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Leão XIV: a Igreja deve oferecer aos pobres a solidariedade que os poderosos negam
Na mensagem para o X Dia Mundial dos Pobres, que será celebrado em 15 de novembro, o Papa recorda que os pobres não precisam apenas de pão, mas de rosto, escuta, dignidade e lugar nas comunidades cristãs
Por Murilo Galhardo
Publicado em 14/06/2026 14:06
Igreja
“O Senhor é o refúgio do pobre”. Os pobres dos nossos dias são os esquecidos e os marginalizados | Vatican Media

“O Senhor é o refúgio do pobre”. É a partir desta afirmação do salmista que o Papa Leão XIV conduz a mensagem para o X Dia Mundial dos Pobres, que será celebrado em 15 de novembro, no 33º Domingo do Tempo Comum. Mais do que uma data no calendário da Igreja, a celebração aparece como um chamado urgente à conversão do olhar, da fé e da forma como as comunidades cristãs se colocam diante dos mais esquecidos.

Na mensagem, o Papa recorda que a Palavra de Deus continua sendo o caminho para compreender o lugar dos pobres na vida da Igreja. Leão XIV parte da experiência do povo de Israel, que, diante da destruição do templo de Jerusalém, sentiu-se privado da presença de Deus e mergulhado em uma miséria material e moral. Para o Pontífice, essa realidade não pertence apenas ao passado. Ela continua presente nos dias de hoje, em sociedades marcadas por injustiças, corrupção, indiferença e descarte.

O Papa denuncia uma lógica que continua ferindo os mais frágeis: quando Deus deixa de ser considerado na construção da justiça pessoal e social, as pessoas deixam de caminhar lado a lado e passam a se colocar umas acima das outras. Nasce, então, uma cultura de domínio, abuso de poder e opressão. Os primeiros a sofrer as consequências são sempre os pobres, cujo número cresce em muitas sociedades.

Leão XIV afirma que os pobres dos nossos dias são os esquecidos e marginalizados. Muitas vezes, são privados não apenas do pão, da casa, do trabalho, da educação, da saúde e do alimento, mas também de uma palavra, de um rosto e de um lugar. A pobreza, segundo a mensagem, não pode ser reduzida à falta de bens materiais. Ela também aparece quando uma pessoa deixa de ser vista, escutada e chamada pelo nome.

O Santo Padre chama atenção ainda para o ambiente digital, que muitas vezes amplia preconceitos, silencia reivindicações e aumenta a cortina de indiferença em torno das causas dos pobres. O clamor por justiça, diz o Papa, é abafado por técnicas cada vez mais dissimuladas, que fazem com que os pobres pareçam invisíveis diante de uma sociedade fechada em si mesma.

Diante dessa realidade, Leão XIV apresenta Cristo como o verdadeiro refúgio de Deus para os pobres. Em Jesus, a promessa de proteção se torna presença concreta. Por isso, a Igreja não pode permanecer insensível diante daqueles que estão à porta, mas continuam invisíveis para quem se protege atrás de seus próprios muros.

“A Igreja, pela sua própria natureza, é chamada a ser pobre e refúgio para os pobres.”

A mensagem propõe um exame de consciência profundo às comunidades cristãs. O Papa pergunta se somos sinal de um Deus que acolhe os pobres, se ouvimos seus pensamentos, se partilhamos suas expectativas, se pronunciamos seus nomes com ternura e se nossa caridade sustenta neles o desejo de justiça e libertação. Não se trata apenas de ajudar, mas de reconhecer, caminhar junto e permitir que os pobres também evangelizem a Igreja.

Leão XIV também recorda São Francisco de Assis, especialmente neste tempo em que se aproxima o oitavo centenário de sua morte. O Papa lembra o gesto de Francisco ao chegar a Roma em peregrinação ao túmulo do apóstolo Pedro. Movido pela compaixão, ele trocou suas vestes pelas roupas esfarrapadas de um mendigo e passou o dia pedindo esmola no meio dos pobres, com alegria de espírito.

Esse gesto, para o Papa, continua sendo uma provocação atual. É possível, também hoje, experimentar a alegria de colocar-se no lugar dos pobres, escutá-los e não apenas falar sobre eles. A verdadeira caridade nasce quando a Igreja se aproxima, toca a realidade, escuta o sofrimento e permite que a fraternidade cure um mundo ferido pela prepotência.

Ao final da mensagem, Leão XIV expressa o desejo de que o X Dia Mundial dos Pobres seja uma etapa significativa na redescoberta do rosto de tantos irmãos e irmãs que procuram refúgio em Deus e desejam sentir-se em casa nas comunidades cristãs.

A mensagem do Papa deixa uma direção clara: os pobres não podem ser tratados como estatística, problema social ou lembrança ocasional. Eles são presença viva de Cristo, lugar de encontro com Deus e caminho de conversão para toda a Igreja. Diante de um mundo que muitas vezes nega solidariedade, a comunidade cristã é chamada a oferecer abrigo, dignidade e esperança.

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