Levar energia limpa a comunidades isoladas da Amazônia significa muito mais do que instalar placas solares. Significa ampliar o acesso à comunicação, favorecer o armazenamento de alimentos e medicamentos, criar melhores condições para o estudo e fortalecer a autonomia das famílias que vivem na floresta.
Com essa proposta, o Projeto Flora realizou, entre os dias 2 e 16 de agosto, uma nova expedição ao município de Maués, no Amazonas. Cerca de 30 pessoas participaram da iniciativa, que percorreu 14 comunidades e reuniu integrantes brasileiros e espanhóis em uma experiência de formação, trabalho técnico e intercâmbio cultural.
Vinculado à atuação da Companhia de Jesus na Amazônia, o projeto desenvolve soluções sustentáveis em diálogo com comunidades indígenas e ribeirinhas. A missão não se limita à instalação de equipamentos. Uma de suas principais características é a capacitação dos próprios moradores para que possam operar, conservar e realizar manutenções básicas nos sistemas de energia solar.
A iniciativa procura evitar que as comunidades se tornem dependentes da presença permanente de técnicos externos. Ao compartilhar conhecimentos e preparar moradores, o projeto transforma a tecnologia em instrumento de autonomia e desenvolvimento local.
Energia que transforma a vida
Em regiões afastadas dos grandes centros urbanos, o acesso à eletricidade ainda representa um desafio. Muitas famílias dependem de geradores movidos a diesel, que exigem o transporte frequente de combustível, possuem custo elevado, produzem ruído e liberam poluentes no meio ambiente.
Os sistemas fotovoltaicos surgem como uma alternativa mais limpa e adequada à realidade amazônica. A energia gerada pelo sol pode contribuir para a iluminação das casas e dos espaços comunitários, o funcionamento de equipamentos, a conservação de alimentos e medicamentos e o acesso a meios de comunicação.
Mais do que substituir uma fonte de energia, a proposta busca criar condições para que as comunidades tenham maior segurança, independência e qualidade de vida.
Em ações anteriores, o Projeto Flora realizou a instalação de duas novas usinas solares e a manutenção de equipamentos existentes em outras cinco comunidades. O trabalho também inclui o desenvolvimento de estruturas padronizadas para facilitar a montagem, a operação e os cuidados com os sistemas fotovoltaicos.
Conhecimento construído com as comunidades
O Projeto Flora atua principalmente na região do Alto Urupadi, em Maués, onde vivem comunidades indígenas e ribeirinhas, entre elas grupos pertencentes ao povo Sateré-Mawé. Reconhecidos pelos conhecimentos ancestrais relacionados ao cultivo do guaraná, os Sateré-Mawé mantêm uma profunda relação cultural e espiritual com o território.
Por isso, o trabalho desenvolvido não parte apenas de decisões técnicas tomadas fora da Amazônia. A proposta inclui a escuta dos moradores, o levantamento das necessidades locais e a construção conjunta de soluções que respeitem o modo de vida, a cultura e os conhecimentos tradicionais de cada comunidade.
Durante as expedições, os participantes convivem com as famílias, conhecem seus costumes e enfrentam os desafios impostos pelas distâncias, pela limitação de recursos e pelas condições de deslocamento na floresta.
Essa convivência transforma o projeto em uma experiência de mão dupla. Enquanto estudantes, educadores e profissionais compartilham conhecimentos técnicos, as comunidades ensinam outras formas de relação com a natureza, com o território e com a vida coletiva.
Uma história construída ao longo dos anos
O Projeto Flora é resultado de uma caminhada iniciada há mais de uma década. Desde 2015, o Voluntariado em Família, da Espanha, em articulação com a Equipe Itinerante e outras instituições parceiras, desenvolve alternativas tecnológicas voltadas à proteção dos territórios e ao fortalecimento dos povos da floresta.
Entre as experiências realizadas estão o desenvolvimento de equipamentos de geolocalização, a construção de uma embarcação híbrida, movida a diesel e energia solar, e a implantação de sistemas fotovoltaicos para substituir gradualmente os geradores convencionais.
Outro objetivo é consolidar uma Escola de Energias Renováveis, capaz de oferecer formação técnica às comunidades ribeirinhas e indígenas de Maués. A proposta é preparar moradores para construir, operar e realizar a manutenção de instalações fotovoltaicas, garantindo que o conhecimento permaneça no território.
Educação colocada a serviço da realidade
A expedição também contou com a participação de integrantes ligados à Rede Jesuíta de Educação. Para estudantes e educadores, a experiência aproxima o aprendizado técnico dos problemas concretos enfrentados pela população.
O contato com situações reais exige criatividade, capacidade de adaptação e trabalho em equipe. Ao mesmo tempo, a convivência com os moradores amplia a compreensão sobre a realidade amazônica e reforça valores como cooperação, respeito às diferenças e responsabilidade socioambiental.
Os conhecimentos adquiridos durante a missão podem retornar às escolas e contribuir para a formação de jovens mais conscientes sobre a importância da Amazônia, das energias renováveis e da aplicação social da ciência.
A intenção é que a experiência não fique restrita às instituições diretamente envolvidas, mas possa inspirar outras unidades da Rede Jesuíta de Educação e gerar novas iniciativas de cuidado ambiental e compromisso social.
Autonomia também protege a floresta
As comunidades do Alto Urupadi enfrentam ameaças que ultrapassam a falta de energia elétrica. A presença de madeireiros, invasores e grupos criminosos coloca em risco os territórios, os recursos naturais e a segurança das famílias.
Nesse contexto, ampliar a autonomia das comunidades também é uma maneira de fortalecer sua permanência no território. O acesso à energia e à comunicação pode colaborar com a organização comunitária, com a vigilância das áreas protegidas e com a denúncia de atividades ilegais.
Ao apoiar os moradores sem substituir seu protagonismo, o projeto reconhece que os povos indígenas e ribeirinhos não são apenas beneficiários de uma ação social. Eles são sujeitos fundamentais na defesa da floresta e guardiões de conhecimentos indispensáveis para o futuro do planeta.

Tecnologia a serviço da missão
A atuação do Projeto Flora está em sintonia com as Preferências Apostólicas Universais da Companhia de Jesus, especialmente com o compromisso de caminhar ao lado dos pobres e excluídos, acompanhar as juventudes e colaborar com o cuidado da Casa Comum.
A iniciativa também traduz em ações concretas o chamado da Igreja para uma ecologia integral, na qual a proteção do meio ambiente não pode ser separada da defesa da dignidade humana.
Na Amazônia, preservar a floresta também exige garantir condições dignas para quem vive nela. Isso passa pelo reconhecimento dos povos tradicionais, pelo respeito às suas culturas e pela construção de alternativas que não destruam o território para produzir desenvolvimento.
Ao unir energia solar, formação técnica e intercâmbio cultural, o Projeto Flora demonstra que a tecnologia pode ser colocada a serviço da vida. Uma luz que não chega para apagar os saberes da floresta, mas para fortalecer o protagonismo de quem há gerações cuida dela.
Com informações do Portal Jesuítas Brasil, da Preferência Apostólica Amazônia e da Escola Técnica de Eletrônica Francisco Moreira da Costa.