Às vésperas do encerramento do Acampamento Terra Livre (ATL) 2026, em Brasília, o diretor do Serviço Amazônico de Reflexão e Espiritualidade (SARES), Silvio Marques, SJ, reafirmou o compromisso histórico da Companhia de Jesus com os povos indígenas e destacou a importância da presença da instituição no maior encontro indígena do país.
Segundo o jesuíta, a atuação junto aos povos originários faz parte da própria identidade da missão jesuíta no Brasil. “A Companhia de Jesus, aqui no Brasil, tem um compromisso histórico com os povos indígenas, basicamente na proteção e defesa dos povos originais”, afirmou.
O Acampamento Terra Livre integra o chamado “Abril Indígena”, mês de mobilização nacional que reúne lideranças de todo o país para denunciar violações de direitos e fortalecer a luta pelos territórios. Em sua 22ª edição, o ATL 2026 trouxe como tema “Nosso futuro não está à venda: a resposta somos nós”, com debates sobre democracia, crise climática e políticas públicas.
Presença que nasce da missão
Para Silvio, a participação do SARES no ATL não é apenas institucional, mas profundamente alinhada às prioridades apostólicas da Companhia de Jesus, especialmente no campo da justiça socioambiental. Ele explica que o trabalho se dá em duas frentes principais: formação e atuação direta com comunidades indígenas. “O SARES trabalha muito essa formação a partir dos direitos dos povos indígenas, tanto com indígenas na cidade quanto com povos como os Sateré-Mawé e os Mura”, destacou.
Além disso, o jesuíta enfatiza que a atuação acontece sempre em rede, em espírito sinodal, junto a organismos da Igreja e organizações indígenas. “Nós não trabalhamos sozinhos. Caminhamos com o CIMI, com a CNBB e com diversas organizações indígenas”, explicou.
Participação política e desafios no país
Um dos pontos centrais do ATL 2026 foi o incentivo à participação política indígena, especialmente em um ano eleitoral. Para o diretor do SARES, esse é um caminho urgente diante do cenário atual.
“Por incrível que pareça, o Brasil não tem nenhuma representação indígena nas câmaras legislativas estaduais”, alertou. Ele também criticou o atual cenário político nacional, classificando o Congresso como “anti-indigenista” e apontando a necessidade de ampliar a presença indígena nos espaços de decisão.
O ATL deste ano, inclusive, dedicou plenárias específicas ao tema, reforçando que “não existe agenda climática sem protagonismo político indígena”.

Identidade, território e consciência
Durante a entrevista, Silvio refletiu também sobre a identidade brasileira e a necessidade de superar preconceitos históricos. “O Brasil é terra indígena, o Brasil é território indígena”, afirmou, acrescentando que “todos nós temos descendência indígena” .
Ele também destacou que o termo “índio” carrega uma herança colonial e pejorativa, sendo mais adequado utilizar “povos indígenas”, que reconhece a origem e a dignidade desses povos.
Outro ponto central é a luta pelo território. “Qual é o grande tema dos povos indígenas hoje? Terra, território”, sintetizou. Segundo ele, sem o território, os povos perdem não apenas espaço físico, mas também cultura, espiritualidade e modos de vida.
Povos indígenas e cuidado com a Casa Comum
A entrevista também evidenciou o papel fundamental dos povos indígenas na preservação ambiental. De acordo com o jesuíta, as áreas mais protegidas do Brasil são justamente os territórios indígenas.
“Os povos indígenas oferecem para o Brasil um serviço muito fundamental, que são os serviços ambientais”, explicou, referindo-se à preservação das florestas e à contribuição para o equilíbrio climático.
Nesse contexto, ele aponta a educação como chave para transformar a percepção da sociedade. “Falta muita educação, muita conscientização daquilo que nós somos”, afirmou, defendendo a valorização dos saberes tradicionais nas escolas e universidades.
Comunicação, verdade e combate à desinformação
Diante do crescimento de discursos de ódio e desinformação nas redes sociais, Silvio fez um alerta sobre a importância de buscar fontes confiáveis.
“No mundo da pós-verdade, é muito importante que os canais oficiais sejam aqueles produzidos pela própria mídia indígena”, destacou.
Ele também denunciou a presença de narrativas preconceituosas, especialmente em ambientes digitais, que negam direitos e invisibilizam os povos indígenas.
Uma resposta concreta da fé
Ao final, o diretor do SARES sintetizou o sentido da atuação da Companhia de Jesus nesse campo: uma resposta concreta à crise socioambiental.
“O SARES é uma resposta da Companhia de Jesus na luta por justiça socioambiental”, afirmou. “É um compromisso concreto de fé e justiça diante das injustiças que vivemos”.
A presença no Acampamento Terra Livre, portanto, não é apenas simbólica, mas expressão de uma Igreja que caminha junto, escuta, forma e se compromete com os povos originários, especialmente na defesa da vida, dos territórios e da dignidade.