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Diretrizes da evangelização são aprovadas com ampla maioria e apontam para unidade, escuta e renovação missionária
Documento aprovado pela CNBB reúne contribuições de todo o episcopado, reforça a sinodalidade e propõe uma Igreja mais unida, aberta ao novo e comprometida com a realidade do povo
Por Murilo Galhardo
Publicado em 23/04/2026 18:14 • Atualizado 23/04/2026 18:51
62ª AGCNBB
62ª Assembleia Geral dos Bispos do Brasil - 2026

A Igreja no Brasil viveu um momento histórico nesta quinta-feira, 23 de abril, com a aprovação das novas Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora durante a 62ª Assembleia Geral da CNBB. O texto, que orientará a missão evangelizadora pelos próximos seis anos, foi aprovado com ampla maioria: 283 votos favoráveis, apenas três contrários e duas abstenções, sinal evidente de comunhão entre os bispos.

Fruto de um longo caminho de escuta, discernimento e construção coletiva iniciado em 15 de abril, o documento recebeu 656 emendas, das quais cerca de 90% foram incorporadas. A aprovação foi precedida por um gesto marcante: os bispos se levantaram e aplaudiram de pé o trabalho da comissão responsável, evidenciando unidade e reconhecimento.

Unidade na diversidade e o papel das diretrizes

Em entrevista, o bispo de Santo André, Dom Pedro Carlos Cipolini, destacou o verdadeiro sentido das diretrizes para a vida da Igreja, ressaltando que não se tratam de imposições, mas de orientação espiritual e pastoral.

“As diretrizes, como todo documento da Igreja, podem ser acolhidas ou não. Elas não são obrigatórias no sentido de punir quem não aceita, mas são um grande instrumental que o Espírito Santo inspira para ajudar na unidade da evangelização.”

Dom Pedro reforçou que a missão evangelizadora não pode ser vivida de forma isolada ou individualista.

“Não basta só ter uma evangelização feita cada um por si. É preciso que haja unidade. Jesus disse: ‘Pai, que todos sejam um como nós somos um’. A evangelização é uma obra comunitária, é uma obra da Igreja, não é de uma pessoa, de uma liderança.”

Ele utilizou uma imagem forte para explicar o papel do documento na caminhada eclesial.

“As diretrizes são como corrimões que nos ajudam a caminhar. Elas não são para engessar a criatividade na pastoral, mas para orientar o caminho.”

Sinodalidade, escuta e abertura ao novo

Outro ponto central destacado por Dom Pedro é o chamado à sinodalidade, fortemente impulsionado pelo Papa Francisco, que se traduz em escuta, transparência e abertura constante à renovação.

“Precisa escuta, um escutar o outro, precisa transparência, precisa amor à verdade e também se ater à realidade.”

Ele chamou atenção para um desafio concreto na vida pastoral: a falta de revisão dos processos.

“Muitas vezes não há revisão dos processos. Nós fazemos planos e não há um momento de rever o que foi feito, reformular e avançar. A Igreja precisa planejar e rever, e ter a humildade de reconhecer que muita coisa não funcionou, outras poderiam ser melhor.”

Dom Pedro também alertou para a resistência às mudanças dentro da Igreja.

“Tem gente que não gosta de nada de novo, quer aquilo que sempre foi feito. O Papa Francisco já nos alertava contra a mania do ‘sempre foi assim’. Quando as pessoas dizem ‘sempre foi assim’, geralmente querem dizer ‘sempre foi assim do meu jeito’.”

Ele concluiu reforçando o espírito da sinodalidade como caminho para a Igreja hoje.

“A sinodalidade é justamente a abertura para o novo, para a escuta, para a acolhida, convivência de diferentes, para a transparência e a prestação de contas.”

Avanços concretos e novos horizontes

As novas diretrizes trazem elementos inéditos e significativos para a missão da Igreja no Brasil. Entre eles, destaca-se a criação do Ministério do Cuidado da Casa Comum, reforçando o compromisso com a ecologia integral, e o reconhecimento dos povos indígenas como protagonistas na evangelização.

Além disso, o documento incentiva práticas concretas, como parcerias com agricultores familiares, cooperativas e iniciativas agroecológicas, promovendo uma Igreja mais conectada com a vida, os territórios e a dignidade humana.

Um novo tempo para a missão

Para o presidente da CNBB, Dom Jaime Spengler, o processo de construção e aprovação das diretrizes tem profundo significado espiritual.

“Temos em mãos um verdadeiro Pentecostes. Isto é obra do Espírito de Deus.”

Com a publicação prevista pelas Edições CNBB nas próximas semanas, o desafio agora será transformar o texto em prática concreta. Mais do que um documento, as diretrizes representam um convite à conversão pastoral: caminhar juntos, escutar mais, rever caminhos e anunciar o Evangelho com criatividade, fidelidade e coragem.

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