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Espiritualidade inaciana aponta caminhos de esperança em meio às crises do nosso tempo
IV Simpósio de Espiritualidade Inaciana reuniu cerca de 230 participantes para refletir sobre fé, missão e busca de sentido; Walter Ferreira Salles destacou a contribuição do discernimento diante das transformações contemporâneas
Por Murilo Galhardo
Publicado em 03/08/2026 18:14 • Atualizado 03/08/2026 18:46
Jesuítas

Em um mundo atravessado por mudanças aceleradas, crises socioambientais, avanços tecnológicos e profundas inquietações humanas e religiosas, uma pergunta continua ecoando no coração de pessoas de diferentes idades: qual é o sentido da vida?

Foi diante dessa questão que cerca de 230 pessoas de diferentes regiões do Brasil se reuniram, nos dias 1º e 2 de agosto, para o IV Simpósio de Espiritualidade Inaciana. Promovido pela Rede Inaciana de Colaboração, Fé e Espiritualidade, a Rede Servir, por meio do Centro de Espiritualidade Inaciana (CEI Brasil), o encontro aconteceu de forma totalmente virtual e teve como tema “Discernimento e missão em tempos de crise”.

Mais do que uma sequência de conferências, o simpósio propôs um itinerário de oração, formação, escuta e partilha. Leigos e leigas, religiosos, religiosas e padres foram convidados a olhar para as crises contemporâneas não apenas como momentos de ruptura, mas também como oportunidades para reconhecer a presença de Deus, rever escolhas e discernir novos caminhos para a vida e para a missão.

Em entrevista à Rádio Amar e Servir, Walter Ferreira Salles, editor da Revista Itaici, diretor do Mosteiro de Itaici e integrante da equipe de articulação do simpósio, explicou que a programação foi pensada para unir profundidade e leveza, criando um espaço no qual reflexão teológica e experiência espiritual pudessem caminhar juntas.

“A busca de sentido para a vida foi o tema que nos preocupou e nos uniu na preparação do simpósio desde o seu início. É uma questão de extrema relevância para cristãos, não cristãos, crentes ou ateus: qual é o sentido da minha vida? Por que eu existo?”, afirmou.

Colaboração como resposta às crises

A conferência de abertura foi conduzida pelo Pe. Alfredo Sampaio Costa, SJ, com o tema “Convidados a colaborar: mergulhando no coração da inacianidade”. A reflexão apresentou a colaboração como uma dimensão fundamental da missão cristã e da própria espiritualidade inaciana.

Diante da complexidade do mundo contemporâneo, Pe. Alfredo destacou que ninguém consegue responder sozinho aos desafios atuais. A colaboração, nesse sentido, não é apenas uma estratégia de trabalho, mas uma forma concreta de viver a fé, superar preconceitos, construir relações fraternas e reconhecer que a missão é compartilhada.

O primeiro dia também contou com uma mesa-redonda em celebração aos 50 anos das Comunidades de Vida Cristã (CVX) no Brasil. Ceci Mariani e Gina Torres recuperaram aspectos da história da CVX e partilharam suas experiências como leigas chamadas a viver a espiritualidade inaciana em comunidade.

As reflexões mostraram que o discernimento não acontece apenas de maneira individual. Ele também precisa ser vivido comunitariamente, por meio da escuta, da partilha de vida e da atenção aos desafios sociais. Em uma realidade marcada pelo crescimento das desigualdades, da violência e das novas tecnologias, a experiência comunitária aparece como espaço de apoio, compromisso e procura conjunta pela vontade de Deus.

Uma espiritualidade nascida em tempos de crise

O Provincial dos Jesuítas do Brasil, Pe. Francys Silvestrini Adão, SJ, também participou do encontro e recordou que a própria espiritualidade inaciana nasceu em meio a uma crise.

A ferida sofrida por Inácio de Loyola em Pamplona interrompeu seus antigos projetos e o colocou diante de perguntas decisivas sobre sua existência. Aquilo que inicialmente parecia apenas derrota e sofrimento tornou-se o começo de uma profunda transformação interior.

Ao revisitar sua história e reconhecer como Deus o conduzia, Inácio desenvolveu um caminho espiritual capaz de ajudar outras pessoas a perceber os movimentos interiores, ordenar os próprios afetos e buscar maior liberdade para tomar decisões.

Essa experiência mostra que a espiritualidade inaciana não ignora nem teme as crises. Ela ensina a atravessá-las com atenção, oração e discernimento, procurando compreender o que Deus comunica mesmo nas circunstâncias mais difíceis.

Discernir diante das transformações contemporâneas

Na segunda conferência, o Pe. Jair Carneiro, SJ, abordou as “Perspectivas teológicas diante das crises contemporâneas”. Ele convidou os participantes a olhar para as crises socioambientais, culturais, tecnológicas e religiosas como realidades que exigem discernimento, responsabilidade e transformação.

Acompanhamento espiritual, pobreza evangélica, leitura dos sinais dos tempos e disposição para ajudar o próximo foram apresentados como caminhos para viver a espiritualidade inaciana no cotidiano. Mais do que um método de oração, ela foi compreendida como uma maneira de estar no mundo, enxergar a realidade e responder aos desafios com esperança.

Walter Salles ressaltou que as mudanças técnico-científicas, especialmente nas áreas da inteligência artificial, robótica e genética, trazem novas possibilidades, mas também fazem emergir perguntas profundas sobre a identidade e o destino da pessoa humana.

“Por que eu existo? O que dá sentido à minha vida? O que estou fazendo aqui? Essa não é uma pergunta apenas de adolescentes ou jovens. Pessoas de diferentes idades se colocam diante dessa questão”, observou.

Para ele, há também uma crise no campo religioso. Em uma sociedade plural, acreditar em Deus tornou-se uma possibilidade entre tantas outras, e a adesão à pessoa de Jesus Cristo já não parece evidente nem mesmo para muitos cristãos. É nesse cenário que a espiritualidade inaciana pode ajudar a pessoa a reencontrar o princípio e fundamento de sua existência e a recolocar Deus no centro da própria vida.

Ecologia, inteligência artificial e cuidado humano

Encerrando o ciclo de conferências, a teóloga Maria Clara Bingemer conduziu a reflexão “Habitar a complexidade do nosso tempo: conflitos, crises e caminhos de esperança”.

Dialogando com o filósofo sul-coreano Byung-Chul Han e com o pensamento da filósofa e mística Simone Weil, Maria Clara abordou dois dos grandes desafios da atualidade: a crise socioambiental e o avanço acelerado da inteligência artificial.

Sua exposição chamou a atenção para os riscos de uma sociedade utilitarista, hiperconectada e guiada apenas pela produtividade. Quando a tecnologia deixa de estar a serviço da vida, cresce o perigo de relações humanas serem substituídas por sistemas anônimos, enfraquecendo a capacidade de acolhimento, afeto, escuta e compaixão.

Como resposta, a conferencista apontou a necessidade de uma conversão ecológica e do resgate da atenção amorosa ao próximo. O desenvolvimento tecnológico precisa estar acompanhado por critérios éticos que preservem a dignidade humana, a alteridade e o bem comum.

Oração, partilha e formação continuada

Ao longo dos dois dias, o simpósio também contou com momentos de oração conduzidos pelos Núcleos Inacianos, pelo MAGIS Brasil e pela equipe de Apoio aos Exercícios Virtuais Inacianos (AEVI). Nas partilhas em grupo, os participantes puderam relacionar as conferências com suas próprias experiências e realidades.

A programação reservou ainda um espaço para a Revista Itaici. Walter Salles e o Pe. Laércio de Lima, SJ, destacaram a importância histórica da publicação para a formação e a difusão da espiritualidade inaciana. Produzida pela Rede Servir e publicada por Edições Loyola, a Itaici é a única revista dedicada à espiritualidade inaciana em língua portuguesa no mundo, conforme apresenta o portal da Rede Servir.

O encontro terminou, mas as perguntas que o motivaram permanecem. Em vez de oferecer fórmulas prontas, o IV Simpósio procurou abrir horizontes e oferecer instrumentos para que cada pessoa possa continuar seu próprio caminho de discernimento.

“Nós não queremos oferecer receitas prontas ou respostas totalmente esclarecedoras. A ideia é apontar caminhos, pistas e trilhas pelas quais as pessoas possam começar a caminhar”, explicou Walter Salles.

 

Em tempos nos quais tantas vozes disputam a atenção e tantas mudanças provocam medo e desorientação, a espiritualidade inaciana recorda que discernir é aprender a escutar com profundidade. É olhar para a realidade sem fugir de suas crises, reconhecer os movimentos do próprio coração e descobrir, em meio às incertezas, por onde Deus continua chamando cada pessoa a amar e servir.

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