Antes de chegarem à capa de um livro, três palavras já acompanhavam Pe. Laércio Lima, SJ, na abertura dos retiros que orientava: desacelerar, leveza e atenção. Repetidas como disposições fundamentais para a experiência dos Exercícios Espirituais, elas despertavam entre os participantes uma pergunta recorrente: havia algum material escrito que ajudasse a compreender e a viver esse caminho?
A resposta, durante muito tempo, foi não. Até que as perguntas permaneceram, encontraram espaço na reflexão e começaram a ganhar forma no papel. Assim nasceu Desacelerar, Leveza, Atenção: caminho para encontrar o silêncio e habitar a própria casa, obra recém-publicada pelas Edições Loyola.
Em entrevista à Rádio Amar e Servir, Pe. Laércio explicou que o livro foi escrito para pessoas que desejam recuperar a profundidade da vida espiritual em meio a uma rotina marcada pela velocidade, pelas cobranças e pela dispersão.
“A ideia é ajudar as pessoas a construírem o caminho espiritual”, afirmou. Para o autor, desacelerar não significa abandonar as responsabilidades ou fugir da realidade, mas aprender a reconhecer aquilo que merece verdadeiramente a nossa atenção. Nesse percurso, a leveza não é superficialidade e o silêncio não representa ausência. Ambos se tornam espaços interiores nos quais a pessoa pode escutar a própria vida e perceber novamente a presença de Deus.
O livro não foi concebido como um manual para acompanhar os dias de um retiro. A proposta é mais ampla: permitir que a experiência da leitura transforme o modo cotidiano de viver.
“A ideia é que o livro leve a pessoa a entrar num caminho de vida como se estivesse em um retiro. Não é material para um retiro”, esclareceu o jesuíta.
Ao recordar a dinâmica dos Exercícios Espirituais de Santo Inácio de Loyola, Pe. Laércio destaca a importância da mudança de ritmo, do silêncio e da atenção aos movimentos interiores. Durante um retiro, até mesmo a maneira de caminhar, olhar e perceber o que está ao redor ganha outro sentido. O livro procura levar parte dessa experiência para dentro da vida comum, ajudando o leitor a criar espaços de silêncio mesmo em meio às exigências de cada dia.
Uma espiritualidade atravessada pela vida
A obra também carrega uma dimensão profundamente pessoal. Pe. Laércio compartilha experiências de sua caminhada espiritual, as inquietações, as crises e os processos pelos quais aprendeu a reconhecer a ação de Deus em sua história.
“Eu precisava recuperar em mim esse caminho do silêncio, da experiência profunda de Deus e da intimidade”, contou.
Esse testemunho aproxima a reflexão da vida real. O autor não escreve a partir de um lugar distante ou de respostas prontas, mas de um caminho que também precisou ser refeito. Em suas páginas, o leitor é convidado a olhar para a própria trajetória e a perceber que a vida espiritual não acontece fora das fragilidades humanas. Ela amadurece justamente quando a pessoa encontra coragem para escutar o que se passa dentro de si.
Parte desse itinerário passa pelo que Pe. Laércio chama de conversão dos sentidos: aprender a olhar de outra forma, ouvir com mais profundidade, tocar com mais cuidado e reconhecer a presença de Deus nas pessoas, na criação e nos acontecimentos cotidianos.
Essa proposta contrasta com uma sociedade que frequentemente mede a vida pela produtividade, pela pressa e pelos resultados. Enquanto o mundo pergunta quanto uma pessoa produziu ou conquistou, o livro devolve questões mais fundamentais: Quem eu sou? Quem é Deus? O que estou fazendo com a minha vida? Como está a minha relação com Ele, com as pessoas e com toda a criação?
Desacelerar, portanto, não é apenas diminuir a velocidade. É recuperar a capacidade de discernir. A atenção deixa de ser conduzida por estímulos, cobranças e distrações para voltar-se ao que é essencial. Para Pe. Laércio, o centro dessa atenção é Cristo.
O autor também chama a atenção para o risco de uma espiritualidade transformada em produto, construída apenas por práticas externas ou experiências que podem ser consumidas. A experiência de Deus, segundo ele, exige um itinerário interior, silencioso e paciente. Não se compra intimidade com Deus. É preciso cultivá-la.
Habitar a própria casa e continuar peregrino
Voltar à própria casa, como propõe o subtítulo da obra, não significa fechar-se em si mesmo ou permanecer imóvel. Para explicar esse movimento, Pe. Laércio recorda uma imagem de Dom Hélder Câmara: o coração humano é barco, é peregrino, chamado a deixar margens conhecidas e avançar para águas mais profundas.
A interioridade torna-se, assim, o lugar do reencontro e também da partida. É no silêncio que a pessoa reconhece quem é, reorganiza os próprios afetos e reencontra razões para seguir. Quando os horizontes parecem fechados e a vida perde a direção, voltar ao essencial pode abrir novamente o caminho.
“Desacelerem. Coloquem o olhar naquilo que é essencial”, convidou Pe. Laércio. Para ele, embora esse percurso seja exigente, tornou-se ainda mais necessário em um tempo marcado pela pressa, pelo excesso de ruído e pela dificuldade de permanecer inteiro diante de Deus.
Mais do que ensinar uma técnica, Desacelerar, Leveza, Atenção oferece um convite: parar, escutar e reaprender a habitar a própria vida. Um caminho no qual o silêncio não afasta do mundo, mas devolve à pessoa a capacidade de nele permanecer com mais consciência, liberdade e profundidade.
SERVIÇO
Livro: Desacelerar, Leveza, Atenção: caminho para encontrar o silêncio e habitar a própria casa
Autor: José Laércio de Lima, SJ
Editora: Edições Loyola
Páginas: 140
Onde encontrar: no site oficial das Edições Loyola, em obras e centros de espiritualidade da Companhia de Jesus que disponham de exemplares ou diretamente com o autor pelo e-mail limalimasj@gmail.com.