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Quando a ciência alerta e a fé escuta: a imersão da IRI Brasil provoca um novo olhar sobre o cuidado da vida
Depois de acompanhar os bastidores do INPE e do CEMADEN, a Rádio Amar e Servir aprofunda agora a dimensão humana, espiritual e inaciana da imersão promovida pela IRI Brasil. Com a presença de pessoas ligadas à Companhia de Jesus, lideranças da Amazônia e o coordenador nacional da iniciativa, a experiência mostrou que a crise climática não é apenas um problema ambiental. É uma questão de fé, justiça, responsabilidade coletiva e cuidado com a Casa Comum
Por Murilo Galhardo
Publicado em 19/05/2026 15:51 • Atualizado 19/05/2026 17:30
Justiça Socioambiental
Desastre São Sebastião - Reprodução

Existe uma forma muito fácil de tratar a crise climática: como se ela fosse um assunto distante, técnico demais, grande demais ou reservado apenas aos cientistas, aos governos e às conferências internacionais. Mas a imersão promovida pela IRI Brasil no INPE e no CEMADEN mostrou justamente o contrário. A crise climática já atravessa a vida concreta das pessoas. Ela está nas enchentes que levam casas, nas secas que atingem comunidades inteiras, nos deslizamentos que ameaçam famílias, nas queimadas que sufocam cidades, no aumento da temperatura, na perda de biodiversidade e na fragilidade de tantos territórios brasileiros.

Depois de uma primeira matéria dedicada aos bastidores da ciência que monitora os riscos climáticos no Brasil, esta segunda reportagem nasce de uma pergunta mais profunda: o que essa experiência provoca na fé? O que ela desperta em quem carrega uma missão religiosa, educativa, comunicacional e social? E, sobretudo, que tipo de resposta espiritual se espera de quem diz acreditar no Criador, mas vive em uma sociedade que ainda trata a criação como se fosse descartável?

A IRI Brasil, Iniciativa Inter-Religiosa pelas Florestas Tropicais no Brasil, aparece nesse contexto como uma ponte necessária entre ciência, fé, comunicação e compromisso público. Sua missão ganha corpo quando aproxima lideranças religiosas, comunicadores, jovens, agentes pastorais e pessoas que atuam em comunidades do conhecimento produzido por instituições científicas. A proposta não é apenas oferecer informação, mas formar consciência. Não é apenas apresentar dados, mas provocar responsabilidade. Não é apenas falar sobre clima, mas perguntar o que cada liderança fará com aquilo que viu, ouviu e sentiu.

Essa missão se encontrou, durante a imersão, com um olhar profundamente ligado à Companhia de Jesus. A espiritualidade inaciana, marcada pelo discernimento, pelo serviço e pela busca de Deus em todas as coisas, ajuda a compreender que o cuidado com a Casa Comum não pode ser tratado como pauta secundária. Para quem vive a fé como missão, a criação não é cenário. É dom. É responsabilidade. É lugar onde Deus se revela e onde a dignidade humana precisa ser defendida.

Foi a partir desse horizonte que o padre Silvio, pesquisador e amazônida, trouxe uma das reflexões mais fortes da imersão. Ao falar da Amazônia, ele não se referiu apenas a uma floresta, a um bioma ou a um território estratégico para o equilíbrio climático do planeta. Falou de um lugar vivo, habitado por memórias, espiritualidades, culturas e saberes que muitas vezes foram ignorados por uma sociedade acostumada a valorizar apenas o conhecimento técnico.

“A Amazônia tem para comunicar saberes, especialmente aquilo que nós chamamos de saberes tradicionais, que muitas vezes são muito mais importantes do que os saberes técnico-científicos.”


A fala do padre Silvio não reduz a matéria à Amazônia. Pelo contrário, ela amplia o olhar. A Amazônia aparece como um sinal forte, talvez um dos sinais mais urgentes, mas o que está em jogo é maior: a capacidade de escutar os territórios. Escutar a ciência, as comunidades, os povos tradicionais, as periferias, os jovens, as lideranças religiosas e todos aqueles que já sentem na pele os efeitos da crise climática.

Padre Silvio também ligou essa escuta à espiritualidade inaciana. Ao recordar o Princípio e Fundamento dos Exercícios Espirituais de Santo Inácio de Loyola, ele destacou que o ser humano, como criatura do Criador, é chamado ao cuidado. Não se trata de uma escolha opcional para quem tem fé. É consequência direta de uma espiritualidade que reconhece Deus como criador e a vida como dom confiado à responsabilidade humana.

“Como criaturas do Criador, nós também somos convidados a cuidar de toda a criação.”

Essa afirmação muda o peso da conversa. Cuidar da Casa Comum não é moda, discurso ideológico ou tema reservado a especialistas. É coerência espiritual. É sinal concreto de amor ao Criador. É compromisso com as pessoas mais atingidas pelas mudanças climáticas. É resposta ética diante de um tempo em que a destruição ambiental se mistura com desigualdade, desinformação e indiferença.

A imersão também mostrou que os riscos climáticos não estão presos a um único território. A Amazônia aparece como lugar simbólico e urgente, especialmente porque nela a perda de biodiversidade ameaça também culturas, tradições e modos de vida. Mas o alerta se espalha por todo o país. No CEMADEN, os participantes tiveram contato com a realidade das cidades brasileiras diante de enchentes, secas, deslizamentos e desastres cada vez mais frequentes. A crise climática se manifesta de formas diferentes, mas quase sempre atinge primeiro quem tem menos condições de se proteger.

É por isso que a fé precisa aprender a olhar para os mapas de risco como quem olha para rostos humanos. Atrás de cada alerta, há famílias. Atrás de cada gráfico, há comunidades. Atrás de cada desastre, há uma casa perdida, uma história interrompida, uma vida ameaçada. A ciência mostra os dados. A espiritualidade pergunta o que faremos com eles.

Nesse ponto, a presença de Emiliana Pacheco, secretária executiva do MAGIS Brasil, deu à imersão uma dimensão ainda mais significativa. Sua fala trouxe o olhar da juventude inaciana, da formação de lideranças e da missão que nasce da escuta. Vinda de uma experiência ligada ao acompanhamento de jovens e ao compromisso com a espiritualidade inaciana, Emiliana destacou que conhecer de perto o trabalho dos cientistas, os sistemas de monitoramento e a sala de acompanhamento de desastres foi uma experiência importante. Mas sua reflexão foi além da admiração técnica.

“A responsabilidade de cuidar da Amazônia e dessa Casa Comum não é só das pessoas que vivem nesse território, mas de todos nós.”


A frase precisa ser entendida em sentido amplo. A responsabilidade é de todos porque a crise climática é de todos. Das grandes cidades e das pequenas comunidades. Dos governos e das igrejas. Das escolas, das famílias, das lideranças políticas, dos comunicadores e de cada pessoa que faz escolhas de consumo, de voto, de convivência e de cuidado com o lugar onde vive.

Emiliana Pacheco também destacou que a escuta das pessoas que estão nos territórios precisa vir antes de qualquer resposta pronta. Para ela, só é possível enfrentar a crise climática de modo eficaz quando o conhecimento tradicional e o conhecimento científico caminham juntos.

“É muito importante que primeiro a gente faça a escuta das pessoas que estão nesse território, para depois, junto com os conhecimentos tradicionais, com o conhecimento científico, pensar pistas e maneiras de enfrentar essa crise climática cada vez mais eficaz.”

Essa é uma das grandes provocações da imersão. O futuro não será construído apenas em laboratórios, gabinetes ou conferências internacionais. Ele também será construído nas comunidades, nas pastorais, nas escolas, nas paróquias, nos movimentos sociais, nas rádios, nos grupos de jovens, nas redes de comunicação e nos espaços onde a informação se transforma em consciência.

Ao comparar a imersão com a experiência da COP, Emiliana observou que os dois espaços se complementam. Enquanto as conferências reúnem autoridades e lideranças globais para discutir grandes compromissos, experiências como a promovida pela IRI Brasil ajudam lideranças locais a compreenderem os dados, acessarem a ciência e se tornarem pontes para suas comunidades.

“A imersão nos faz pensar e articular melhor como vamos enfrentar ou continuar enfrentando essa crise climática, porque ela já existe.”

A força dessa frase está na constatação final: a crise já existe. Não é uma ameaça abstrata. Não é um problema para as próximas gerações. Ela já chegou. E, quando algo já chegou, a pergunta deixa de ser se devemos agir. A pergunta passa a ser por que ainda demoramos tanto.

Carlos Antônio Rocha Vicente, coordenador nacional da IRI Brasil, trouxe um dos momentos mais provocativos da reflexão. Sua fala aproximou cuidado ambiental, espiritualidade, vida pública e responsabilidade cotidiana. Para ele, o cuidado com o ambiente onde se vive é fundamental para a vida, para a economia, para a saúde, para a paz interior e também para a espiritualidade.

“Como é que a gente pode dizer que ama o Criador e não cuida do que Ele criou?”


A pergunta carrega força de denúncia e de exame de consciência. Ela não fala apenas aos ambientalistas. Ela fala às igrejas, às comunidades religiosas, aos comunicadores católicos, aos agentes de pastoral, aos gestores públicos e a todos que colocam a fé no centro da própria vida. Amar o Criador exige rever a forma como tratamos a criação. Falar de Deus e ignorar a destruição da vida é uma contradição que precisa ser enfrentada com coragem.

Carlos também lembrou que, quando essa consciência entra no coração, ela muda escolhas concretas. Muda a forma de consumir, de perguntar de onde vêm os produtos, de escolher representantes públicos, de cobrar vereadores, prefeitos e lideranças, de olhar para a precariedade das defesas civis e de assumir responsabilidade pelo território onde se vive.

“Quando vira valor, tudo que é valor importa para nós e orienta as nossas escolhas.”

Essa é uma chave poderosa. Muita gente tem opinião favorável ao cuidado com a natureza. Mas opinião nem sempre muda comportamento. Valor muda. Quando o cuidado com a Casa Comum vira valor, ele passa a orientar o modo de comprar, votar, comunicar, educar, rezar e servir. Ele deixa de ser discurso e se torna prática.

Ao explicar o propósito da IRI Brasil ao reunir lideranças religiosas, comunicadores, influenciadores e pessoas envolvidas em comunidades, Carlos destacou que a intenção é aproximar essas pessoas da ciência, dos cientistas e das instituições públicas que trabalham pela proteção da vida. Em um tempo de excesso de informação, notícias falsas e discursos desencontrados, essa ponte se torna ainda mais urgente.

“Está cada vez mais difícil achar o que é verdade no meio de tanta informação.”

A frase toca diretamente a missão da comunicação. Não basta informar. É preciso ajudar as pessoas a compreenderem. Não basta publicar dados. É preciso traduzir sem distorcer. Não basta falar de crise climática. É preciso mostrar onde ela toca a vida concreta das comunidades.

Nesse sentido, a presença da Rádio Amar e Servir na imersão também se conecta à missão de comunicar com responsabilidade, sensibilidade e compromisso cristão. A rádio não esteve ali apenas para registrar uma atividade. Esteve para escutar, interpretar e devolver ao público uma reflexão que une fé, ciência e vida. Comunicar a Casa Comum é também uma forma de servir.

Carlos explicou ainda que a IRI Brasil decidiu contribuir identificando lideranças que já atuam em comunidades religiosas e oferecendo a elas a oportunidade de dialogar com cientistas e instituições. A lógica é simples e profunda: fortalecer quem já cuida de pessoas para que possa cuidar ainda melhor.

“Servir vocês para que vocês possam servir melhor é uma imensa honra.”

Essa frase aproxima a missão da IRI Brasil do modo de proceder inaciano. Servir não é ocupar o centro. Servir é criar ponte. É permitir que a informação chegue mais longe. É ajudar quem está nas comunidades a atuar com mais clareza, consciência e esperança.

Ao falar de sua relação com a Companhia de Jesus, Carlos recordou sua trajetória no Acre e o contato com pessoas ligadas à defesa de direitos, à Igreja e ao serviço. Ele contou que, ao encontrar pessoas da Companhia, identificou ali uma forma de viver marcada pelo desapego e pela disposição de ver o outro melhor.

“Quando eu encontrei o pessoal da Companhia, eu me identifiquei muito, porque eu falava: isso é o que faz sentido, isso é o que muda a vida.”

No fim, esta segunda matéria não é sobre a Amazônia apenas. Também não é apenas sobre ciência, religião ou meio ambiente. É sobre o encontro entre tudo isso. É sobre uma visita que começou em salas de monitoramento e terminou como exame de consciência. É sobre perceber que os alertas climáticos não pedem apenas resposta técnica, mas também conversão humana.

A ciência pode indicar onde estão os riscos. A fé pode ajudar a perguntar por que ainda toleramos tanta indiferença. A comunicação pode transformar dados em consciência. A espiritualidade inaciana pode lembrar que amar e servir também significa cuidar da vida ameaçada, especialmente onde ela é mais frágil.

A crise climática já chegou. Ela está nas florestas, mas também nas cidades. Está nos rios, mas também nas casas. Está nos territórios tradicionais, mas também nas periferias urbanas. Está nos biomas, mas também nas escolhas diárias.

Diante disso, a pergunta que fica não é apenas sobre o futuro do planeta. É sobre o presente da nossa responsabilidade.

Que tipo de fé teremos se não formos capazes de cuidar?

Que tipo de sociedade construiremos se continuarmos tratando a criação como recurso e os mais vulneráveis como estatística?

E que tipo de humanidade queremos ser quando a própria Casa Comum começa a nos pedir socorro?

Esta reportagem especial da Rádio Amar e Servir integra a cobertura sobre fé, ciência e cuidado com a Casa Comum, a partir da imersão promovida pela IRI Brasil no INPE e no CEMADEN.
Texto e produção: Murilo Galhardo

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