Do programa católico lançado em rede nacional à câmera 4K que hoje cabe no bolso, as telas mudaram profundamente. Para o Pe. Eduardo Dougherty, SJ, no entanto, a pergunta de fundo continua a mesma: como fazer a Boa Notícia chegar às pessoas?
Em conversa com a Rádio Amar e Servir, o jesuíta revisitou uma história de mais de quatro décadas dedicada à evangelização pelos meios de comunicação e fez um apelo direto às novas gerações: aprender as linguagens digitais, produzir conteúdo relevante e colocar as ferramentas disponíveis a serviço do Evangelho.
“Agora mudou o jogo. Agora é internet”, afirmou. A frase resume a percepção de quem acompanhou, por dentro, diferentes transformações da comunicação. Primeiro vieram as produções em vídeo e a televisão. Depois, a transmissão em rede. Hoje, a produção, a edição e a distribuição de uma mensagem podem acontecer a partir de um único aparelho.
Uma missão construída com ousadia
Norte-americano, o Pe. Eduardo chegou ao Brasil em 1966. Em 1981, fundou a Associação do Senhor Jesus, iniciativa que nasceu de forma simples, em uma pequena garagem em Campinas, no interior de São Paulo. O projeto começou com materiais de evangelização e, em 1983, deu um passo decisivo com o lançamento do programa Anunciamos Jesus, veiculado em rede nacional.
Em 1991, foi lançada a pedra fundamental do Centro de Produções Século 21, em Valinhos. A concessão da TV Século 21 veio em 1999 e, em 2013, a emissora passou a se apresentar como Rede Século 21. A trajetória transformou uma inspiração inicial em uma ampla obra de comunicação, educação e evangelização.
Na entrevista, o jesuíta contou que, logo após a ordenação, apresentou ao provincial o desejo de trabalhar com os meios de comunicação. Recebeu autorização, mas não uma estrutura pronta. Diante disso, buscou formação e aprendeu a mobilizar os recursos necessários para tornar a iniciativa possível. A lembrança revela uma marca de sua caminhada: a missão também exige criatividade, preparação e coragem para começar.
Mais de quatro décadas depois, o Pe. Eduardo olha para o celular e enxerga uma nova fronteira missionária.
“Com celular, hoje em dia, é possível fazer maravilhas”, disse. Mas, na sequência, fez a ressalva mais importante de sua fala: possuir equipamentos já não é o principal desafio. A questão decisiva é o que será comunicado por meio deles.
“Tem muitos instrumentos, mas e o conteúdo?”, provocou.
Habitar, não apenas publicar
A pergunta toca um dos dilemas centrais da evangelização contemporânea. Em um ambiente orientado pela velocidade, pelo alcance e pela disputa constante por atenção, a presença cristã não pode se limitar a publicar mais ou a repetir fórmulas antigas em telas novas.
A reflexão pastoral da Igreja sobre o chamado Continente Digital recorda que a internet deixou de ser apenas um instrumento. Ela se tornou também um espaço humano, marcado por relações, buscas, feridas e perguntas reais. Por isso, não basta usar as redes. É necessário compreendê-las e habitá-las com a linguagem própria desse ambiente.
Habitar o digital significa escutar antes de falar, favorecer o diálogo, construir vínculos e acompanhar pessoas. Significa também resistir à tentação de medir a fecundidade do Evangelho apenas por visualizações, curtidas e compartilhamentos. O alcance importa, mas a comunicação cristã precisa conduzir ao encontro.
Essa compreensão oferece uma resposta ao desafio da aceleração. Anunciar Jesus nas redes não é disputar com a pressa usando ainda mais pressa. É criar, dentro desse fluxo, oportunidades de verdade, interioridade, esperança e cuidado.
Comunicação como ministério de esperança
Esse horizonte também está presente na reflexão atual da Companhia de Jesus. Em maio de 2026, durante um encontro internacional de responsáveis pela comunicação jesuíta, o Superior Geral, Pe. Arturo Sosa, SJ, pediu competência e discernimento diante das novas tecnologias. Também destacou a necessidade de uma comunicação ética, capaz de enfrentar a mentira, dar espaço às vozes das periferias e exercer coragem profética.
Na mesma ocasião, o Pe. Geral recordou que a comunicação é um ministério de esperança e que seus conteúdos devem promover diálogo, interioridade e um encontro mais profundo com Jesus.
É nesse contexto que o apelo do Pe. Eduardo ganha força. Aprender a gravar, editar e distribuir conteúdos é necessário. Conhecer softwares, plataformas e formatos também. Mas a técnica não pode ocupar o lugar da mensagem, do discernimento e do testemunho.
Na espiritualidade inaciana, a expressão “para a maior glória de Deus”, repetida diversas vezes pelo jesuíta durante a entrevista, funciona como critério. Não se trata de produzir por produzir nem de transformar toda novidade em obrigação. Trata-se de discernir como cada recurso pode servir melhor às pessoas, à verdade e à missão.
Quarenta e três anos depois do lançamento de Anunciamos Jesus, o chamado feito pelo Pe. Eduardo não tem nada de nostálgico. Quem antes precisava de um grande estúdio hoje carrega uma câmera, uma ilha de edição e um canal de distribuição no bolso. A facilidade de acesso, porém, amplia a responsabilidade de quem comunica.
Um celular pode se transformar em uma pequena estação de televisão. Mas é o propósito que transforma conexão em comunhão.
“Vamos espalhar boas notícias para muitas pessoas, para muitíssimas pessoas, através dos instrumentos que estão nas mãos de vocês”, concluiu.