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Quando a eleição terminar, o que terá ficado de nós?
Comecei a escrever esta reflexão na quinta-feira, inquieto com os discursos e as divisões do país. À luz dos ensinamentos da Igreja e da espiritualidade inaciana, procuro pensar um voto que reconheça nossa história, escute as juventudes e assuma responsabilidade pelas vidas que serão alcançadas por ele
Por Murilo Galhardo
Publicado em 25/10/2026 10:45 • Atualizado 25/10/2026 11:44
Sociedade e mundo

Comecei a escrever este artigo na quinta-feira, com o desejo de refletir sobre o voto consciente e sobre o país que estamos ajudando a construir com nossas escolhas. Enquanto acompanhava os discursos da campanha e pensava nas divisões que atravessam nossas relações, uma pergunta começou a me inquietar: quando a eleição terminar, como voltaremos a olhar uns para os outros? Pensei nas famílias, nas amizades e nas comunidades em que a diferença política tem se tornado motivo de afastamento. Foi com essa preocupação que voltei aos ensinamentos da Igreja e à história das nossas lutas, buscando compreender como exercer uma escolha firme e responsável sem perder a capacidade de reconhecer a dignidade de quem caminha ao nosso lado.

Ao longo desses dias, uma pergunta foi ganhando espaço: quando a eleição terminar, o que terá ficado de nós? Penso nos vínculos que teremos preservado, nas feridas que teremos aberto e nas atitudes que passamos a considerar aceitáveis para defender uma posição. Existem diferenças políticas profundas, com consequências reais, e elas precisam ser enfrentadas com clareza. Mas me preocupa a facilidade com que uma discordância se transforma em desprezo, como uma pessoa inteira pode desaparecer atrás de um rótulo e como vamos nos acostumando a justificar a agressividade quando ela parece favorecer aquilo em que acreditamos.

Escrevo também para examinar minhas próprias certezas. Tenho convicções e não considero equivalentes todos os projetos, discursos e modos de exercer o poder. Justamente por isso, preciso perguntar que critérios sustentam minhas escolhas e até onde estou disposto a aplicá-los, inclusive quando exigem reconhecer os erros daqueles que apoio. A consciência não pode ser exigente apenas com os adversários. Ela precisa conservar a liberdade de questionar nossas preferências, conferir aquilo que compartilhamos e reconhecer as consequências de uma decisão sobre quem terá menos condições de se proteger delas.

Foi nesse exercício que li a mensagem do Conselho Permanente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil para o segundo turno. Datado de 21 de outubro, o documento relaciona a responsabilidade eleitoral às condições de vida da população, à defesa da Constituição e do Estado Democrático de Direito e ao respeito pelos resultados legítimos das urnas. Também convida à avaliação das trajetórias, das práticas e dos compromissos dos candidatos. Esses critérios ajudam a devolver profundidade a uma escolha frequentemente cercada de pressa, medo e ruído.

Ao lê-los, pensei nas pessoas que precisam permanecer no centro da nossa reflexão. A mãe que aguarda atendimento para um filho, o trabalhador que faz contas antes de chegar ao fim do mês, o jovem que deseja estudar e não sabe como permanecer na escola, a pessoa idosa que depende de cuidado, a comunidade ameaçada de perder seu território. Cada uma dessas vidas nos lembra que a política tem consequências que continuam depois do discurso. É diante delas que nossas convicções precisam demonstrar o que significam.

A fé que me pede atenção à vida

Como cristão, encontro na encarnação uma referência decisiva para olhar essa realidade. A afirmação de que Deus se fez carne, no Evangelho de João, significa que a existência humana, com seu corpo, sua fragilidade e sua história, foi assumida por Deus em Jesus Cristo (Jo 1,14). Essa verdade impede que a vida concreta seja tratada como um assunto secundário da espiritualidade. A fome, a doença, a violência e o abandono atingem pessoas cuja dignidade não depende de renda, produtividade, origem ou pertencimento político. Reconhecer essa dignidade precisa transformar a maneira como organizamos nossas relações e participamos da sociedade.

Não procuro no Evangelho um programa de governo pronto. A fé também me ensina a desconfiar da tentativa de identificar plenamente uma liderança ou um projeto político com a vontade de Deus. Nenhuma candidatura representa a totalidade do Reino, nenhuma vitória torna um governante infalível e nenhum grupo pode exigir uma lealdade acima da consciência. O compromisso cristão com a história pede participação, mas também liberdade diante do poder: a capacidade de apoiar o que promove a vida, denunciar o que a ameaça e corrigir o próprio caminho quando necessário.

A parábola do bom samaritano me ajuda a compreender essa responsabilidade. Diante de uma pessoa ferida, alguém interrompe o próprio percurso, aproxima-se, cuida e assume parte das condições necessárias à sua recuperação (Lc 10,25-37). Quando penso nessa passagem à luz do Brasil, pergunto quem tem permanecido à margem dos nossos projetos. Pergunto também pelas condições que fazem com que tantas pessoas sejam abandonadas repetidamente. A compaixão pode começar no encontro com uma vítima e amadurecer na responsabilidade de transformar as circunstâncias que continuam produzindo vítimas.

Bento XVI aprofunda essa relação na Caritas in veritate. Nos números 6 e 7, vincula o amor à justiça e apresenta o compromisso com o bem comum como uma via institucional e política da caridade. Essa compreensão me ajuda a perceber a dimensão humana de decisões que, à primeira vista, parecem apenas administrativas. Uma escola bem organizada, um atendimento acessível e uma política de proteção social executada com responsabilidade podem aliviar sofrimentos que nenhuma família consegue enfrentar sozinha. Por isso, o cuidado público precisa reunir sensibilidade, competência, planejamento e transparência. Quem depende dele merece mais do que uma promessa bem-intencionada.

A história que entra conosco na urna

Neste dia de eleição, penso também nas lutas que tornaram possível exercer esse direito. Nenhum de nós começou o Brasil. Recebemos um país construído por gerações, marcado por realizações, violências, resistências e conquistas. A participação política precisou superar exclusões que, durante muito tempo, foram consideradas normais. O Código Eleitoral de 1932 reconheceu em âmbito nacional o direito das mulheres de votar e de serem votadas. Pessoas analfabetas recuperaram o acesso ao voto em 1985, depois de décadas de impedimento. A cidadania que hoje exercemos deve muito a quem se recusou a aceitar que apenas alguns pudessem decidir por todos.

Em 1989, o Brasil voltou a escolher diretamente seu presidente depois de 29 anos. A retomada ocorreu após a ditadura e a promulgação da Constituição de 1988. Recordar esse caminho me impede de tratar a democracia como um cenário permanente, que existiria independentemente de nossas atitudes. Ela precisa de instituições, mas também de compromissos cotidianos: aceitar a fiscalização, proteger o direito de oposição, enfrentar conflitos pelos caminhos legítimos e reconhecer que uma derrota eleitoral não retira de ninguém sua condição de cidadão.

Na promulgação da Constituição, Ulysses Guimarães afirmou que “a persistência da Constituição é a sobrevivência da democracia”. Entendo essa frase como uma responsabilidade entregue também à nossa geração. Os limites ao exercício do poder protegem a possibilidade de questionar uma autoridade sem perder direitos. São João Paulo II, na Centesimus annus, valorizou a participação dos cidadãos, o controle dos governantes e a possibilidade de substituí-los pacificamente, relacionando a democracia ao Estado de direito e à dignidade humana. A liberdade que defendemos precisa continuar valendo quando quem governa pensa de outra maneira.

Nossa memória, porém, também exige reconhecer o que permaneceu incompleto. A abolição da escravidão, em 1888, encerrou formalmente o cativeiro sem eliminar a exclusão social e econômica da população negra. Essa distância entre possuir um direito e ter condições para exercê-lo continua interrogando o país. O esforço individual importa, mas não elimina as diferenças de acesso à escola, à saúde, à moradia, ao trabalho e à proteção. Uma sociedade que deseja reconhecer o mérito precisa se preocupar com as oportunidades que oferece e com os obstáculos que impõe.

É por isso que a redução das desigualdades não pode ser tratada como um assunto secundário. A Constituição de 1988 estabelece o enfrentamento da pobreza e da marginalização e a redução das desigualdades sociais e regionais entre os objetivos da República. Esses compromissos permitem avaliar governos para além da popularidade de seus dirigentes: importa saber se ampliam as possibilidades de participação e se tornam os direitos mais acessíveis a quem historicamente encontrou portas fechadas.

O discernimento começa também dentro de nós

A espiritualidade inaciana oferece uma contribuição importante para pensar a escolha. Nas Preferências Apostólicas Universais da Companhia de Jesus, o discernimento se articula à caminhada com os excluídos, ao acompanhamento das juventudes e ao cuidado da Casa Comum. Essa ligação impede que a vida interior se feche em si mesma. A oração pode nos ajudar a reconhecer o que nos move, mas precisa permanecer aberta à realidade, especialmente àquela parte da realidade que nossos interesses e hábitos tornam difícil perceber.

Aplicar esse olhar ao voto exige examinar propostas e trajetórias e, ao mesmo tempo, reconhecer as forças que influenciam nosso julgamento. O medo de perder, a necessidade de pertencer a um grupo e a resistência em admitir um erro podem restringir nossa liberdade. Às vezes, defendemos uma posição porque reconsiderá-la nos obrigaria a enfrentar conversas desconfortáveis ou a reconhecer que fomos enganados. O discernimento pede coragem para atravessar esse desconforto, sem transformar a fidelidade a uma preferência em obrigação de ignorar os fatos.

Nos Exercícios Espirituais, Santo Inácio afirma que “o amor deve consistir mais em obras do que em palavras” (EE 230). Essa referência convida a observar como alguém exerceu responsabilidades, tratou pessoas vulneráveis e reagiu quando precisou prestar contas. Também devolve uma pergunta a nós mesmos: aquilo que defendemos encontra correspondência nas nossas atitudes? Não basta cobrar respeito enquanto compartilhamos humilhações, exigir verdade enquanto toleramos mentiras convenientes ou falar de cuidado sem considerar quem será prejudicado pela decisão que apoiamos.

Essa honestidade alcança nossa relação com a informação. Na catequese de 16 de setembro de 2026, Leão XIV alertou para o risco de delegarmos aos algoritmos decisões próprias da consciência humana e propôs avaliar os projetos sociais e políticos pela dignidade da pessoa, pela justiça social e pela participação no bem comum. Em um ambiente de mensagens sucessivas, discernir exige interromper o impulso de reagir, procurar fontes, considerar contextos e aceitar correções. A verdade não pode depender de quem será beneficiado por ela.

As juventudes precisam participar do presente

Há uma dimensão dessa responsabilidade que considero indispensável: o lugar das juventudes no país que estamos escolhendo. Falar dos jovens apenas como promessa do futuro pode ser uma maneira de adiar o reconhecimento de seus direitos no presente. Eles já estudam, trabalham, cuidam de familiares, participam de comunidades e enfrentam decisões que marcarão suas trajetórias. Também precisam de condições para experimentar caminhos, errar, recomeçar e construir autonomia sem que uma dificuldade inicial determine toda a vida.

Prefiro falar em juventudes porque as experiências são diferentes. A vida de um jovem indígena, de uma jovem negra da periferia, de quem vive no campo ou de quem encontra oportunidades em uma região central não pode ser compreendida a partir de uma única expectativa. Reconhecer essa diversidade pede escuta e políticas capazes de considerar realidades distintas. A discussão sobre educação precisa incluir permanência, transporte e condições de aprendizagem. A discussão sobre trabalho precisa considerar remuneração, proteção e perspectivas. O cuidado com a saúde precisa acolher também o sofrimento emocional, sem reduzir toda angústia a uma incapacidade individual de lidar com a vida.

Acompanhar as juventudes, como propõe a Companhia de Jesus, exige disposição para caminhar com elas na construção do futuro. Minha leitura dessa preferência é que acompanhar envolve criar espaço para que os jovens formulem perguntas, participem das decisões e sejam reconhecidos como sujeitos. Uma comunidade que apenas transmite respostas, mas não admite ser interrogada, pode perder a oportunidade de compreender aquilo que precisa mudar. O mesmo vale para a política: os jovens merecem ser ouvidos para além do período em que seus votos são disputados.

Quero pensar o voto também a partir das condições que estamos oferecendo a essa geração. Que experiência de democracia ela encontrará? Uma convivência em que a divergência pode ser expressa com liberdade ou um ambiente em que participar significa ser atacado? Que relação com o trabalho, com o território e com o futuro estamos tornando possível? Essas perguntas exigem mais do que mensagens de incentivo. Pedem escolhas públicas que ampliem oportunidades e reconheçam que a esperança precisa de condições concretas para crescer.

Uma Igreja que aprende a caminhar com o povo

A tradição social da Igreja ajuda a sustentar esse horizonte. Na Populorum progressio, São Paulo VI apresentou o desenvolvimento integral como aquele capaz de “promover todos os homens e o homem todo” (n. 14). Esse critério pede que a produção de riqueza seja avaliada também por sua capacidade de ampliar educação, saúde, cultura, liberdade e participação. O crescimento econômico importa, mas a pergunta cristã pelo desenvolvimento exige observar quem é beneficiado, quem suporta os custos e quem continua esperando sua vez.

Na Evangelii gaudium, Francisco situa a opção pelos pobres na própria compreensão da fé e convida a uma proximidade capaz de reconhecer seu valor e aprender com eles. Essa aproximação corrige uma tentação frequente: falar sobre as pessoas sem permitir que participem da conversa. Quem enfrenta pobreza possui conhecimentos, vínculos e projetos. Uma política comprometida com a dignidade deve fortalecer sua autonomia, respeitar sua organização e ouvi-la na construção das respostas que dizem respeito à sua vida.

A reflexão de Pedro Arrupe, no discurso de 1973 conhecido como Men for Others, também relaciona o amor à justiça e ao respeito pela dignidade de cada pessoa. Esse vínculo exige coerência entre a ajuda que oferecemos e as relações que sustentamos. A solidariedade pode se tornar mais profunda quando nos leva a examinar práticas econômicas, sociais e políticas que prolongam a vulnerabilidade de quem desejamos ajudar. Isso pode custar privilégios, exigir mudanças e produzir conflitos. O compromisso com a justiça precisa estar disposto a enfrentar essas consequências.

Neste segundo turno, a Rede Jesuíta de Justiça Socioambiental publicou a nota Um voto pela democracia, construída a partir das realidades das comunidades que acompanha. O documento convida ao voto responsável, à informação confiável e à consideração do bem comum, assumindo a continuidade da presença junto às comunidades depois do resultado. Essa permanência me parece uma expressão importante de compromisso: a vida das pessoas não começa nem termina no calendário eleitoral. O cuidado precisa continuar quando o interesse público se desloca e os problemas deixam de ocupar as manchetes.

A memória que não nos deixa aceitar a violência

Neste outubro, a lembrança dos cinquenta anos da morte de João Bosco Burnier dá uma profundidade especial a essa reflexão. Em 1976, o padre jesuíta e Dom Pedro Casaldáliga foram a uma delegacia no atual município de Ribeirão Cascalheira, em Mato Grosso, para interceder por mulheres camponesas submetidas à tortura. Burnier foi agredido e baleado, morrendo em 12 de outubro. Ao recordar esse episódio, penso na responsabilidade de interromper a posição de observador quando a dignidade de alguém está sendo violada.

A memória de Burnier precisa conservar também o rosto daquelas mulheres, porque foi a vida delas que tornou urgente a intervenção. Anos depois, em 1987, o irmão jesuíta Vicente Cañas foi assassinado no contexto da defesa do território do povo Enawenê-Nawê, com quem viveu e trabalhou. Essas histórias mostram o alcance concreto da expressão “direitos humanos”: a possibilidade de existir sem tortura, preservar uma comunidade, proteger vínculos e continuar uma história. Elas nos fazem desejar instituições capazes de assegurar esses direitos sem exigir que alguém arrisque a própria vida para defendê-los.

Recordar essas trajetórias também impede que a reconciliação seja confundida com esquecimento. A convivência precisa de verdade, reconhecimento de danos e responsabilidade. Não se pode pedir a quem sofreu violência que silencie para tornar o ambiente mais confortável. Ao mesmo tempo, enfrentar a injustiça não nos autoriza a retirar de outra pessoa sua humanidade. A fé nos coloca diante dessa exigência difícil: sustentar a firmeza na defesa dos direitos sem transformar o desprezo em método.

O futuro também participa da nossa escolha

Nossa responsabilidade alcança ainda quem não pode votar. As crianças e as gerações futuras viverão sob as consequências de decisões tomadas agora sobre educação, água, energia, moradia, trabalho e proteção ambiental. Na Laudato si’, Francisco relaciona a questão ecológica à justiça social e pede que sejam ouvidos “tanto o clamor da terra como o clamor dos pobres” (n. 49). Esse olhar exige considerar conjuntamente a produção, os territórios e as condições de vida das comunidades.

O Brasil precisa ser conhecido em sua diversidade para que esse cuidado seja possível. O Censo 2022 identificou 391 etnias, povos ou grupos indígenas e 295 línguas indígenas no país. Esses dados revelam existências que não podem ser reduzidas à nossa experiência particular. Uma decisão sobre um território pode atingir também uma língua, uma memória e formas de conhecimento. Uma reflexão responsável sobre desenvolvimento precisa escutar essas pessoas e reconhecer que há consequências que não podem ser avaliadas apenas pelo retorno imediato de um empreendimento.

Pensar nas próximas gerações exige aceitar limites à nossa conveniência. O futuro não está disponível apenas para satisfazer os interesses de quem exerce poder hoje. A esperança se torna mais consistente quando orienta investimentos, previne danos e preserva possibilidades. Ao votar, também participamos da definição das condições em que outras pessoas tentarão construir suas vidas.

A esperança que permanece depois das urnas

No centro da fé cristã está a ressurreição de Jesus. Para mim, a esperança pascal conserva a memória da cruz e anuncia que a violência não possui a palavra definitiva sobre a vida. Essa fé não autoriza a esperar passivamente que a justiça aconteça. Ela me oferece razões para resistir à indiferença e ao cinismo, para não aceitar como inevitáveis o abandono, a crueldade e a impossibilidade de mudança. A esperança precisa encontrar trabalho, organização, vigilância e disposição para reconstruir o que foi ferido.

Quando Francisco apresenta a política, na Fratelli tutti, como uma das formas mais preciosas de caridade por sua orientação ao bem comum, ele aponta para uma responsabilidade que ultrapassa a campanha. Apoiar uma candidatura não pode significar suspender o julgamento sobre suas ações. A participação amadurece quando conservamos a capacidade de cobrar resultados, denunciar irregularidades e reconhecer erros. Nenhuma vitória dispensa transparência; nenhuma identificação política transforma uma injustiça em algo aceitável.

A mensagem da CNBB recorda que os cidadãos continuam responsáveis por participar, fiscalizar e reivindicar depois de concederem um mandato. Quem vencer deverá governar para todos, e quem perder conservará seus direitos. Nenhuma região merece ser humilhada por sua escolha, nenhuma comunidade pode ser abandonada por votar de outra maneira e ninguém deve precisar demonstrar afinidade política para receber atendimento ou proteção. A responsabilidade pelo país precisa permanecer maior do que a satisfação com o resultado.

Desde quinta-feira, foi essa compreensão que procurei amadurecer ao escrever. O voto consciente reúne informação, memória, exame interior e atenção às consequências. Ele pede que reconheçamos as lutas que ampliaram nossos direitos, escutemos as juventudes e consideremos a vida de quem possui menos poder para defender seus interesses. Pede também que a fé nos mantenha livres para perguntar, corrigir e participar, sem entregar a nenhuma liderança a responsabilidade que pertence à nossa consciência.

Quando sairmos da seção eleitoral, haverá uma vida comum à nossa espera. Famílias continuarão fazendo contas, jovens buscarão caminhos, pessoas doentes aguardarão atendimento e comunidades seguirão tentando ser ouvidas. É diante dessas vidas que nossas palavras encontrarão sua medida. Minha esperança é que sejamos capazes de atravessar este dia com a seriedade que a escolha exige e continuar a tarefa com coragem, liberdade e perseverança.

Quando a eleição terminar, desejo que tenha permanecido em nós a disposição de cuidar. Que nossas convicções tenham nos tornado mais responsáveis, que a memória nos ajude a proteger o que custou tanto conquistar e que a esperança encontre espaço nas condições de vida que ajudarmos a construir. O Brasil que estamos nos tornando dependerá também de como voltaremos a nos encontrar e do que estaremos dispostos a fazer, juntos, depois de votar.

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