Responder ao chamado de Deus é uma decisão profundamente pessoal, mas que não se sustenta de maneira solitária. Essa certeza marcou o encontro que reuniu mais de 100 jovens jesuítas em formação, vindos de diferentes lugares e vivendo distintas etapas de preparação para a vida e a missão na Companhia de Jesus.
Ao longo de dois dias, os participantes tiveram momentos de oração, formação, convivência e partilha de experiências. Mais do que uma atividade inserida no calendário formativo, o encontro tornou-se um espaço para renovar a vocação, fortalecer os vínculos de amizade e recordar que cada história pessoal faz parte de um corpo apostólico maior.
Com o tema “Um corpo construindo horizontes” e o lema “Intergeracionalidade, discernimento e futuro da vida-missão”, as reflexões ajudaram os jovens jesuítas a reconhecer que o futuro da Companhia de Jesus não pode ser construído de maneira isolada. Ele nasce do encontro entre gerações, da escuta da experiência dos mais velhos e da disposição dos mais jovens para responder, com criatividade e coragem, aos novos apelos de Deus e da realidade.
Uma vocação vivida em companhia
Em entrevista à Rádio Amar e Servir, o Pe. Laércio de Lima, SJ, delegado para a Formação da Província dos Jesuítas do Brasil, afirmou que encontros como esse têm grande importância na caminhada dos jovens que discernem e aprofundam sua vocação à Companhia de Jesus.
Segundo ele, cada jesuíta chega à formação trazendo sonhos, desejos, perguntas e, sobretudo, a vontade de realizar a vontade de Deus. Nesse processo, perceber que existem outros companheiros vivendo inquietações semelhantes fortalece a decisão vocacional.
“É muito bom não se sentir sozinho. É muito bom sentir que estamos juntos. É muito bom ver tantos jovens jesuítas que responderam ‘sim’ com generosidade e que estão continuamente se perguntando a respeito da qualidade da vida consagrada e de como Deus quer que eles vivam a sua felicidade.”
A formação de um jesuíta não se resume aos estudos acadêmicos. Trata-se de um percurso que integra vida espiritual, experiência comunitária, preparação intelectual, serviço apostólico e discernimento. É um processo longo, no qual cada jovem aprende a reconhecer seus dons e limites, a aprofundar sua relação com Deus e a colocar a própria vida a serviço da Igreja e da sociedade.
Nesse caminho, a convivência ocupa um lugar essencial. Para o Pe. Laércio, olhar para os outros jovens que fizeram a mesma escolha ajuda cada participante a confirmar que sua resposta não está isolada, mas integrada a uma missão comum.
“Um encontro como este anima a vida, anima a caminhada e anima a vocação de cada jesuíta.”
Da família de origem à família de Jesus
Ao entrar na Companhia de Jesus, cada jovem deixa sua terra, sua casa e a convivência cotidiana com familiares e amigos para iniciar uma nova etapa de vida. Esse desprendimento não significa apagar a própria história, mas ampliar os vínculos e descobrir uma nova forma de pertença.
Conforme explicou o Pe. Laércio, a convivência entre mais de 100 jesuítas em formação permite que eles se reconheçam como companheiros de uma mesma missão. As diferenças de origem, cultura, personalidade e experiência não desaparecem. Ao contrário, tornam-se dons colocados a serviço de um único corpo.
“Cada um sai da sua terra, deixa pai e mãe, deixa a família e entra na Companhia de Jesus para ser parte dessa família de Jesus.”
Durante o encontro, os participantes puderam fortalecer os vínculos de amizade, confiança e fraternidade. Para o delegado para a Formação, o testemunho de um jesuíta também pode sustentar o discernimento do outro, especialmente diante das dúvidas, exigências e desafios próprios do percurso vocacional.
“Todos nós buscamos seguir a Jesus, cada um do seu jeito, com seus dons, mas temos algo em comum: todos participamos do mesmo corpo apostólico, da mesma Companhia, um só coração e uma só alma.”

Diferentes gerações, uma mesma missão
A intergeracionalidade esteve no centro das reflexões. O termo diz respeito à convivência, à escuta e à colaboração entre pessoas de diferentes idades e gerações. Na Companhia de Jesus, essa realidade se manifesta no encontro entre jovens em formação, jesuítas que já acumulam décadas de missão e companheiros que ajudaram a construir obras, comunidades e projetos ao longo da história.
Mais do que reconhecer a existência de diferentes gerações, o encontro convidou os participantes a perceber que elas precisam umas das outras. A experiência dos mais velhos guarda memórias, aprendizados e caminhos já percorridos. Os mais jovens, por sua vez, trazem novas perguntas, linguagens, sensibilidades e formas de responder aos desafios contemporâneos.
“São várias gerações que se encontram. Uma necessita da outra para que possamos, juntos, conhecer a vontade de Deus”, afirmou o Pe. Laércio.
Essa relação exige disposição para escutar, acolher e discernir. O futuro não começa do zero. Ele é construído sobre uma história recebida como herança, marcada pelo testemunho de incontáveis jesuítas que consagraram a vida ao anúncio do Evangelho, à educação, à justiça socioambiental, à espiritualidade, à ciência, à cultura e ao serviço das pessoas mais vulneráveis.
“Nós não estamos construindo a Companhia de agora, mas levando adiante um processo e um projeto que têm centenas de anos”, observou o sacerdote. Por isso, olhar para o futuro também significa reconhecer os caminhos, as marcas e os aprendizados deixados pelas gerações anteriores.
Um horizonte que permanece aberto
A imagem do horizonte ajudou a sintetizar a experiência do encontro. O horizonte pode ser contemplado e buscado, mas nunca é completamente alcançado ou dominado. À medida que se caminha, ele continua à frente, abrindo novas possibilidades e convidando a seguir.
Para os jovens jesuítas, construir horizontes significa permanecer disponíveis à vontade de Deus, atentos às necessidades da Igreja e sensíveis aos clamores do mundo. Significa também compreender que a missão não pertence a uma pessoa ou geração, mas é recebida, partilhada e transmitida.
Ao final da entrevista, o Pe. Laércio dirigiu uma mensagem aos jesuítas em formação e a todos os jovens que procuram descobrir o sentido de sua vocação:
“Não nos deixemos apequenar. Não tenhamos medo do horizonte que temos, não tenhamos medo do que Deus espera de nós e do que a Igreja espera da Companhia.”
O sacerdote recordou ainda que o horizonte não pode ser retido, pois está sempre chamando para além das certezas e dos projetos individuais. É justamente esse movimento que impulsiona a Companhia de Jesus a continuar discernindo sua presença e sua missão no mundo.
“Somos um corpo que constrói horizontes, e o horizonte a gente não detém. Ele está sempre nos impulsionando, nos chamando lá para a frente.”
O encontro deixa, assim, uma certeza renovada: ninguém responde sozinho ao chamado de Deus. Entre diferentes histórias, idades, dons e experiências, a vocação amadurece quando encontra companhia, amizade e uma missão pela qual vale a pena entregar a vida.