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Jesuítas lançam chamado global por justiça climática e cobram compromissos concretos na COP31
Declaração atualizada pede transição energética justa, financiamento sem novas dívidas e transformação dos sistemas alimentares; pessoas e instituições são convidadas a aderir ao documento
Por Murilo Galhardo
Publicado em 10/08/2026 20:02 • Atualizado 10/08/2026 20:27
Justiça Socioambiental

Quem deve assumir os maiores custos da crise climática? Como abandonar os combustíveis fósseis sem deixar trabalhadores e comunidades para trás? E de que maneira os países mais vulneráveis podem enfrentar os eventos extremos sem ampliar ainda mais suas dívidas?

Essas perguntas estão no centro da nova declaração da Campanha Jesuítas pela Justiça Climática, iniciativa ligada à Companhia de Jesus que busca levar a defesa da Casa Comum para o coração das negociações internacionais.

Apresentado pelo Secretariado de Justiça Social e Ecologia da Companhia de Jesus, o documento reúne três apelos considerados urgentes para a 31ª Conferência das Partes das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas, a COP31.

O encontro será realizado entre os dias 9 e 20 de novembro de 2026, em Antalya, na Turquia. A conferência reunirá governos, negociadores, organizações internacionais e representantes da sociedade civil para avaliar os compromissos assumidos no Acordo de Paris e avançar na resposta global à emergência climática, conforme informa a página oficial da COP31.

A versão atualizada da Declaração e do Documento de Políticas considera os resultados da COP30, realizada em Belém, das negociações climáticas de Bonn, em junho de 2026, e da Primeira Conferência sobre a Transição para Além dos Combustíveis Fósseis, realizada em Santa Marta, na Colômbia.

“Como pessoas de fé, reafirmamos nossa urgente responsabilidade de proteger a Casa Comum e defender a justiça climática”, afirma a campanha.

Uma resposta de fé diante da crise climática

A declaração nasce da compreensão de que a crise ambiental não pode ser separada das desigualdades sociais. Os efeitos das mudanças climáticas atingem toda a humanidade, mas recaem com maior intensidade sobre populações empobrecidas, povos indígenas, agricultores, migrantes, comunidades deslocadas e grupos historicamente marginalizados.

Segundo o documento completo da campanha, os últimos anos confirmaram a fragilidade da situação climática mundial. Mesmo com o cumprimento integral dos compromissos atualmente apresentados pelos países, a temperatura média global ainda poderá aumentar entre 2,3 °C e 2,5 °C. Mantidas as políticas atuais, a elevação pode chegar a 2,8 °C.

Para a Companhia de Jesus, enfrentar essa realidade exige mais do que discursos ambientais. É necessário transformar a esperança em decisões políticas, mudanças econômicas e novos modos de relacionamento com a criação.

A mobilização está diretamente relacionada à quarta Preferência Apostólica Universal da Companhia de Jesus, que convida jesuítas e colaboradores a “colaborar com o cuidado da Casa Comum”. A orientação aponta a justiça socioambiental como parte integrante da missão de reconciliação e defesa da dignidade humana.

Primeiro apelo: uma transição energética que não deixe ninguém para trás

O primeiro chamado pede a construção de um caminho claro para uma transição energética justa, orientada pelo princípio das responsabilidades comuns, porém diferenciadas.

Isso significa reconhecer que todos os países possuem responsabilidade no enfrentamento da crise climática, mas que as nações que historicamente mais emitiram gases de efeito estufa devem assumir compromissos maiores e mais rápidos.

A campanha defende metas objetivas e com prazos definidos para a eliminação gradual do carvão, do petróleo e do gás. O documento propõe que os países desenvolvidos liderem esse processo, avançando na superação dos combustíveis fósseis até 2040.

Também é defendida a retirada de subsídios públicos que favorecem os combustíveis fósseis e enfraquecem a expansão das fontes renováveis.

Entretanto, a transição não pode ser construída apenas pela substituição de uma fonte de energia por outra. Ela deve proteger trabalhadores das indústrias extrativistas e energéticas, agricultores, migrantes forçados, comunidades deslocadas e povos indígenas que vivem em territórios onde se encontram muitos dos minerais necessários para as novas tecnologias.

A mudança precisa respeitar os direitos humanos, proteger a natureza e colocar os modos de vida sustentáveis acima de modelos de desenvolvimento orientados exclusivamente pelo lucro.

Segundo apelo: financiamento sem produzir novas dívidas

O segundo apelo trata do financiamento climático destinado aos países com maior vulnerabilidade ambiental e socioeconômica.

A declaração pede recursos previsíveis, suficientes e de fácil acesso, principalmente por meio de doações e outros mecanismos que não gerem novas dívidas. A preocupação é impedir que países de renda baixa e média precisem recorrer a novos empréstimos para reconstruir cidades, recuperar plantações ou atender populações atingidas por secas, enchentes, incêndios e outros eventos extremos.

O documento recorda que mais de 3,3 bilhões de pessoas vivem em países nos quais os governos gastam mais com o pagamento de dívidas do que com serviços essenciais, como saúde e educação.

Nesse cenário, oferecer financiamento climático na forma de empréstimos pode agravar uma injustiça já existente: populações que pouco contribuíram para o aquecimento global acabam pagando, com juros, pela reconstrução dos territórios atingidos.

A campanha também solicita o fortalecimento do Fundo de Resposta a Perdas e Danos, criado para apoiar países especialmente vulneráveis. Para os jesuítas, esse mecanismo precisa receber recursos regulares e ser capaz de responder não apenas às perdas econômicas, mas também à destruição de patrimônios culturais, ao deslocamento de comunidades e à perda de modos tradicionais de vida.

Terceiro apelo: sistemas alimentares baseados na soberania e na agroecologia

O terceiro chamado dirige a atenção para a produção, o processamento, a distribuição e o consumo de alimentos.

A campanha pede metas claras para a construção de sistemas alimentares centrados na soberania alimentar, na agroecologia e em práticas culturalmente adaptadas às diferentes comunidades.

O documento aponta que os sistemas alimentares respondem por aproximadamente um terço das emissões globais de gases de efeito estufa. Ao mesmo tempo, secas, enchentes, mudanças no regime de chuvas e aumento das temperaturas colocam em risco a alimentação de bilhões de pessoas.

A transformação proposta passa pelo apoio aos pequenos agricultores, pela proteção das sementes tradicionais e indígenas, pela recuperação dos solos, pelo combate ao desperdício e pelo incentivo à produção local de alimentos.

Também envolve assegurar a participação de povos indígenas, mulheres, pescadores, comunidades tradicionais e agricultores familiares nas decisões climáticas. Para a campanha, essas populações não podem ser vistas apenas como vítimas da crise, mas como portadoras de conhecimentos fundamentais para a proteção da biodiversidade e a construção de sistemas mais resistentes.

De Belém a Antalya

A declaração reconhece avanços alcançados durante a COP30, realizada em Belém, especialmente na inclusão dos direitos humanos, dos direitos trabalhistas, da igualdade de gênero e dos conhecimentos indígenas nas discussões sobre transição justa.

Por outro lado, avalia que a conferência terminou sem um roteiro suficientemente claro para a eliminação gradual dos combustíveis fósseis.

A COP31 surge, portanto, como uma oportunidade de transformar os compromissos assumidos em Belém em medidas concretas, com metas, prazos, financiamento e mecanismos de acompanhamento.

Ao recordar o ensinamento do Papa Francisco na Laudate Deum e o apelo do Papa Leão XIV por uma conversão ecológica capaz de transformar os estilos de vida pessoais e comunitários, a campanha reforça que o cuidado com a criação não pode permanecer apenas no campo das intenções.

É preciso passar dos dados ao cuidado, das declarações à ação e das promessas à responsabilidade compartilhada.

Como apoiar a declaração

Jesuítas, colaboradores, instituições, comunidades e pessoas de boa vontade podem apoiar publicamente os três apelos.

A assinatura pode ser feita individualmente ou em nome de uma instituição no site da Rede Global de Advocacy Inaciana.

Mais do que recolher assinaturas, a iniciativa pretende fortalecer uma rede internacional de oração, formação e mobilização em defesa das populações mais atingidas pela injustiça climática.

Cuidar da Casa Comum, recorda a campanha, significa defender a vida. Uma vida que precisa ser protegida não apenas no futuro, mas agora, especialmente nos lugares onde a crise climática já deixou de ser uma ameaça distante e se tornou parte da realidade cotidiana.

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