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No chão dos mártires, jesuítas renovam a missão e reacendem a esperança
Realizada nos dias 18 e 19 de julho, em Ribeirão Cascalheira (MT), a 8ª Romaria dos Mártires da Caminhada reuniu povos indígenas, comunidades eclesiais, movimentos populares, religiosos, leigos e jovens no Santuário dos Mártires. No ano em que são recordados os 50 anos do martírio do Pe. João Bosco Burnier, SJ, jesuítas de diferentes gerações reencontraram, na memória do companheiro assassinado, um chamado atual à defesa da vida, dos povos e da dignidade humana
Por Murilo Galhardo
Publicado em 20/07/2026 15:21 • Atualizado 20/07/2026 15:34
Jesuítas
Jesuítas presentes na 8ª Romaria dos Mártires da Caminhada

Primeiro, o fogo. Depois, os passos. Na noite de Ribeirão Cascalheira, a fogueira acesa iluminava os rostos de homens e mulheres que atravessaram cidades, rios e longas estradas para chegar a um dos territórios mais simbólicos da caminhada da Igreja na América Latina. Quando os romeiros começaram a seguir em direção ao Santuário dos Mártires, levando cruzes, faixas, cantos e nomes, a memória deixou de ser apenas uma recordação do passado. Ganhou corpo, voz e movimento. Voltou a caminhar com o povo.

Foi nesse cenário que peregrinos de diferentes regiões do Brasil e de outros países participaram, nos dias 18 e 19 de julho de 2026, da 8ª Romaria dos Mártires da Caminhada Latino-Americana. Com o tema “Testemunhas da Esperança”, a edição ganhou um significado ainda mais profundo por acontecer no ano em que são recordados os 50 anos do martírio do Pe. João Bosco Penido Burnier, SJ. O jesuíta foi assassinado depois de interceder por duas mulheres que eram torturadas por policiais. Cinco décadas depois, sua memória permanece como testemunho de uma fé que não se omite diante da violência e de uma missão que escolhe caminhar ao lado daqueles que têm a dignidade ameaçada.

A Romaria não nasceu para transformar a morte em espetáculo, nem para aprisionar os mártires em um passado heroico. Seu sentido está justamente em recordar vidas que continuam interrogando o presente. Na tradição cristã, mártir significa testemunha: não alguém que procurou a morte, mas uma pessoa que permaneceu fiel à vida, à justiça e ao Evangelho, mesmo quando essa fidelidade teve um preço extremo. Por isso, em Ribeirão Cascalheira, não se celebra a violência que matou Burnier, mas o amor que a violência não conseguiu vencer. A fogueira, os cantos, a caminhada e a chegada ao Santuário formam uma experiência na qual oração, história e compromisso social não podem ser separados.

Um lugar marcado pela violência e transformado pela memória

Em 1976, Ribeirão Cascalheira ainda era chamada Ribeirão Bonito e estava inserida em uma região marcada pelo avanço do latifúndio, pelos conflitos de terra, pela exploração de trabalhadores rurais e pela violência contra os povos indígenas. Na noite de 11 de outubro daquele ano, Dom Pedro Casaldáliga e o Pe. João Bosco Burnier receberam a informação de que duas mulheres, Margarida e Santana, estavam presas e eram agredidas e torturadas na delegacia local. Os dois foram até o lugar para interceder por elas. Ao denunciar a violência e pedir que as agressões fossem interrompidas, Burnier foi atacado pelos policiais, recebeu uma coronhada e foi atingido por um tiro. Gravemente ferido, foi levado para Goiânia, onde morreu no dia seguinte, 12 de outubro, festa de Nossa Senhora Aparecida.

O homem que tombou naquele chão era um jesuíta missionário profundamente comprometido com os povos indígenas. Burnier atuou junto aos Bakairi e aos Bororo, acompanhou trabalhadores rurais e, no ano de sua morte, exercia a coordenação regional do Conselho Indigenista Missionário, o Cimi. Sua missão reunia evangelização, alfabetização, cuidados de saúde, defesa de direitos e presença concreta junto às comunidades ameaçadas. O tiro que o atingiu não foi um acontecimento isolado em sua trajetória, mas a consequência extrema de uma escolha construída ao longo dos anos: aproximar-se dos vulneráveis e não permanecer em silêncio diante da violência. Antes do martírio, houve convivência, escuta, deslocamento e serviço. Burnier não morreu por defender uma ideia abstrata. Morreu porque viu pessoas concretas sendo violentadas e colocou a própria voz entre as vítimas e os agressores.

A violência tentou encerrar aquela história, mas o povo respondeu transformando o lugar do crime em espaço de memória. Erguido em mutirão, o Santuário dos Mártires da Caminhada não foi pensado apenas como uma homenagem pessoal a Burnier. Tornou-se uma casa onde são guardadas as histórias de homens e mulheres que entregaram a vida em defesa dos pobres, dos povos, dos trabalhadores, da terra, da justiça e da liberdade. Em suas paredes, imagens e celebrações, o Santuário não afasta o visitante das dores do mundo. Ao contrário, devolve-o à realidade e o convida a reconhecer a presença de Cristo nos corpos feridos da história. Ali, o altar não encobre o sofrimento do povo, mas coloca esse sofrimento diante de Deus. A fé não funciona como fuga, mas como força para enfrentar aquilo que ameaça a vida.

Foi a partir dessa memória que nasceu a Romaria dos Mártires da Caminhada. A primeira grande celebração aconteceu em 1986 e, ao longo das décadas seguintes, o encontro passou a ser realizado periodicamente, reunindo comunidades do Araguaia e caravanas vindas de diferentes partes do Brasil e da América Latina. Em 2026, a oitava edição marcou 40 anos dessa caminhada. O evento é construído em mutirão, com a participação do povo de Ribeirão Cascalheira, da Prelazia de São Félix do Araguaia, das Comunidades Eclesiais de Base, das pastorais sociais, dos movimentos populares e de tantas pessoas comprometidas com as causas da vida. Mais do que chegar a um santuário, os romeiros chegam a uma história que lhes pede posicionamento.

A presença dos povos no centro da Romaria

A Romaria não pode ser compreendida sem a presença dos povos indígenas, das comunidades camponesas, dos trabalhadores rurais, das mulheres, dos jovens e das lideranças populares. Eles não aparecem como elementos secundários de uma celebração religiosa, mas como sujeitos de uma história construída em meio a conflitos, resistências e conquistas. A própria caminhada da Prelazia de São Félix do Araguaia foi marcada pela opção de permanecer ao lado das populações atingidas pela concentração de terras, pela exploração do trabalho e pela violência contra os territórios tradicionais. Nesse contexto, recordar Burnier significa também recordar as pessoas com quem ele escolheu viver sua missão.

A presença indígena, especialmente, não ocupa um lugar decorativo. Ela está profundamente ligada à trajetória missionária do jesuíta e às causas que marcaram sua vida. Quando representantes dos povos originários chegam ao Santuário, não visitam uma história distante ou alheia. Encontram a memória de um missionário que procurou caminhar ao lado deles, reconhecer suas culturas e compreender suas lutas como parte inseparável do compromisso com o Evangelho. A defesa dos povos indígenas não foi um tema circunstancial na vida de Burnier, mas uma dimensão constitutiva de sua vocação. Por isso, a Romaria também chama a atenção para os conflitos que continuam ameaçando territórios, culturas e projetos de vida dos povos originários.

O Pe. Aloir Pacini, SJ, missionário com longa trajetória de atuação indigenista, recordou que esse compromisso ainda encontra resistências dentro e fora da Igreja. “O trabalho com os povos indígenas cria resistência na sociedade brasileira, como cria também na Igreja, porque é um trabalho desafiador”, afirmou. Sua reflexão impede que a Romaria seja reduzida a uma celebração confortável ou nostálgica. Cinquenta anos depois do martírio de Burnier, os povos originários continuam enfrentando invasões, preconceito, violência e tentativas de enfraquecimento de seus direitos. A missão, portanto, não consiste em falar no lugar desses povos, mas em caminhar com eles, reconhecer seu protagonismo, aprender com suas culturas e permanecer ao seu lado quando sua dignidade é ameaçada.

Jesuítas retornam ao chão de um companheiro

Entre os peregrinos que chegaram a Ribeirão Cascalheira estavam jesuítas de diferentes idades, regiões e frentes apostólicas. Alguns carregavam décadas de missão; outros estão iniciando sua caminhada na Companhia de Jesus. Todos, entretanto, chegaram ao território onde um companheiro foi assassinado por defender a vida. Essa presença não se resumiu a uma homenagem institucional. Peregrinar até o Santuário significou reencontrar as raízes de uma missão que, em João Bosco Burnier, chegou à entrega da própria existência e perguntar o que seu testemunho continua exigindo da Companhia de Jesus no presente.

Para o Pe. Marcos Augusto Brito Mendes, SJ, participar da Romaria foi reencontrar uma dimensão essencial da fé cristã. “É uma alegria muito grande participar. Sempre fui criado nesse sentido de que somos uma Igreja formada no sangue do Senhor Jesus e no sangue dos mártires. Ter presente a história de João Bosco Burnier, um companheiro jesuíta, tem um significado muito profundo”, afirmou. Sua reflexão recorda que a Igreja não nasce apenas de discursos, documentos ou estruturas, mas do testemunho de pessoas que assumiram o Evangelho como forma concreta de viver. Antes das instituições consolidadas, existiram homens e mulheres dispostos a permanecer ao lado dos pequenos, mesmo quando essa escolha lhes custou perseguição, incompreensão e morte.

Para Thalissom Bonfim, SJ, a experiência começou pelo contato com o próprio território. “Primeiro, por poder pisar neste chão onde outros companheiros também pisaram e deram a vida em nome de Cristo e também do povo de Cristo”, partilhou. Pisar nesse chão não é um gesto neutro. É reconhecer que a terra conserva memória e que os caminhos percorridos pelos mártires permanecem abertos. Cada nova geração precisa decidir se observará esses caminhos à distância ou se terá coragem de prosseguir. Em uma frase breve, o Pe. Geraldo Marcos Labarrère Nascimento, SJ, resumiu a interpelação provocada pela Romaria: “Esse ambiente é que convence a gente: realmente, vale a pena lutar”. A afirmação não ignora a dureza da caminhada, mas nasce da certeza de que a violência não pode possuir a palavra definitiva sobre a história.

Essa memória é alimentada por uma espiritualidade profundamente ligada à vida do povo. Ela aparece nos cantos, nas cruzes, no fogo, nos silêncios, nas imagens e nos corpos cansados depois da caminhada. O Pe. Silas Silva, SJ, definiu a experiência como a possibilidade de “beber desta mística dos mártires da caminhada, que nos motiva, nos alegra e nos emociona”. Não se trata de uma mística que retira o cristão da realidade, mas que lhe oferece forças para enxergá-la com maior profundidade. A emoção despertada pelos testemunhos não termina no sentimento. Ela precisa transformar-se em disponibilidade para reconhecer os lugares onde outras vidas continuam ameaçadas e onde a missão cristã é chamada a se fazer presença.

Ao observar a diversidade dos participantes, o Pe. Rogério Mosimann da Silva, SJ, destacou o encontro entre gerações como um dos sinais mais fortes da Romaria. “É uma alegria grande encontrar essa gente, gente de anos de caminhada e gente nova também, juventude aqui presente, novas gerações fazendo parte dessa caminhada”, afirmou. A presença dos jovens revela que a memória de Burnier não envelheceu. Quando uma nova geração conhece seu nome, escuta sua história e compreende as causas pelas quais ele entregou a vida, o passado deixa de ser apenas arquivo e se transforma em responsabilidade. Não se trata de pedir aos jovens que repitam exatamente as formas de atuação das gerações anteriores, mas de lhes confiar a mesma pergunta fundamental: diante das injustiças do nosso tempo, de que lado permaneceremos?

Uma esperança que precisa voltar para as comunidades

Para o Pe. Lucas Maurício dos Santos, SJ, participar da Romaria junto ao povo fortaleceu a própria experiência de fé e missão. “Fazer parte dessa experiência, participar junto com o povo, fortalece também a nossa caminhada e reacende essa chama de esperança que esse testemunho traz para cada um de nós”, declarou. A esperança mencionada pelo jesuíta não é individual, ingênua ou passiva. Ela nasce da caminhada compartilhada, do encontro entre gerações e da certeza de que nenhuma missão pode ser construída isoladamente. O povo fortalece a vocação do religioso, assim como a presença do religioso pode fortalecer a caminhada das comunidades. É uma relação de aprendizado mútuo, na qual todos são chamados a escutar, discernir e servir.

O Pe. Paulo Tadeu Barausse, SJ, apontou para aquilo que precisa acontecer depois que a Romaria termina: “Que possamos também levar para nossas comunidades sementes de esperança, como fala o tema da Romaria”. A imagem da semente traduz o sentido mais profundo da peregrinação. O Santuário não é o ponto final do caminho, mas o lugar de onde os romeiros são novamente enviados. Cada pessoa retorna levando aquilo que viu, ouviu e experimentou. Algumas sementes serão plantadas em comunidades indígenas; outras, em paróquias, centros sociais, universidades, casas de formação, pastorais, projetos com as juventudes e iniciativas de defesa dos direitos humanos. Nem todas produzirão frutos imediatamente, mas todas carregam a memória de que é possível permanecer fiel mesmo diante das adversidades.

Ao final da Romaria, os jesuítas não deixaram Ribeirão Cascalheira apenas com a lembrança de João Bosco Burnier. Partiram acompanhados pelas perguntas que seu martírio continua fazendo. Quem são as Margaridas e Santanas torturadas e silenciadas do nosso tempo? Quais povos ainda precisam lutar para permanecer em seus territórios? Quais violências se tornaram tão habituais que já não provocam indignação? Onde a Igreja e a Companhia de Jesus são chamadas a colocar a voz, o corpo, a inteligência, a espiritualidade e suas obras a serviço da vida?

Cinquenta anos depois, Burnier continua sendo um companheiro de missão porque sua entrega não conduz à contemplação de sua própria pessoa, mas às causas pelas quais viveu. Ele aponta para as mulheres violentadas, para os povos indígenas, para os trabalhadores explorados e para todos aqueles cuja dignidade continua sendo negada. Sua memória pergunta à Igreja e à Companhia de Jesus se ainda existe coragem para se aproximar dos feridos, denunciar a violência e permanecer ao lado daqueles que não encontram quem os defenda.

A 8ª Romaria dos Mártires da Caminhada terminou, mas sua verdadeira continuidade começa quando cada peregrino retorna ao lugar onde vive. A fogueira se apaga, os passos deixam a estrada e as caravanas partem. A chama, porém, permanece acesa. E, enquanto houver alguém disposto a transformar a memória de João Bosco Burnier em compromisso com a vida, seu testemunho continuará caminhando.

 
 
 

 

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