ANCHIETA (ES) — Dois destinos marcados pela fé e pela história iniciaram uma nova etapa de aproximação. Representantes do Santuário Nacional de São José de Anchieta e da Prefeitura de Anchieta estiveram no Santuário Nacional de Nossa Senhora da Conceição Aparecida, no interior paulista, para conhecer experiências de gestão, comunicação e acolhida e discutir possibilidades de cooperação voltadas ao turismo religioso.
A agenda em São Paulo dá continuidade a uma articulação anunciada durante o 1º Fórum da Região Sudeste de Turismo Religioso, realizado em Vitória, entre os dias 11 e 13 de agosto. Na ocasião, o reitor do Santuário de Anchieta, padre Raimundo Nonato Resende, SJ, afirmou que a instituição pretendia aprender com a experiência de Aparecida e fortalecer a atuação conjunta com os governos municipal e estadual. Santuário Nacional de São José de Anchieta
O encontro reuniu a comitiva capixaba e integrantes da reitoria do Santuário de Aparecida, atualmente conduzida pelo missionário redentorista padre Eduardo Catalfo. Mais do que aproximar duas instituições religiosas, a visita colocou em diálogo municípios de dimensões populacionais semelhantes, mas com realidades turísticas bastante diferentes.
Segundo o Censo 2022 do IBGE, Anchieta tinha 29.984 habitantes, enquanto Aparecida registrava 32.569. A proximidade demográfica torna a experiência paulista uma referência importante para o município capixaba, especialmente na organização de fluxos, na comunicação com os devotos, na preparação das equipes e na criação de estruturas capazes de acolher peregrinos durante todo o ano. IBGE Anchieta e IBGE Aparecida
Experiência de Aparecida pode contribuir com planejamento local
Entre os encaminhamentos discutidos está a possibilidade de uma visita técnica de Solange Parron a Anchieta. Com experiência na modernização da gestão do Santuário de Aparecida e na estruturação da Família dos Devotos, ela poderá colaborar com diagnósticos e propostas nas áreas de planejamento, comunicação, relacionamento com peregrinos e desenvolvimento institucional.
A eventual cooperação ainda deverá ser detalhada pelas instituições. Até o fechamento desta matéria, não havia divulgação pública de convênio formal, cronograma, orçamento ou metas definidas.
O movimento, contudo, revela uma mudança de escala: Anchieta busca transformar iniciativas isoladas em uma política articulada, capaz de reunir espiritualidade, patrimônio, poder público, empreendedores e comunidades locais.
Uma cidade onde o mar encontra a memória de um santo
Anchieta reúne atributos pouco comuns em um único destino. O município tem 23 praias distribuídas por aproximadamente 30 quilômetros de litoral. Ao mesmo tempo, conserva o conjunto histórico ligado a São José de Anchieta, jesuíta que fundou a missão de Reritiba em 1579, iniciou a construção da igreja dedicada a Nossa Senhora da Assunção e morreu no local em 1597. Turismo do Espírito Santo e Santuário de Anchieta
Esse encontro entre litoral, cultura e espiritualidade amplia as possibilidades do município. A estratégia não é afastar Anchieta de sua vocação de verão, mas fazer com que o visitante que chega pelas praias também conheça a história, o Santuário, as comunidades e a religiosidade local.
Da mesma forma, a proposta é oferecer ao peregrino experiências que ultrapassem a visita ao templo e movimentem hospedagem, gastronomia, artesanato, transporte e comércio.
O fortalecimento do turismo ganha peso em um período de transição tributária. A reforma da tributação sobre o consumo altera gradualmente a lógica de arrecadação e distribuição de receitas entre os entes federativos. Nesse cenário, a diversificação econômica aparece como estratégia de médio e longo prazo. Emenda Constitucional nº 132
O turismo, no entanto, só poderá produzir resultados duradouros se vier acompanhado de planejamento, qualificação profissional, mobilidade, sinalização, preservação patrimonial e participação das comunidades.
Passos de Anchieta e Rota Mar de Fé ampliam a experiência do peregrino
Entre os principais ativos do município estão Os Passos de Anchieta, peregrinação criada em 1998 que refaz o caminho associado ao santo entre Vitória e Anchieta.
A caminhada oficial percorre cerca de 100 quilômetros em quatro dias, passando por Vitória, Vila Velha, Guarapari e Anchieta, com chegada no Santuário Nacional de São José de Anchieta. Organização dos Passos de Anchieta
Outro projeto em desenvolvimento é a Rota Mar de Fé. O itinerário prevê oito pequenas capelas entre a região de Mãe-Bá e o Santuário Nacional. Em agosto de 2026, seis delas já haviam sido entregues.
A proposta cria pontos de oração e contemplação ao longo do território municipal e pode favorecer a circulação de visitantes por bairros e comunidades que nem sempre integram os roteiros tradicionais.
Para que as duas iniciativas se consolidem como produtos turísticos permanentes, será necessário conectá-las a informações claras, sinalização, segurança, calendário, capacitação de condutores e oferta de serviços. É nesse ponto que a troca de experiências com Aparecida pode se tornar mais concreta.
Cooperação entre Igreja, município e Estado
A articulação conta ainda com a participação do Governo do Espírito Santo, por meio da Secretaria de Estado do Turismo. A presença das três esferas, Santuário, município e Estado, amplia a capacidade de promover Anchieta em rotas regionais e nacionais, mas também exige definição de responsabilidades e continuidade para além de agendas pontuais.
Ao final da visita, a comitiva entregou à reitoria de Aparecida peças de artesanato produzidas com escamas de peixe. O gesto sintetizou a identidade que Anchieta pretende apresentar aos peregrinos: uma cidade em que o mar, a cultura popular e a memória de São José de Anchieta fazem parte da mesma paisagem.
Se os próximos passos transformarem diálogo em planejamento e planejamento em ações permanentes, a aproximação poderá representar mais do que uma parceria institucional.
Poderá ajudar Anchieta a se afirmar como destino de fé, história e encontro, com capacidade de receber visitantes durante todo o ano e de fazer do turismo uma força de desenvolvimento sustentável para a população local.
Murilo Galhardo, com informações de Gerson Brandão - Podbee Comunicação Assessoria de imprensa