As preocupações da Igreja no Sul Global em relação à justiça climática estiveram no centro do encontro do Papa Leão XIV com líderes empresariais dos setores de energia e minerais críticos que atuam na América Latina e no Caribe. A audiência ocorreu no Vaticano, no sábado, 24 de janeiro, dando continuidade a um processo de diálogo iniciado em 2022.
O encontro integra a Iniciativa Construindo Pontes (Building Bridges Initiative), coordenada pela Pontifícia Comissão para a América Latina (PCAL). A proposta busca responder à tensão entre o desenvolvimento econômico sustentado pela exploração de recursos naturais e a exigência ética de justiça socioclimática, condição indispensável para uma vida digna e plena para todos.
Inspirada pelo magistério do Papa Francisco e apoiada, à época, pelo então cardeal Robert Prevost — hoje Papa Leão XIV —, a iniciativa promove um caminho de escuta, discernimento e corresponsabilidade. Seu objetivo é construir pontes de inclusão com universidades, pontes de reconciliação com sindicatos, câmaras de comércio e comunidades organizadas, e pontes de fraternidade com as Conferências Episcopais e demais instâncias eclesiais regionais.
Desenvolvimento econômico e cuidado da Casa Comum
Durante o encontro, os empresários puderam partilhar com o Papa Leão XIV reflexões sobre as ameaças e oportunidades enfrentadas pelo setor energético na América Latina e no Caribe. O diálogo favoreceu um discernimento conjunto sobre o que é necessário antecipar, promover e transformar, à luz do compromisso com o bem comum e com o cuidado da Casa Comum — dimensão central das Preferências Apostólicas Universais da Companhia de Jesus.
Antes da audiência privada, os participantes participaram de um café da manhã de trabalho, coordenado pela PCAL, no qual foram apresentados os avanços do processo até o momento e os desafios ainda existentes para uma transição energética verdadeiramente justa.
Um caminho sinodal e comunitário
O método adotado pela Iniciativa Construindo Pontes baseia-se na escuta atenta das realidades territoriais, especialmente das comunidades mais afetadas pela crise climática e ambiental. A partir dessa escuta, promove-se um discernimento social comunitário, em fidelidade ao magistério social da Igreja, com vistas à construção de processos sustentáveis, inclusivos e duradouros.
Nos últimos cinco anos, diversos encontros sinodais foram realizados em diferentes países das Américas, envolvendo bispos, acadêmicos, estudantes universitários, sindicatos, lideranças comunitárias e representantes do setor produtivo. Esses espaços têm contribuído para amadurecer propostas concretas e fortalecer uma visão integral do desenvolvimento humano.
Um chamado do Sul Global por justiça e proteção
A partir desses diálogos, surgiu a proposta de reunir representantes de setores estratégicos com o Papa, tendo como referência documentos recentes da Igreja no Sul Global, como “A vida está por um fio” (CELAM, 2024) e “Um apelo pela justiça climática e nossa casa comum” (CELAM e FABC, 2025).
Nesses textos, os cardeais fazem um forte apelo à conversão ecológica, denunciando falsas soluções e clamando por transformações estruturais. Entre os pontos destacados estão:
Justiça: superação do modelo econômico baseado em combustíveis fósseis, promoção do decrescimento responsável, interrupção de novas infraestruturas poluentes e criação de formas de governança que priorizem as comunidades mais vulneráveis.
Proteção: defesa dos povos indígenas e tradicionais, dos ecossistemas ameaçados e das populações empobrecidas, com especial atenção às mulheres, às novas gerações e às pessoas afetadas pela migração climática.
Ao promover esse diálogo com o setor empresarial, o Papa Leão XIV reafirma o compromisso da Igreja com a justiça climática e com o cuidado da Casa Comum, convidando governos, empresas e sociedade civil a assumirem, de forma corresponsável, a construção de um futuro mais justo, fraterno e sustentável.