a ocupar o lugar de critério, sentido e poder.

Leão XIV resume essa tensão com uma imagem bíblica forte: diante das novas tecnologias, a humanidade precisa escolher entre erguer uma nova Babel ou construir uma cidade onde Deus e a humanidade possam habitar juntos.

A imagem de Babel fala de um projeto humano que se fecha sobre si mesmo, seduzido pelo próprio poder. Uma humanidade que constrói alto, rápido e grandioso, mas perde a capacidade de se compreender. Não é difícil reconhecer esse risco em uma cultura marcada por pressa, desempenho, vaidade digital e excesso de informação.

Hoje, algoritmos influenciam o que vemos, o que consumimos, o que desejamos e até como percebemos o mundo. Plataformas disputam nossa atenção como mercado. Emoções viram métrica. Dados se tornam capital. Relações se tornam mais frágeis. A verdade se embaralha em meio a manipulações digitais, desinformação e conteúdos produzidos para nos prender, não necessariamente para nos formar.

É aqui que a reflexão de Vinicius ganha força pastoral e humana. Segundo ele, talvez o maior perigo do nosso tempo não seja criar máquinas inteligentes, mas formar seres humanos incapazes de silêncio, profundidade, discernimento e vínculo real.

Lida a partir de um olhar inaciano, a encíclica nos convida a fazer um verdadeiro exame de consciência digital. Santo Inácio de Loyola ensina que o discernimento passa por perceber os movimentos interiores: o que nos conduz à vida, à liberdade, ao amor e ao serviço? E o que nos fecha em nós mesmos, nos torna mais ansiosos, indiferentes, acelerados ou dependentes?

A tecnologia também precisa passar por essa pergunta.

Ela nos ajuda a amar melhor? A servir melhor? A escutar melhor? A cuidar dos mais vulneráveis? A proteger a verdade? A incluir quem fica à margem? Ou apenas nos torna mais produtivos, mais vigiados, mais comparativos e mais cansados?

“A técnica não é um mero instrumento.”
Magnifica Humanitas.

A frase é curta, mas decisiva. Quando a técnica vira critério, tudo o que não se encaixa na lógica da eficiência passa a parecer descartável. A fragilidade incomoda. A lentidão parece defeito. A contemplação perde valor. O erro deixa de ser caminho de amadurecimento e passa a ser apenas algo a corrigir.

Mas a vida humana não funciona como um algoritmo. Uma pessoa não é uma sequência de dados. Ninguém se resume ao que produz, entrega, compra, publica ou performa. A tradição cristã insiste que cada pessoa possui uma dignidade anterior a qualquer utilidade. Para a fé, o ser humano é imagem e semelhança de Deus. Por isso, nunca pode ser reduzido a recurso econômico, consumidor, perfil estatístico ou peça de um sistema.

A Magnifica Humanitas afirma que a inteligência humana, com consciência e liberdade, deve orientar as inovações técnicas e estabelecer com responsabilidade seus usos e limites.

Esse ponto conversa diretamente com as Preferências Apostólicas Universais da Companhia de Jesus: mostrar o caminho para Deus pelo discernimento, caminhar com os pobres e excluídos, acompanhar os jovens e cuidar da Casa Comum.

Na era da inteligência artificial, essas preferências ganham novo campo de missão. Caminhar com os excluídos é também perguntar quem está sendo deixado fora da revolução digital. Acompanhar os jovens é ajudá-los a viver em um mundo hiperconectado sem perder interioridade, liberdade e esperança. Cuidar da Casa Comum é também cuidar do ecossistema digital, para que ele não seja dominado por lógicas de exploração, vício, vigilância e lucro a qualquer custo.

O olhar inaciano nos ajuda a perceber que o “mais” não pode ser confundido com mais velocidade, mais desempenho ou mais produção. O verdadeiro MAGIS não é fazer mais coisas em menos tempo. É amar mais profundamente, servir melhor e escolher aquilo que mais humaniza.

Por isso, a encíclica não é um documento apenas para especialistas em tecnologia. É um texto para educadores, comunicadores, famílias, jovens, agentes de pastoral, universidades, movimentos sociais e todas as pessoas que sentem que o mundo digital já não é um “lugar separado” da vida. Ele é parte da nossa casa, da nossa linguagem, da nossa política, da nossa fé, da nossa forma de amar e sofrer.

Leão XIV também alerta para os riscos da inteligência artificial em contextos de guerra. A encíclica afirma que decisões ligadas ao uso de força letal não podem ser delegadas a processos automatizados ou pouco transparentes, mas devem permanecer sob controle humano efetivo, consciente e responsável.

Essa preocupação amplia a discussão. A IA não está apenas no celular, no aplicativo ou na rede social. Ela também está na economia, na segurança, no trabalho, na saúde, na educação, na política e nos conflitos internacionais. Por isso, desarmar a inteligência artificial significa libertá-la das lógicas de dominação, exclusão e morte. Significa impedir que a tecnologia seja usada como instrumento de poder de poucos contra a dignidade de muitos.

No fim, a grande pergunta da Magnifica Humanitas não é sobre máquinas. É sobre nós.

A encíclica pergunta se ainda queremos construir um futuro comum. Se ainda acreditamos que progresso sem dignidade não é progresso. Se ainda temos coragem de dizer que nem tudo o que é tecnicamente possível é humanamente aceitável. Se ainda sabemos colocar a pessoa antes do lucro, a consciência antes da eficiência e o bem comum antes da corrida pelo poder.

Vinicius Alencar sintetiza essa provocação ao afirmar que o documento não rejeita a tecnologia, mas chama a humanidade a humanizar seu uso. Não se trata de combater o futuro, mas de perguntar que tipo de humanidade queremos construir dentro dele.

Essa talvez seja a beleza mais atual da encíclica: ela não fala a partir do medo, mas do discernimento. Não propõe nostalgia de um mundo sem tecnologia, mas responsabilidade diante de um mundo em que a técnica já molda afetos, escolhas, relações e horizontes.

A inteligência artificial pode ser uma ferramenta preciosa. Mas precisa permanecer ferramenta. Quando ela começa a substituir a responsabilidade, enfraquecer a consciência e reduzir pessoas a padrões de comportamento, é a própria humanidade que fica em risco.

Por isso, a Magnifica Humanitas chega como um convite urgente: permanecer humanos em uma época que mede tudo, acelera tudo e tenta prever tudo. Permanecer humanos quando a pressa nos rouba a escuta. Permanecer humanos quando a eficiência tenta ocupar o lugar da compaixão. Permanecer humanos quando os algoritmos parecem conhecer nossos desejos, mas não podem conhecer nossa alma.

A Rádio Amar e Servir convida você a acessar e ler a íntegra da encíclica Magnifica Humanitas, disponível em português no site da Santa Sé. Mais do que um documento sobre inteligência artificial, ela é um chamado à consciência: a tecnologia pode até aprender a responder, mas cabe à humanidade não esquecer as perguntas que salvam. 

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