No âmbito da Segunda Conferência Internacional sobre Reforma Agrária e Desenvolvimento Rural (ICARRD+20), realizada em Cartagena das Índias, a Igreja Católica apresentou uma visão integral da terra como fundamento da vida, da paz e da dignidade humana.
O encontro foi convocado pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura em parceria com o governo colombiano. Durante coletiva de imprensa, representantes da América Latina, África e do movimento ecumênico divulgaram o documento “Terra para a Vida, Terra para a Paz”, elaborado pelo Conselho Episcopal Latino-Americano e Caribenho (CELAM), em conjunto com organismos episcopais de outros continentes.
A mensagem foi clara: a reforma agrária não é um tema do passado, mas uma questão estrutural que toca o desenvolvimento humano integral e a estabilidade das nações.
Economia rural que constrói a paz
O núncio apostólico na Colômbia, Dom Paolo Rudelli, chefe da delegação da Santa Sé, reafirmou o compromisso da Igreja com a transformação estrutural do campo. Ele recordou que o magistério pontifício tem refletido amplamente sobre o tema, especialmente na encíclica Laudato Si', que ressalta que “tudo está interligado”.
Segundo ele, a crise climática revela uma fratura ética e espiritual mais profunda. Por isso, a reforma agrária deve ir além da simples redistribuição de terras, promovendo mudanças nas relações produtivas, sociais e políticas.
“Uma economia agrícola saudável também é uma economia pacífica; uma economia agrícola doente gera conflitos e violência”, alertou, evocando a realidade colombiana.
Transição justa e denúncia da especulação
O bispo Dom Juan Carlos Barreto, presidente da Comissão Episcopal Colombiana para a Pastoral Social – Cáritas Colômbia, destacou que a fé cristã exige compromisso concreto com a justiça social.
O documento denuncia a especulação imobiliária e a concentração de terras, que provocam migração forçada e afastam os jovens do campo. Defende ainda uma transição justa para um modelo econômico que priorize as comunidades rurais, valorize o trabalho camponês e fortaleça a agroecologia.
Unidade ecumênica pela terra e pela dignidade
Representando o Conselho Mundial de Igrejas, Emmanuel Yap apresentou uma declaração conjunta fruto do diálogo ecumênico. Ele destacou o consenso sobre a necessidade de combater a concentração especulativa de terras, promover democracias mais inclusivas e assegurar a participação efetiva de grupos historicamente marginalizados.
Também foi ressaltada a importância da responsabilização corporativa e da defesa da soberania alimentar.
Da África, o padre Uchechukwu Obodoechina, da SECAM, denunciou os impactos da concentração fundiária e da corrupção política, sublinhando que sem acesso à terra não há sustento, e sem alimento não há trabalho.
A mensagem final do encontro aponta para a interdependência entre terra, vida, alimento e dignidade — e convoca governos e sociedades a assumirem um compromisso efetivo com a justiça social e ambiental como caminho para a paz duradoura.
Com informações CELAM