Depois de Itaici, reflexões do Encontro da Província ganham vida na missão pelo Brasil
Reunidos em torno da pergunta “Onde está seu Coração?”, jesuítas, leigos e leigas retornam às diferentes regiões do Brasil levando o compromisso de fortalecer a colaboração, acompanhar as juventudes, cuidar da Amazônia e caminhar em comunhão com a Igreja
Por Murilo Galhardo
Publicado em 29/07/2026 17:34
Jesuítas
Encontro da Província 2026

O Encontro da Província do Brasil 2026 chegou ao fim, mas aquilo que foi rezado, partilhado e discernido no Mosteiro de Itaici, em Indaiatuba (SP), continua encontrando novos caminhos. Entre os dias 21 e 24 de julho, cerca de 310 jesuítas, leigos e leigas estiveram reunidos sob o tema Onde está seu Coração?, em uma experiência marcada pela oração, pela escuta e pela avaliação dos rumos da missão da Companhia de Jesus no país. Segundo o balanço publicado pela Província, o encontro fortaleceu a unidade do corpo apostólico e a disposição para responder aos desafios do tempo presente.

Durante quatro dias, participantes vindos de diferentes obras, comunidades e frentes apostólicas revisitaram sonhos, reconheceram limites e procuraram perceber onde Deus chama a Companhia de Jesus a servir com maior profundidade. Mais do que uma reunião institucional, o encontro tornou-se um exercício coletivo de discernimento: olhar para a realidade, escutar os apelos que nascem dela e reorganizar forças para que a missão esteja cada vez mais próxima das pessoas e dos territórios.

Agora, depois das despedidas, cada participante retorna ao seu lugar de atuação. É justamente nesse retorno que as reflexões de Itaici começam a ganhar corpo: nas escolas e universidades, nas paróquias, nos centros de espiritualidade, nas obras sociais, nos espaços juvenis, nas comunidades amazônicas e nas diversas iniciativas conduzidas em colaboração por jesuítas, leigos e leigas.

Juventudes: presença, escuta e esperança

Entre os grandes apelos reafirmados no encontro está o acompanhamento das juventudes. Em um mundo atravessado por mudanças rápidas, inseguranças e novas formas de relacionamento, a Companhia de Jesus busca anunciar o Evangelho a partir das quatro Preferências Apostólicas Universais: mostrar o caminho para Deus; caminhar com os pobres e excluídos; acompanhar os jovens na construção de um futuro cheio de esperança; e colaborar no cuidado da Casa Comum.

Para o secretário para Juventude e Vocações da Província dos Jesuítas do Brasil, Pe. Edson Tomé Pacheco Silva, SJ, esses quatro horizontes ajudam a orientar a presença da Companhia junto às diversas realidades juvenis.

“É a partir desses quatro pilares que a Companhia de Jesus, reunida aqui em Itaici, revisa o seu Plano Apostólico, buscando colocar melhor o seu corpo apostólico a serviço das diversas juventudes no Brasil.”

Esse acompanhamento, segundo o jesuíta, nasce da experiência de um encontro pessoal com Jesus e do desejo de colaborar em sua missão. Diante dos jovens que se aproximam da espiritualidade inaciana ou começam a discernir a própria vocação, Pe. Edson Tomé reconhece como sinal de esperança a disposição para seguir Jesus e buscar um sentido mais profundo para a vida.

Para aqueles que percebem o chamado de Deus, mas ainda sentem medo ou insegurança, ele deixa um convite simples e necessário: procurar espaços seguros nos quais seja possível falar sobre as próprias inquietações.

“Busquem espaços de confiança para partilhar suas inquietudes, seja na escola, na universidade, na paróquia, em um centro de juventude ou em qualquer outro ambiente. Procurem alguém com quem possam conversar. Seguramente essa pessoa terá uma palavra de incentivo e poderá ajudar a encontrar o melhor caminho para responder a essa vocação.”

Um coração voltado para a Amazônia

Se o tema do encontro perguntava onde estava o coração de cada participante, para Lidiane Cristo, secretária da Preferência Apostólica Amazônia, a resposta tornou-se ainda mais clara ao longo da experiência: seu coração permanece profundamente ligado à região amazônica.

Lidiane destacou que o encontro possibilitou o intercâmbio de experiências entre pessoas que atuam em diferentes territórios e obras da Companhia de Jesus. A convivência entre jesuítas, leigos e leigas ajudou a revelar que, apesar das distâncias geográficas e da diversidade de atuações, todos participam de uma mesma missão.

“Saio consolada porque percebo que meu coração está na Amazônia. Essa Igreja também contribui muito para a missão da Companhia de Jesus no Brasil.”

A palavra “consolação”, tão presente na espiritualidade inaciana, ajuda a compreender aquilo que permanece depois do encontro. Não se trata apenas de uma satisfação pessoal, mas da percepção de que Deus confirma um caminho e renova as forças para continuar servindo. No caso de Lidiane, essa confirmação passa pela Amazônia, por seus povos, suas culturas, sua biodiversidade e pelos desafios socioambientais enfrentados na região.

Sua partilha também recorda que a Amazônia não deve ser compreendida como uma preocupação restrita às pessoas que vivem naquele território. O cuidado com a região, com seus povos e com a Casa Comum atravessa toda a missão da Companhia de Jesus no Brasil.

Reencontrar pessoas e rever caminhos

O Ir. Jorge Luiz de Paula, SJ, diretor-geral do Colégio São Francisco Xavier, o Sanfra, em São Paulo (SP), definiu o encontro como um tempo de reencontro, partilha da vida e reflexão sobre a missão. Para ele, reunir jesuítas e colaboradores leigos permite reconhecer o caminho já percorrido e, ao mesmo tempo, avaliar os rumos que precisam ser revistos.

“É um tempo muito importante para rever rotas, sonhos e medos e, acima de tudo, caminhar juntos.”

A comunhão com a Igreja aparece entre os desafios assumidos pela Companhia de Jesus. Logo no início da programação, os participantes acompanharam uma reflexão de Dom João Justino de Medeiros Silva, arcebispo de Goiânia e primeiro vice-presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, sobre as Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil. A contribuição ajudou a recordar que a missão jesuíta não acontece de maneira isolada, mas integrada à caminhada e às escolhas pastorais da Igreja.

“Uma das grandes questões é a comunhão com a Igreja. A Companhia não realiza um trabalho separado, mas caminha com a Igreja”, ressaltou o Ir. Jorge.

Escutar os sonhos dos jovens

A partir de sua experiência na educação, Ir. Jorge também chamou a atenção para o papel das escolas no acompanhamento das novas gerações. Mais do que transmitir conhecimentos, uma instituição educativa inspirada pela espiritualidade inaciana é chamada a escutar os jovens, acolher suas perguntas e ajudá-los na construção de seus projetos de vida.

“Acompanhar a juventude é escutá-la, acompanhar seus sonhos e pensar com ela os seus projetos de vida.”

Essa escuta torna-se ainda mais necessária diante das pressões, dos medos e das incertezas enfrentadas pelos jovens. Ao falar de vocação, a Companhia de Jesus não se refere somente à vida religiosa ou sacerdotal, mas à descoberta do lugar de cada pessoa no mundo e da maneira pela qual seus dons podem ser colocados a serviço dos demais.

O desafio, portanto, é criar ambientes nos quais os jovens se sintam verdadeiramente ouvidos, tenham liberdade para formular suas perguntas e encontrem pessoas dispostas a caminhar ao seu lado. É nesse acompanhamento paciente, próximo e respeitoso que o Evangelho pode ser anunciado de forma mais significativa.

O encontro continua

O Encontro da Província terminou, mas a pergunta que o conduziu permanece aberta: onde está o nosso coração? Ela acompanha os participantes de volta às suas comunidades e obras apostólicas, pedindo respostas que não sejam apenas formuladas em palavras, mas traduzidas em escolhas.

O coração está nas juventudes que procuram quem as escute. Está na Amazônia e nos povos que defendem a vida e a floresta. Está nas escolas que ajudam crianças e jovens a sonhar com o futuro. Está entre os pobres e excluídos, nas comunidades e nos espaços onde a esperança parece mais frágil. Está também na colaboração cotidiana entre jesuítas, leigos e leigas que compartilham a responsabilidade pela missão.

 

Itaici foi lugar de encontro, escuta e discernimento. Agora, os seus ecos seguem pelo Brasil. Transformam-se em presença, serviço, cuidado e compromisso. Afinal, um encontro como esse não termina quando os participantes voltam para casa. Ele continua cada vez que uma rota é revista, uma pessoa é escutada, uma missão é assumida e um novo passo é dado em conjunto.

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