Por Emiliana Pacheco e Yara Camile - Rádio Amar e Servir
Contemplar o rio, pisar na terra e escutar os sons do território. Na Ilha do Combu, no Pará, a conversa sobre fé e justiça climática começou com uma mística que convidou os participantes a sentir a presença de Nossa Senhora de Nazaré e partilhar como chegavam ao encontro e o que a fé representava em suas vidas.
Realizado em 7 de outubro de 2026, o “Intercâmbio cultural: conversa de fé e justiça climática” reuniu organizações eclesiais e da sociedade civil para refletir sobre espiritualidade e compromisso socioambiental. A Rádio Amar e Servir acompanhou a atividade na cobertura “Transmitindo a fé no Círio de Nazaré”.
Após a abertura e a apresentação dos participantes, a programação seguiu com a dinâmica do aquário, que possibilitou a participação de todos na discussão. A experiência pessoal de fé deu lugar à escuta coletiva sobre desigualdades, atuação nos territórios e responsabilidade com as próximas gerações.
Fé que se traduz em justiça
Para Vitor Oeiras, do Movimento Laudato Si’ e do Centro Alternativo de Cultura, em Belém, relacionar fé e justiça climática exige atenção às pessoas mais vulneráveis às consequências de enchentes, alagamentos e secas.
“São os que estão à margem, que precisam sentir de irmãos e irmãs na fé a prática da justiça. Nossa prática de justiça deve ser destinada a eles.”
Vitor defende que a proteção dessas pessoas faça parte da atuação das instituições religiosas.
“Uma religião, uma instituição, um espaço religioso que não esteja dialogando com a proteção e defesa desses irmãos e irmãs necessitados, excluídos de hoje pelo fator clima, acaba não cumprindo o seu papel de fundamento na fé.”
Essa aproximação também aparece na iniciativa Faith for Earth, do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente, o PNUMA. Em publicação de abril de 2025, o organismo reconhece o potencial das organizações baseadas na fé para mobilizar comunidades, ampliar as vozes das pessoas marginalizadas e contribuir para a ação ambiental com apoio do conhecimento científico.

Impactos desiguais, responsabilidades compartilhadas
Os dados ajudam a dimensionar o desafio. Segundo o relatório Estado do Clima, Extremos de Clima e Desastres no Brasil em 2025, elaborado pelo Cemaden, os eventos extremos registrados naquele ano afetaram diretamente 336.656 pessoas e geraram prejuízos econômicos de aproximadamente R$ 3,9 bilhões, conforme divulgação da Agência Brasil.
O balanço registrou 1.493 ocorrências associadas a eventos hidrológicos e geológicos, com predominância de inundações, enxurradas e deslizamentos. Também apontou sete ondas de calor e até 503 municípios em condição de seca severa ou extrema ao longo de 2025.
Mas a exposição aos riscos e as condições de recuperação não são iguais para todos. O IPCC, em seu relatório-síntese de 2023, destaca que comunidades vulneráveis que historicamente contribuíram menos para as mudanças climáticas são afetadas de maneira desproporcional.
Lucas Negrão, do Coletivo Pororoca, relaciona essa diferença à necessidade de respostas que considerem as desigualdades sociais.
“A crise climática não nos afeta da mesma forma. E, por isso, a gente tem desigualdades, a gente tem injustiças sociais e ambientais que não são sentidas da mesma forma por todas as pessoas.”
Para ele, reconhecer essa realidade deve orientar a ação.
“A gente precisa olhar para essas pessoas que estão mais vulneráveis nessa situação e é por isso que a gente luta por justiça climática.”
Escutar os territórios e apoiar suas iniciativas
A participação das comunidades foi um dos caminhos destacados nas entrevistas. Para Alexi, liderança quilombola e assessor de comunicação da Cáritas Brasileira, as respostas precisam reconhecer os conhecimentos de quem vive na Amazônia.
“Não existe justiça climática sem escutar os povos e comunidades tradicionais que vivem, que habitam, que estão, que são da Amazônia.”
Ao apresentar a atuação da Cáritas, ele destacou o apoio às iniciativas comunitárias, aos sistemas produtivos locais e à economia popular solidária.
“Falar sobre justiça climática é, de fato, apoiar essas iniciativas que as comunidades têm do bem viver, do bem comum, da solidariedade e, principalmente, da convivência dos seus sistemas produtivos, da economia popular solidária que transforma as vidas e que chega até as cidades.”
Alexi também defendeu o acompanhamento das comunidades na proteção de seus territórios e na denúncia dos impactos de grandes projetos. Sua contribuição dá concretude ao propósito do intercâmbio: aproximar organizações não apenas para compartilhar preocupações, mas para reconhecer experiências e possibilidades de colaboração.
Casa Comum e compromisso com o futuro
O tema dialoga com as Preferências Apostólicas Universais da Companhia de Jesus, que orientam sua missão entre 2019 e 2029: mostrar o caminho para Deus por meio dos Exercícios Espirituais e do discernimento; caminhar com pessoas empobrecidas e vulnerabilizadas; acompanhar os jovens na construção de um futuro cheio de esperança; e colaborar no cuidado da Casa Comum. A orientação ambiental reconhece especialmente a importância da Amazônia para o equilíbrio da vida.
Esses compromissos aproximam espiritualidade, justiça e responsabilidade com as novas gerações, preservando a diversidade de experiências das organizações presentes.
Para Catarina, da Amazônia de Pé, pensar no futuro exige garantir direitos e condições dignas no presente.
“Justiça para que todo mundo consiga ter acesso à natureza, à comida no prato, a tempo de qualidade com as suas famílias e também ter acesso a políticas públicas que se preparem para o enfrentamento dessa crise que a gente já vive.”
Sua reflexão também associa esse compromisso à memória de quem cuidou do território.
“O que a gente precisa fazer é cuidar hoje e garantir que a memória dos nossos ancestrais, que protegeram tanto essa terra e esse lugar que a gente vive, esteja viva.”
Cultura e convivência como parte da experiência
A relação entre fé e território esteve presente também na identidade visual do encontro. Luana Lisboa, da Casa Galileia, responsável pela direção de arte, buscou referências em sua experiência como moradora de Belém.
“Como moradora de Belém, na Amazônia, me inspiro muito na nossa natureza, no nosso clima, na nossa fé para produzir essa identidade visual desse encontro.”
Para ela, a criação visual é uma forma de comunicar os compromissos com a justiça climática e social.
“Nós podemos falar através do que a gente desenha, do que a gente ilustra. Essas são ferramentas para comunicar o que a gente acredita.”
A programação terminou com um banho de cheiro regional, seguido de almoço e convivência. O encerramento manteve a dimensão cultural e comunitária que marcou a atividade desde a mística inicial.
Entre a escuta, a troca de experiências e o encontro com o território, a reflexão sobre as próximas gerações permaneceu ligada às escolhas cotidianas. Na fala de Catarina, esse horizonte significa construir o presente e o futuro “sempre com o pé no chão, sempre tomando o banho de rio e sempre tomando um bom açaí”