Desigualdade segue extrema na América Latina, apesar da queda histórica da pobreza, aponta Cepa
Relatório da Cepal revela que os 10% mais ricos concentram mais de um terço da renda regional, enquanto os avanços na redução da pobreza permanecem frágeis diante da informalidade e das desigualdades estruturais
Por Redação Rádio Amar e Servir
Publicado em 05/01/2026 13:49
Sociedade e mundo
Foto: Canva Pró

A concentração de renda na América Latina e no Caribe continua em níveis alarmantes. Segundo o relatório “Panorama social da América Latina e do Caribe 2025”, elaborado pela Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal), os 10% mais ricos concentram 34,2% da renda total, enquanto os 10% mais pobres recebem apenas 1,7%.

A publicação, apresentada oficialmente pela agência regional das Nações Unidas, descreve a desigualdade como uma verdadeira “armadilha estrutural”, que combina alta concentração de renda, baixa mobilidade social e fraca coesão social — fatores que limitam as oportunidades de vida de milhões de pessoas.

Durante a apresentação do relatório, o secretário-executivo da Cepal, José Manuel Salazar-Xirinachs, destacou que é possível romper esse ciclo por meio de uma estratégia baseada em cinco eixos principais:
redução das desigualdades educacionais; criação de empregos de qualidade; promoção da igualdade de gênero e do cuidado; combate à discriminação e às violações de direitos humanos que afetam pessoas com deficiência, povos indígenas e migrantes; e fortalecimento do marco institucional e das políticas sociais.

Queda da pobreza monetária, mas cenário ainda frágil

O relatório apresenta um dado positivo: a pobreza monetária na região caiu em 2024 para 25,5% da população, o equivalente a cerca de 162 milhões de pessoas. Trata-se de uma redução de 2,2 pontos percentuais em relação a 2023 e de 7 pontos em comparação com 2020, alcançando o menor nível desde o início das medições comparáveis.

Também houve uma leve redução da pobreza extrema, que caiu para 9,8% — cerca de 62 milhões de pessoas —, embora esse percentual ainda seja superior ao registrado em 2014. A Cepal projeta nova redução desses índices em 2025, mas alerta que os avanços permanecem vulneráveis diante das desigualdades estruturais.

Informalidade e desigualdades educacionais

Entre os principais entraves ao desenvolvimento social sustentável estão o trabalho informal e as disparidades no acesso à educação. Atualmente, 47% dos trabalhadores latino-americanos estão em situação de informalidade. Segundo o estudo, a formalização do emprego poderia reduzir quase pela metade a taxa de pobreza entre os próprios trabalhadores.

Pessoas com deficiência, povos indígenas e migrantes enfrentam os maiores obstáculos para ingressar no mercado de trabalho. Menos de 40% das pessoas com deficiência entre 15 e 59 anos participam da força de trabalho, frente a 75% das pessoas sem deficiência na mesma faixa etária.

As desigualdades também se refletem no campo educacional. Dados de 2023 indicam que 28% dos jovens entre 20 e 24 anos não concluíram o ensino médio, com uma diferença de quase 50% entre jovens de maior e menor renda, evidenciando a reprodução intergeracional da desigualdade.

Gastos sociais ainda insuficientes

Em relação às políticas públicas, o relatório aponta que os gastos sociais do governo central corresponderam, em média, a 11,6% do PIB da região em 2024. O gasto social público per capita alcançou US$ 1.326, um aumento de 2,9% em relação a 2023 e acima dos níveis pré-pandemia. No entanto, persistem fortes desigualdades territoriaisentre países e sub-regiões.

Uma região de contrastes

O panorama apresentado pela Cepal revela uma América Latina marcada por avanços significativos na redução da pobreza, mas ainda profundamente ferida por desigualdades persistentes. Sem reformas estruturais capazes de atuar simultaneamente na educação, no trabalho, na inclusão social e na garantia de direitos, a redução da pobreza corre o risco de se manter instável e limitada.

Como conclui o relatório, enfrentar a desigualdade não é apenas uma questão econômica, mas um imperativo ético e social que define o futuro da coesão e da democracia na região.

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